segunda-feira, 30 de agosto de 2010

discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és a flor nem luto nem acalanto nem estrêla
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espêlho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral, rasgando-os os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem




Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.147

ars magna

Devo ter corredores por onde ninguém passa devo
ter um mar próprio e olhos cintilantes
devo saber de cor o cetro e a espada
devo estar sempre pronto para ser rei e lutar
devo ter descobertas privativas implicando viagens
ao grande imprevisto
de um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do
teu peito o animal que inanimado canta
devo ser Júlio César e Cleópatra a força de Dniepper
e o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis
devo separar bem a alegria das lágrimas
fazer desaparecer e fazer que apareça
dia sim dia não




Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.147

manuel

A cidade a que tanto serviste de modêlo morreu
Esta rosa cortada para ti morreu
O teu irmão morreu
A noiva e o amigo e a alegria da sêde e da fortuna
morreram


A bem dizer estás vivo no deserto


Foi um luto gradual um luto que só foi luto de
repente
um dia
ninguém estava a dar por isso
e que alargou os teus braços essa forma especial
de pensamento que trazes colada ao peito para destinar países

É verdade Manuel! É verdade! É verdade!


Eu, de luto para luto, fico mais criança.
Havias de brincar à criança que sou
em volta desta mesa - e que servisse de exemplo!

Não falas? Não. Não falas
Os fantasmas não falam logo ao primeiro encontro
e tu és um fantasma COM TODA A FAMÍLIA VIVA
apesar do que digo, para variar


Que crueldade, não é? Mesmo variada.
Antes a tua sombra e essa rosa cortada.
Boa noite Manuel vou-te concretizar




Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.145/6

arte de ser natural com eles

Senhor Fantasma, vamos falar


Tudo foi e tudo acabou
numa cidade venezuelana
Boa parte de mim lá ficou
não vês senão o que voltou
no princípio desta semana


Senhor Fantasma, em que é que trabalha?

Em luzes e achados
chãos e valados
barcos chegados
comboios idos
Procuro os meus antepassados
altos hirsutos penteados
mudos miúdos desprevenidos

Senhor Fantasma, a vida é má
muito concerto pouca harmonia


A vida é o que nos dá
Não quero outra filosofia,

Senhor fantasma, diga lá
que estrêla se deve seguir?


(Mestre Fantasma: Ah, ah, ah!)


Senhor Fantasma, vamos dormir


Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.138/9

XVI

Duas aranhas esperam a mosca
com radiadores ventiladores rosa-chá
passagem ao estado de amora
alguns coupons
e várias teses de combate moderno

A mosca
passa
ou não passa
é um pouco como todas as coisas
estão mas não aparecem
e podem levar anos nisso

Mas duas aranhas esperam a mosca
com serviço de Turismo Dlão
lume aceso
página de sentença judiciária

Ao fundo
o galo enerva-se e quebra a mobília
numa grande convivência francesa
c0'a mosca que foge espavorida no vento

Agora à luz das baratas e dos apetrechos para campo
duas aranhas esperam a aranha
e esta é que não escapa
à ligeira tremura de ter vindo
pois nenhuma aranha escapou jamais às aranhas
nenhuma não sendo mosca fugiu
ao que mandam os deuses




Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.104/5

A Man Escaped


XIV

hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitéio onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros

ora êste foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt...uma poção de estricnina
deu-lhe a molesa foi dormir

preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado

Sem Jeito Para o Negócio Itálico


Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.102

Au Hasard Balthazar (1966)


Madrugada

Os lábios e as mãos do vento
o coração da água
um eucalipto
o acampamento das nuvens
a vida que nasce cada dia
a morte que nasce cada vida

Esfrego as pálpebras:
o céu anda na terra.


