sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Se os poetas fossem menos patetas

Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda a gente feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves
De mirliflautas e lizores
De melharufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramusão
De libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão
Havia um ar novo
Perfumado odor das folhas
Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas nunca antes vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisar como ela sob os dedos

Mas os poetas são uns patetas
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar
E isso traz-lhe um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois


Boris Vian in canções e poemas . Assírio & Alvim, 1997 .Trad. Irene Freire Nunes
Fernando Cabral Martins

O Fanal

Aqui, onde entre mares cresceu a ilha,
pedra e ara súbito como torre erguida,
aqui ascende sob um negro céu
Zaratustra os seus fogos das alturas,-
fanal para navegantes sem rumo,
ponto de interrogação para os que têm resposta...

Esta chama de ventre esbranquiçado
-sua cobiça lança línguas a distâncias frias,
dobra o pescoço para alturas mais puras -
cobra erguida a pino, de impaciência:
este sinal o pus eu em frente a mim.

A minha própria alma é esta chama:
insaciável de distâncias novas,
lança ao alto, ao alto o seu ardor silente.
Porque fugira Zaratustra dos bichos e dos homens?
porque se escapou de repente de toda a terra firme?

Seis solidões conhece ele já -,
mas o seu próprio mar não lhe era solitário bastante,
a ilha deixou-o subir, sobre o monte ele se fez chama,
a uma sétima solidão
lança buscando agora o seu anzol por sobre a fonte.

Navegantes sem rumo! Destroços de astros velhos!
Ó mares de futuro! Ó céus inexplorados!
Lanço agora o anzol a tudo o que é solitário:
dai resposta à impaciência da chama,
agarrai para mim, pescador nos altos montes,
a minha sétima última solidão! -

Friedrich Nietzsche (1844-1900) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro
2. ed. Assírio & Alvim, 2001

"Não foi alguém, nem foi ninguém"

A morte de Mairi

Ela morreu
Como morre no Oriente a nuvem vermelha ao romper do dia,
A nuvem de beleza imensa que o sol inveja
E em glória se alevanta para roubar
A sua cor.

Ela morreu
Como morre o clarão breve e fugaz da luz do Sol
Que a sombra persegue correndo veloz.
Não mais cai a chuva, a glória passou e ela morreu
Como o arco-íris.

Ela morreu
Como morre a neve na praia caída à beira do mar
E a maré subindo, serena e lenta e sem piedade
E vai cobrindo sem nunca ver nem admirar
Sua brancura.

Ela morreu
Como morre a voz da harpa que ao soar vai esmorecendo doce e
solene.
Como num conto de encantar ela morreu
Um conto que ninguém ouvira e estava ainda
Em seu início.

Ela morreu
Como morre o luar que da Lua desce
E o marinheiro da noite escura se arreceia.
Como um sonho doce ela morreu e ao sonhador veio
A tristeza.

Ela morreu
Ao acordar sua beleza, Sem ela o Céu
Não fora o Céu. Ela morreu e assim o Sol
Na madrugada se vai erguer e apagar.
Morreu Mairi!


Evan Maccoll (1808-1898) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro
2. ed. Assírio & Alvim, 2001

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Um hemisfério numa cabeleira

Deixa-me respirar longamente, longamente, o aroma dos teus
cabelos, neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem se-
dento na água de uma nascente, e agitá-los na minha mão como
um lenço aromático, para sacudir recordações no ar.
Se pudesses saber tudo aquilo que eu vejo! tudo aquilo que eu
sinto!tudo aquilo que ouço nos teus cabelos! A minha alma viaja por
sobre o perfume como a alma dos outros homens sobre a música.
Os teus cabelos levam um sonho inteiro, cheio de velames e de
mastreações; levam grandes mares de monções que me transportam
para encantadores climas,onde o espaço é mais azul e mais profundo,
de atmosfera perfumada pelos frutos, pelas folhas da pele humana.
No oceano da tua cabeleira, avisto um porto irrompendo em
cantos melancólicos, homens vigorosos de todas as nações e navios
de todos os formatos recortando arquitecturas finas e complicadas
num céu imenso em que preguiça o eterno calor.
Nas carícias da tua cabeleira, reencontro as demoras das longas
horas passadas num divã. no quarto de um belo navio, embaladas
pelo rolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os cân-
taros refrescantes.
No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco
mesclado em ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplan-
descer o infinito do horizonte tropical; nas margens sedosas da tua
cabeleira embriago-me com os aromas misturados do almíscar, do
alcatrão e do óleo de coco.
Deixa-me morder demoradamente as tuas tranças pesadas e ne-
gras. Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, julgo estar
a mastigar recordações.

