domingo, 28 de fevereiro de 2010


Memórias De Um Louco

Não me lembro da data. Não havia
data. Não havia mês. Só havia o
diabo!


Nikolai Gogol in Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp.45

O Grande Inquisidor

O homem, acredita, é mais fraco e mais vil do que tu pensavas. Acaso pode ele fazer o que tu fizeste? Estima-lo demais e tens por ele muito pouca piedade. Exigiste-lhe demasiado, tu que o amas mais que a ti próprio. Devias amá-lo menos e exigir-lhe menos. Ele é fraco e cobarde. O facto de hoje se sublevar, por toda a parte, contra a nossa autoridade, e de se orgulhar com isso, nada significa. As suas bravatas são filhas de uma vaidade de caloiros. Os homens são sempre umas criancinhas: - revoltam-se contra o professor, abandonam a aula; mas a revolta acabará depressa, custar-lhes-à cara.


Dostoiévski in Contos.Trad. Fernando Lopes Graça. Edições «Sírius», 1941, pp.26

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Por tão pouco
saí das minhas cinzas o que sou:
O Homem do Bem e do Mal
que nunca pôde valer
ao espelho descarnado
que está no chão desenhado
a apodrecer



Miguel Torga in O Outro livro de Job, 5ª edição revista. Coimbra, 1986., pp.32
'Depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes' (pp.31)


'As cigarras cantam
sem saberem que é a morte
que as escuta' (pp.40)


'Crepúsculo:
as ervas parecem seguir
os rebanhos que recolhem. (pp.48)



Matsuo Bashô in O gosto solitário do orvalho. Antologia Poética.
Versões de Jorge de Sousa Braga. Assírio & Alvim, 1986

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Poema Conjectural

O doutor Francisco Laprida, assassinado no dia
22 de Setembro de 1829 pelos «montoneros» de
Aldao, pensa antes de morrer:
Zumbem as balas pela tarde última
Há vento e há cinzas sobre o vento,
dispersam-se o dia e a batalha
disforme, e a vitória é dos outros.
Triunfam os bárbaros, os gaúchos.
Eu, que estudei as leis e mais os cânones,
eu, Francisco Narciso de Laprida,
cuja voz declarou a independência
destas cruéis províncias, derrotado,
de sangue e de suor manchado o rosto,
sem esperança nem medo e perdido,
vou para Sul por arrabaldes últimos.
Como aquele capitão do Purgatórioque,
debandando a pé e ensanguentado
o plaino, a morte fez cegar, tombar
lá onde um rio obscuro perde o nome,
assim hei-de eu cair. Hoje é o termo.
A noite lateral de infindos pântanos
espia-me e demora-me. Oiço os cascos
da minha quente morte que me busca
com ginetes, com belfos e com lanças.
Eu que ansiei ser outro, ser um homem
de sentenças, de livros, de ditames,
sob o céu jazerei entre lameiros;
mas endeusa-me o peito inexplicável
um júbilo secreto. Entretanto enfim
o meu destino sul-americano.
A esta fatal tarde me levava
o labirinto múltiplo de passos
que meus dias teceram desde um dia
da meninice. Descobri por fim
a recôndita chave dos meus anos,
a sorte de Francisco de Laprida,
a letra que faltava, essa perfeita
forma que soube Deus desde o princípio.
No espelho desta noite recupero
o meu insuspeitado rosto eterno.
Vai-se fechar o círculo e aguardo.
Pisam meus pés a sombra dessas lanças
que me buscam. A mofa já da morte,
os ginetes, as crinas, os cavalos
adejam sobre mim...Já o primeiro
golpe me fende o peito, o duro ferro,
a faca interior sobre a garganta.
Jorge Luis Borges in Poemas Ecolhidos. Edição bilingue. Trad. e
selecção de Ruy Belo. Dom Quixote, 2003., pp.17/19

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

É então a nossa vida um sonho apenas
tenuemente visto numa luz dourada
através do irresistível e negro curso do Tempo?

Sobre a terra curvados por uma cruel mágoa
ou a rir em espectáculos de qualquer feira,
agitamo-nos ociosos de um lado para o outro.

O curto Dia do Homem passamo-lo apressadamente
e, do seu alegre meio-dia, não enviámos
sequer um rápido olhar para o fim silencioso.



Lewis Carroll in Sylvie e Bruno. Trad. de Maria de Lourdes Guimarães. Prefácio de Fernando Guimarães. Relógio D'Água Editores, 2003
Lewis Carroll, ao visitar um escultor seu amigo, encontrou uma criança e começou a mostrar-lhe as vantagens que ela teria se substituísse a sua cabeça por uma de mármore. Uma dessas vantagens era aliciante. Residia no facto de não ser necessário pentear-se. A criança mostrou-se efectivamente convencida, acolhendo da melhor maneira aquela justificação.
(notas de Fernando Guimarães)
Lewis Carroll in Sylvie e Bruno. Trad. de Maria de Lourdes Guimarães. Prefácio de Fernando Guimarães. Relógio D'Água Editores, 2003

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Prisoners:Claude Hankins


CONVERSAS COM CASCAS DE ÁRVORE. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.