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.99

Aldeia

As pedras são tempo
O vento
séculos de vento
As árvores são tempo
as pessoas são pedras
O vento
volta-se sobre si mesmo e enterra-se
no dia de pedra

Não há água mas os olhos brilham



Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.98

On Reading


Túmulo de Amir Khusrú

para Margarida e António Gonzalez de Léon

Árvores carregadas de pássaros
sustêm a tarde a pulso.
Arcos e pátios. Entre vermelhos
muros, verde peçonha, um tanque.
Um corredor leva ao santuário:
mendigos, flores, lepra, mármores.

Túmulos, dois nomes, suas histórias:
Nizam Uddin, teólogo andarilho,
Amir Khusrú, língua de papagaio.
O santo e o poeta. Austero.
brota um luzeiro duma cúpula,
evola-se o odor do tanque.

Amir Khusrú, papagaio ou rouxinol:
um e outro em cada instante,
obscura a mágoa, a voz diáfana.
Sílabas, errantes incêndios,
vagabundas arquitecturas:
todo o poema é tempo e arde.




Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.83
VI

Falar-te-ei uma linguagem de pedra
(respondes com um monossílabo verde)
Falar-te-ei uma linguagem de neve
(respondes com um leque de abelhas)
Falar-te-ei uma linguagem de água
(respondes com uma canoa de relâmpagos)
Falar-te-ei uma linguagem de sangue
(respondes com uma torre de pássaros



Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.72
«Se tu és o sol que se levanta
eu sou o caminho de sangue.»




Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.70

sábado, 28 de agosto de 2010

Pedras soltas

7. Paisagem

Os insectos atarefados,
os cavalos cor de sol,
os burros cor de nuvem,
as nuvens, rochas enormes que não pesam,
os montes como céus desmoronados,
a manada de árvores bebendo no arroio,
todos estão aí, felizes no seu estar,
frente a nós que não estamos,
comidos pela raiva, pelo ódio,
pelo amor comidos, pela morte.


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.49

Pedras soltas

3. Biografia

Não o que pôde ser:
mas o que foi.
E o que foi está morto.


4. Sinos na noite

Ondas de sombra, ondas de cegueira
sobre uma fronte em chamas:
molhai o meu pensamento, e apagai-o!


6. Visão

Ao fechar os olhos vi-me:
espaço, espaço
onde estou e não estou.


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.47
«os deuses bebem sangue, devoram homens.»



Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.47

Lição de coisas

2. Máscara de Tláloc
talhada em quartzo



Água petrificadas.
Dentro, o velho Tláloc dorme,
sonhando tempestades.

4. Deus surgindo
de uma orquídea de barro

Entre as pétalas de argila
nasce, sorridente,
a flor humana.

6. Calendário

Contra a água, dias de fogo.
Contra o fogo, dias de água.

9.Criança e o pião

De cada vez que o joga
cai, exacto,
no centro do mundo.



Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.43

Pedra-de-toque

Aparece
Ajuda-me a existir
Oh inexistente pela qual existo
Oh pressentida que me pressente
Sonhada que me sonha
Aparecida desvanecida
Vem via ascende desperta
Rompe diques avança
Moita de brancuras
Maré de armas brancas
Mar sem freio galopando na noite
Estrela guiada
Esplendor que te cravas no peito
(Canta ferida fecha-te boca)
Aparece
Folha em branco tatuada de outono
Formoso astro de ondulados movimentos de tigre
Vagaroso relâmpago
Fincada águia estremecida
Cai pluma flecha engalanada cai
Faz soar a hora do encontro
Relógio de sangue
Pedra-de-toque desta vida


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.42

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Hoje, como dizer, deu-me para uma ligeira comoção...

Bem, eu como não consigo suportar por muito tempo a comicidade destas criaturas ditas «os bem-aventurados» (para mim, claro, as bestas do céu velho), vou-me encostar (ou talvez, reconfortar) ao ombro do Cesariny:

«Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu sendo
eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.»
Quando decidirem colocar-me uma coroa de flores na cabeça, lembrem-se (aviso, lembrem-se), que eu aprecio realmente a natureza humana, e, claro está, até para a hipocrisia funda é preciso ter olho para vendê-la. De resto, ó meus amores, sal é o que vos falta no sebo.