Charles Baudelaire(1821-1867) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro
2. ed. Assírio & Alvim, 2001)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

I

Tenho uma pele cor de fumo avermelhado, cor de mulo,
tenho um chapéu de miolo de sabugueiro coberto de tela
branca.
Meu orgulho é que a minha filha seja belíssima quando dê
ordens às mulheres negras,
minha alegria, que ela desnude um braço branquíssimo entre
suas galinhas negras,
e não se envergonhe de minha bochecha rude sob a barba,
quando volto a casa enlameado.

*

E primeiro lhe dou meu chicote, minha cabaça e meu chapéu.
Sorrindo, ela desculpa-me a cara encharcada; e leva ao rosto
minhas mãos, que engordurei provando a amêndoa de cacau,
o grão de café.
E depois ela me traz um lenço de cabeça farfalhante; e minha
roupa de lã; água pura para limpar meus dentes de silencioso:
e a água de minha bacia lá está; e escuto a água do tan-
que na cabana da água.

*

Um homem é duro, sua filha é doce. Que elas se encontre
sempre,
ao voltar ele, no mais alto degrau da casa branca,
e livrando seu cavalo do aperto dos joelhos,
ele esquecerá a febre que repuxa toda a pele do rosto para
dentro.

*

Gosto também de meus cães, do apelo de meu melhor cavalo,
e de ver no extremo da reta alameada meu gato sair de casa
em companhia da macaca...
coisas essas suficientes para não invejar as velas dos veleiros
que percebo no alto do teto de zinco sobre o mar, como um
céu.


Saint-John Perse
in Obra Poética
Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973
Trad. Darcy Damasceno
'Durante uma excursão ao Potomac, no decorrer de uma conversa com Aristide Briand e, como que justificando pelo seu amor da natureza a sua aversão pelo papel impresso, pronuncia (...):
«Um livro é a morte de uma árvore.» ' (pp.29)


Saint-John Perse
in Obra Poética
Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973
Trad. Darcy Damasceno

VI

Palmeiras!
e contra a crepitante casa tantas lanças de chama!

...As vozes eram um ruído luminoso e sotavento...O barco
de meu pai, diligente, conduzia grandes figuras brancas: talvez,
em suma, Anjos despenteados; ou talvez homens sadios, vestidos
de belo pano, capacetes de sabugueiro ( e assim meu pai, que foi
nobre e decente).

...Pois de manhã, pelos campos pálidos da Água nua, ao
longo do Oeste,vi andarem Príncipes e seus Genros, homens de
alta estirpe, bem vestidos e calados, que o mar antes do meio-dia é
um Domingo em que o sono tomou o corpo de um Deus,
dobrando as pernas.

E tochas ao meio-dia, se ergueram para minhas fugas,
E creio que Arcos, Salas de ébano e zinco iluminaram-se
todas as noites ao sonho dos vulcões,
na hora em que juntavam nossas mãos diante o ídolo em
traje de gala.
Palmeiras! e a doçura
de velhice nas raízes...! Os ventos alísios, os pombos trocazes
e a gata parda
esburacavam a amarga folhagem verde onde, na crueza de uma
noite com perfume de Dilúvio
as luas rosas e verdes inclinavam-se qual mangas.

...Já os tios falavam baixo a minha mãe. Haviam amarrado
seu cavalo à porta. E a casa durava, sob as árvores de plumas.

Saint-John Perse
in Obra Poética
Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973
Trad. Darcy Damasceno

estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny
in Pena Capital I
Assírio & Alvim, 2ª ed., 1999

uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles

Mário Cesariny
in Pena Capital I
Assírio & Alvim, 2ª ed., 1999

domingo, 15 de novembro de 2009