É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.



Paul Celan in A Morte É Uma Flor. Poemas do Espólio.
Trad. João Barrento. Edição Bilingue. Edições Cotovia, Lisboa, 1998., pp.37

A Morte

Para Yvan Goll
A morte é uma flor que só se abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.
E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes
Deixar-me ser o caule forte da sua alegria.

Paul Celan in A Morte É Uma Flor. Poemas do Espólio.
Trad. João Barrento. Edição Bilingue. Edições Cotovia, Lisboa, 1998., pp.15

Funkadelic: Maggot Brain

Sensação de vazio
Ao despedir-me colhi
uma espiga de trigo (pp.39)


Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago (pp.51)


Tendo adoecido em viagem
em sonhos vagueio agora
na planície deserta


Matsuo Bashô in O gosto solitário do orvalho. Antologia Poética. Versões de Jorge de Sousa Braga. Assírio & Alvim, 1986
Nós, que tanto nos amávamos, nunca tínhamos trocado uma palavra afectuosa.


Nikos Kazantzakis, in Zorba, O Grego., pp.8

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lava and Shore


Vem-me à lembrança, e choro este meu
pranto de crocodilo sincero...
Eu sou determinado, e Satanaz bem sabe
que não sei fazer o bem
e faço o mal que não quero...


Miguel Torga in O Outro livro de Job, 5ª edição revista. Coimbra, 1986., pp.52
Aquele que faz injustiça, faça-a ainda:
e aquele que está sujo, suje-se ainda:
e aquele que é justo, justifique-se ainda:
e aquele que é santo, santifique-se ainda.

Apocalipse
Cultivemos a planta
do silêncio: negro-musgo.
Dizer o nome
é perturbar o sono...


...a memória
a pulsação que dói...


Yvette K. Centeno, Entre Silêncios

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

'Uma simples palavra fez-me perceber que nada se modificou em mim no que a isto respeita, que é e continuará a ser uma ferida: que a trago comigo, tão funda que nunca sarará; ao fim de vários anos há-de continuar a ser exactamente o que era no primeiro dia'.

Van Gogh

The good reputation, sleeping, 1938


Há, na obra de um autor, palavras obsessivas, repetitivas, que são mais reveladoras que todos os factos recolhidos pela paciência dos biógrafos. Eis algumas que aparecem em Rimbaud: éternité, infini, charité, solitude, angoisse, lumiére, aube, soleil, amour, beauté, inouî, pitié, démon, ange, ivresse, paradis, enfer, ennui...

Henry Miller in o Tempo dos Assassinos, Um estudo sobre Rimbaud. Trad. Manuela R. Miranda. Hiena Editora, 1985., pp.34
Para compreender toda a importância da Estação no Inferno de Rimbaud, que se prolongou por dezoito anos, é preciso ler as suas cartas. Grande parte deste período foi passado na Costa da Somália e alguns anos em Aden. Vejamos uma descrição desse inferno terreno, contida numa carta dirigida à mãe: 'Não se pode imaginar o lugar: não há uma árvore, nem sequer ressequida, não há um tufo de erva. Aden é a cratera de um vulcão extinto cheia de areia do mar. Apenas se vê a lava e areia por todo o lado, incapazes de produzir o mais pequeno vestígio de vegetação. Em volta, areias desérticas. Os lados da cratera do nosso vulcão extinto impedem o ar de entrar e somos assados como num forno de cal'.

Henry Miller in o Tempo dos Assassinos, Um estudo sobre Rimbaud. Trad. Manuela R. Miranda. Hiena Editora, 1985., pp.16/17
Hoje, o poeta é obrigado a renunciar à sua vocação porque se lhe evidenciou já o seu desespero, porque já reconheceu a sua incapacidade de comunicar. Tempo houve em que ser-se poeta era a mais elevada das vocações; hoje é a mais fútil. E é assim, não porque o mundo se tenha tornado imune à voz do poeta, mas porque ele próprio já não acredita na sua missão divina. Há mais de um século que os poetas andam a cantar fora de tom; chegámos finalmente ao ponto em que ninguém os consegue acompanhar. O berro da bomba continua a fazer sentido, mas os delírios do poeta parecem uma algaraviada. Parecem e são, se, dois biliões de pessoas que há no mundo, só alguns milhares fazem de conta que entendem o que um determinado poeta diz. O culto da arte chega ao fim no momento em que só existe um punhado de eleitos. Nesse momento já não se trata de arte, mas sim da linguagem cifrada duma sociedade secreta devotada à divulgação de um individualismo desprovido de sentido.
Henry Miller in o Tempo dos Assassinos, Um estudo sobre Rimbaud. Trad. Manuela R. Miranda. Hiena Editora, 1985., pp.38

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Para uma metáfora ter vida necessita de duas condições essenciais: forma e raio de acção.


Frederico García Lorca in Anjo & Duende.
Trad. Aníbal Fernandes. Assírio & Alvim, 2007, pp 131