P.S - Hoje é dia de repetida «Entrevista com o vampiro».

AOS QUE PARECEM NOS ALVÉOLOS,
nenhuma flor aquieta
as asas futuras.

Assim, onde outrem oficia,
coloquêmo-nos
fora da sua égide...

ainda que uma besta se desenrosque
até à cauda,
se engolfe em nossa vigília.



Sebastião Alba. A noite dividida. Lisboa, Assírio & Alvim, 1996.,p. 107
«Uma palavra que está sempre na
boca transforma-se em baba.»


Provérbio Burundi
GOSTO DOS AMIGOS
que modelam a vida
sem interferir muito;
os que apenas circulam
no hálito da fala
e apõem, de leve,
um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
entre quem são
e quem eles me parecem,
o meu agrado inclina-se
para o mais reconciliado,
ao acordar,
com a sua última fraqueza;
o que menos preside à vida
e, à nossa, preside
deixando que o consuma
o núcleo incandescente
dum silencioso votivo
de que um fumo de incenso
nos liberta.


Sebastião Alba. A noite dividida. Lisboa, Assírio & Alvim, 1996.,p.82

PÉGASO

À saída do estádio
pressentimos na brisa
a chegada dos signos da noite

Indeciso, o cavalo
transpõe o fosso do horizonte,
sob a lua e um alto
expoente de pó

Inverte-se o casco percussor
à beira da fonte de Hélicon,
e o cavalo grego
deita-se para morrer

Um frémito distende-lhe as asas;
no olhar anterior ao mito,
aflui agora
a mais pura estância
das lágrimas.

Sebastião Alba. A noite dividida. Lisboa, Assírio & Alvim, 1996.,p.75
«De pouco serve a ida ao lugar de ausência.»


Sebastião Alba. A noite dividida. Lisboa, Assírio & Alvim, 1996.,p.39

Russia in color, a century ago

A group of Jewish children with a teacher in Samarkand, (in modern Uzbekistan), ca. 1910.


With images from southern and central Russia in the news lately due to extensive wildfires, I thought it would be interesting to look back in time with this extraordinary collection of color photographs taken between 1909 and 1912. In those years, photographer Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii (1863-1944) undertook a photographic survey of the Russian Empire with the support of Tsar Nicholas II. He used a specialized camera to capture three black and white images in fairly quick succession, using red, green and blue filters, allowing them to later be recombined and projected with filtered lanterns to show near true color images. The high quality of the images, combined with the bright colors, make it difficult for viewers to believe that they are looking 100 years back in time - when these photographs were taken, neither the Russian Revolution nor World War I had yet begun. Collected here are a few of the hundreds of color images made available by the Library of Congress, which purchased the original glass plates back in 1948.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Destino de Poeta

Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.19

Lago

Tout pour l'oeil, rien pour les oreilles
Ch. B

Entre áridas montanhas
as águas prisioneiras
repousam, cintilam
como um céu caído.

Nada senão os montes
e a luz entre as brumas;
água e céu repousam,
peito a peito, infinitos.

Como o dedo que afaga
uns seios, um ventre,
estremece as águas,
delgado, um frio sopro.

Vibra o silêncio, bafo
de pressentida música,
invisível ao ouvido,
apenas para os olhos.


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.17

Teu nome

Nasce de mim, de minha sombra,
amanhece em minha pele,
aurora de luz sonolenta.

Pomba brava teu nome,
tímida sobre o meu ombro.


Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.15

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Carnaval de Salvador na década de 1950

Era difícil, complicada a empresa; tão complicada que Deus não a pôde simplificar...Não pôde...nem soube. O filho, quando nasce, martiriza, tortura a mãe...mata-a muitas vezes...e não ri ao chegar ao mundo...Não ri...chora...grita...

Eu vivo. Nunca fiz vida. Fui mais sensato, gozei apenas...

Procriar é uma malvadez: é fazer desgraçados. É um crime matar, preceituam as leis. Crime muito maior é formar assassinos.

O filho devia amaldiçoar os pais. Foram eles que o condenaram à existência...ao suplício eterno...

Só há uma coisa pior que a vida: é a morte.

Se a humanidade fosse inteligente, se porfiasse, acabaria com os homens. Ventura suprema! Suprema superioridade! Demonstraria que tinha mais força do que o Criador: destruiria a sua obra infame.
Mas ninguém quer domar os sentidos; com os sentidos, ninguém quer ser hipócrita...

A morte era a recompensa da vida. Os homens que estragam tudo, estragam também essa recompensa: inventaram a alma, o Inferno e o Céu.

Só se compreende o compreensível. O Universo é incompreensível para os homens. Por isso estes o admiram, pasmam alarvamente diante dessa chocha «maravilha»...

A vida faz doer. E a morte?


Mário de Sá-Carneiro. Loucura. Publicações Europa-América, .p. 54/5
- Saber quem uma pessoa é; é conhecer a sua alma, penetrar nos seus pensamentos; saber como pensa, como executa. Numa noite, não se pode fazer tanto. A maioria das vezes, nem ao cabo de muitos anos se logra conhecer um companheiro de muitos anos. Por isso à tua pergunta «Quem é?», respondi: «Não sei». O seu nome, sei-o: Marcela, a filha da condessa.


Mário de Sá-Carneiro. Loucura. Publicações Europa-América, .p.17

sábado, 21 de agosto de 2010

Keir Dullea as the Marquis de Sade


- Meu amigo - confessou o escultor -, já não penso o mesmo acerca da literatura. Considerava-a dantes como uma futilidade, apenas digna dos espíritos fracos. Hoje compreendo que laborava num erro. A escultura faz corpos: eu faço corpos. A literatura faz almas: tu fazes almas.
Se pudéssemos conjugar as nossas duas artes faríamos vida. Felizmente é possível...


Mário de Sá-Carneiro. Loucura. Publicações Europa-América, .p.12
Pensando em Raul, dizia para mim próprio: «Será apenas um original que se deseja salientar, que faz galas nas suas originalidades; ou será um louco?»
Um louco, parecia-me a hipótese mais verdadeira. Mas no espírito do meu amigo havia tais incoerências que eu, vacilando, terminava por concluir: «É uma criatura incompreensível...um excelente rapaz...um grande artista...»


Mário de Sá-Carneiro. Loucura. Publicações Europa-América, .p.9/10

Filme: Salò ou 120 Dias de Sodoma


-Foi por isso justamente que me armei em escultor: faço estátuas. As minhas estátuas não são como as outras, meu velho, têm vida...Vida, percebes?...Em vez de fazer carne com a minha carne, faço vida com as minhas mãos; isto é, com o meu cérebro, que as conduz. Faço vida, o tempo passa sobre as minhas estátuas, não passa sobre mim...
(...)
-Pateta...Mulheres?Para quê?Não tenho as minhas estátuas, não tenho mármore?...Dizem vocês os literatos cretinos, descrevendo o corpo de uma mulher ideal: «As suas pernas bem torneadas e nervosas, eram duas colunas de rijo mármore; o seu colo alabrastro puro.» Sim, apesar da vossa grande imbelicidade , vocês compreendem que a suprema beleza da carne está em parecer pedra ...Ora eu tenho pedra; para que hei-de querer carne, pateta? E a dizer isto, acariciava os seios de uma maravilhosa dançarina grega.


Mário de Sá-Carneiro. Loucura. Publicações Europa-América, .p.8/9
Raul era dotado de um bizarro carácter; ora alegre, ora triste; ora falador - sem poder estar um minuto calado - , ora conservando-se largo tempo silencioso, imerso em profunda meditação. Por coisas insignificantes, assaltavam-no às vezes terríveis cóleras: lembro-me de que um dia , só por não querer adoptar uma opinião sua, me atirou com um insulto obsceno, acompanhado de um pesado tinteiro de vidro que, se me acertasse, podia muito bem dar cabo de mim. Mas as suas cóleras logo abrandavam; a chorar, pedia perdão. Eu perdoava-lhe sempre...
Frequentemente tinha ideias esquisitas, de uma esquisitice sinistra. Por exemplo, uma noite - depois de um dos seus costumados períodos de mutismo -. exclamou de súbito:
-Gostava que morresse toda a gente...todos os animais e que só eu ficasse vivo...
-Para quê? - perguntei espantado.
-Para experimentar o medo de ver completamente só, num mundo cheio de cadáveres. Devia ser delicioso! Que calafrio de horror!...



Mário de Sá-Carneiro. Loucura. Publicações Europa-América, .p.5

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

« é enquanto infinitos que nos sentimos limitados.»


Maurice Blanchot

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

movimento

movimento de alma
silêncio, emoção
de doçura meia,
essa tua palma
sobre a minha mão
o que tem que eu a leia?

para lá da floresta
onde as coisas são
sem minha licença,
mais linear que esta
confusa razão
da tua presença

não há outro sim
que não tem dizer
e é mais movimento?
qualquer coisa assim
como um tempo sem fim
como um espaço sem tempo


Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.63

história de cão

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca a janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny. manual de prestidigitação. Assírio & Alvim, 1981. Lisboa., p.22/3

II.

não consigo dormir, nunca mais.
ando de um lado para o outro. canso o corpo,
enquanto a língua segrega uma saliva exterminadora.

lá fora, dentro da noite, os chacais, as hienas cercam
a casa, mas o pior é este chacal que me esfarrapa as vísce-
ras, esta hiena que me devora o sonho.
pela janela vejo a linha crepuscular da duna.
um novo corpo liberta-se do meu e caminha fora de
mim - vejo-o afastar-se em direcção aos nevoeiros das
cidades.
sei, nesse instante, que nenhum abraço chega para
atenuar a dor da separação.
afastados, tudo o que nos resta é começar a imitar a
vida um do outro.

o que dissemos perdeu o sabor e o sentido.
harrar, aden, lisboa, este silêncio...capaz de ordenar
e desordenar o mundo, o canto sublime das miragens.
mas vai chegar o inverno, e a tristeza dos dias come-
ça a zumbir à roda da cabeça.

abri a janela.
avisto uma nesga de céu limpo.
lembro-me de quando tocava um sorriso por um
verso, ou por um insulto.
imitávamos assim a felicidade.

o sol fulmina a memória. limpa-a da crueldade do
passado.
a vida, aqui, reduz-se a efémeros passos, surdas gar-
galhadas, ideias que se evaporam lentamente.
enfim, o mundo não é assim tão grande...

e a vida, afinal, é como as orquídeas - reproduz-se
com dificuldade.
mas estou cansado.
os olhos fecham-se-me com o peso das paixões des-
feitas.
imagens, imagens que se colam ao interior das pál-
pebras - imagens de neve e de miséria, de cidades obsessi-
vas, de fome, de violência, de sangue, de aquedutos, de
esperma, de barcos, de comboios, de gritos...talvez...tal-
vez uma voz.


Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª ed., 2000, Lisboa., p. 66/7

II morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa a 20 de novembro de 1996

(...)

« de nada me serviria inventar outra vez o rio das pala-
vras, de nada me serviria saber a geometria exacta dos cris-
tais, ou redesenhar o corpo e aperfeiçoá-lo.
fico assim, inerte, à beira da noite...olhando o bri-
lho da lua jorrando águas.

o regresso nunca foi possível.
o verdadeiro fugitivo não regressa, não sabe regressar.
reduz os continentes a distâncias mentais.
aprende a fala dos outros - e, por cima dele, as cons-
telações vão esboçando o tormentoso destino dos homens.

pressinto uma sombra a envolver-me. ouço músi-
cas...espirais de som subindo aos subúrdios da alma.
e acendo o lume das pirâmides, onde o tempo não
foi inventado, e renego a alegria.
não semearei o meu desgosto, por onde passar.
nem as minhas traições.



Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª ed., 2000, Lisboa., p. 65

carta de emile

a minha cidade tinha um rio
donde sobre hoje o cheiro a corações de lodo
e um eflúvio de enxofre e de moscas cercando
as cabeças dos vivos

as pontes
as que vi ruírem nas imagens dos jornais
continuam de pé algures na memória

mas não podíamos sair dali
ir falar ou trocar fosse o que fosse - ou resistir
- porque não tínhamos nada para trocar excepto
a fome e a vontade inabalável de viver

nem pão nem balas
nem esperança - e cada um de nós
sepultou na alma uma quantidade desumana
de dor e de mortos

tudo se decompõe
apodrece
e as mãos enterram-se no estrume das horas - assim
te escrevo
sentado na parte mais triste do meu corpo
noite dentro
a boca a encher-se-me de ossos - até que irrompa a manhã
e os tiros recomecem
e a cinza do cigarro caia no chão
e em mim cresça uma alegria maligna


Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª ed., 2000, Lisboa., p. 48/79

aqueronte

ensanguentou-se a fonte dos sonhos
por isso fecha os olhos e vê
como o desejo acabou - vê a prata suja
envolvendo os amantes
no meio de sedas cintilantes espelhos e fogos
onde o sussurro das horas se perde
na trepadeira fatal da paixão


como um protege o outro - os dois procurando
um sémen limpo e
nenhuma palavra será adiada ou dita como antes


como a terra é um veludo a escorrer da boca
para a boca - triste néctar envenenado
contra os lábios que se despendem da casa
dos afectos
dos amigos
das coisas insignificantes e
da rua que não voltarão a ver

isolados dos outros
pernoitando na dormência ávida dos rios avançam
deitados no fundo da pesada barca - etéreos
entram com vagar na cidade desmoronada
na fissura deste tempo pestífero
que já não lhes pertence



Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª ed., 2000, Lisboa., p. 26/7

casa

durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia

esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes - e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema

levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa - respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo

olhas-te no espelho
atribuis-te um nome um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas - com o vento
que arrasta contigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos




Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª ed., 2000, Lisboa., p. 22/3

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal


Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª ed., 2000, Lisboa., p. 9

sábado, 14 de agosto de 2010

É muito cedo

Grave imobilidade do silêncio. Altera-o o cacarejo de um galo. Também a passada de um homem de trabalho. Mas o silêncio continua.
De repente, uma mão distraída no meu peito sentiu o latejo do meu coração. Não deixa de ser surpreendente.
E de novo - oh, os dias de outrora! -, as minhas recordações, as minhas dores, as minhas intenções caminham agachadas para se crucificarem nos caminhos de espaço e de tempo.
Assim, pode transitar-se com facilidade.



Pablo Neruda. Nasci para nascer. Publicações Europa-América. Trad de Eduardo Saló (texto em prosa), Dr. Mário Dionísio (poemas), 1878., p.20

Laura & Adrienne Hair


Elegia X - Sonho

Imagem da que amo, mais do que ela própria,
Cuja impressão clara no meu fiel coração
Me torna Medalha sua, e a obriga a amar-me,
Como os reis às moedas, a que o seu selo impõe
O valor: vai, e retira daqui o meu coração
Que se tornou grande e bom demais para mim.
As Honras oprimem os espíritos fracos, e aos sentidos
Embotaram-nos coisas fortes: se maiores, menos as vemos.

Quando partires, e a Razão partir contigo,
Então a Fantasia será Rainha e Alma, e tudo;
Ela oferece alegrias mais mesquinhas do que tu,
Mais convenientes e proporcionadas.
Então, se sonhar que te tenho, eu tenho-te,
Pois todas as nossas alegrias são só fantasia.
Assim fujo à dor, porque a dor é verdadeira
E o sono, que fecha os sentidos, exclui tudo o resto.

Depois de tal fruição irei acordar
E, além do acordar, nada mais lamentarei.
Ao amor farei Sonetos ainda mais gratos
Que se mais honras, choros e dores fossem gastos.
Mas querido coração, e mais querida imagem: ficai.
Ah!, as veras alegrias no melhor são sonho só.
Apesar de ficares, esvais-te depressa demais:
Pois até no início o Pavio da vida é um morrão.

Cheio do amor dela, possa eu antes tornar-me
Louco com um grande coração, que idiota sem nenhum.





John Donne. Elegias Amorosas. Edição bilingue. Trad. Helena Barbas. Assírio & Alvim., p.53/4

Elegia VII - Tutela

(...)

Não te havia ensinado ainda o alfabeto
Das flores, como podem, dispostas e atadas
Com imaginação, em segredo e sem palavras
Entregar mutuamente recados mudos.

...

Com tantas dívidas, tu não és mais dele - que
Tendo-te retirado dos baldios do mundo,
Te enclausurou para não seres vista, nem veres -
Do que minha; pois com delícias amorosas
Te refinei tornando-te um Paraíso de bênçãos.
Tuas graças e boas palavras são criaturas minhas;
Do conhecimento e da vida, as árvores plantei em ti,
E delas, Oh, irão estranhos provar? Deverei, então,
Cinzelar e esmaltar Prata para em Vidro beber?
Amolecer a cera para os selos alheios?Domar um potro
E abandoná-lo depois, tornado um cavalo rodado?




John Donne. Elegias Amorosas. Edição bilingue. Trad. Helena Barbas. Assírio & Alvim., p.42/3

Idris Khan, rising series… after eadweard muybridge ‘human and animal locomotion’, (2005)


The Life of John Donne (1572-1631)

John Donne was born in Bread Street, London in 1572 to a prosperous Roman Catholic family - a precarious thing at a time when anti-Catholic sentiment was rife in England. His father, John Donne, was a well-to-do ironmonger and citizen of London. Donne's father died suddenly in 1576, and left the three children to be raised by their mother, Elizabeth, who was the daughter of epigrammatist and playwright John Heywood and a relative of Sir Thomas More. [Family tree.]

Donne's first teachers were Jesuits. At the age of 11, Donne and his younger brother Henry were entered at Hart Hall, University of Oxford, where Donne studied for three years. He spent the next three years at the University of Cambridge, but took no degree at either university because he would not take the Oath of Supremacy required at graduation. He was admitted to study law as a member of Thavies Inn (1591) and Lincoln's Inn (1592), and it seemed natural that Donne should embark upon a legal or diplomatic career.

In 1593, Donne's brother Henry died of a fever in prison after being arrested for giving sanctuary to a proscribed Catholic priest. This made Donne begin to question his faith. His first book of poems, Satires, written during this period of residence in London, is considered one of Donne's most important literary efforts. Although not immediately published, the volume had a fairly wide readership through private circulation of the manuscript. Same was the case with his love poems, Songs and Sonnets, assumed to be written at about the same time as the Satires.

Having inherited a considerable fortune, young "Jack Donne" spent his money on womanizing, on books, at the theatre, and on travels. He had also befriended Christopher Brooke, a poet and his roommate at Lincoln's Inn, and Ben Jonson who was part of Brooke's circle. In 1596, Donne joined the naval expedition that Robert Devereux, 2nd Earl of Essex, led against Cádiz, Spain. In 1597, Donne joined an expedition to the Azores, where he wrote "The Calm". Upon his return to England in 1598, Donne was appointed private secretary to Sir Thomas Egerton, Lord Keeper of the Great Seal, afterward Lord Ellesmere.

Donne was beginning a promising career. In 1601, Donne became MP for Brackley, and sat in Queen Elizabeth's last Parliament. But in the same year, he secretly married Lady Egerton's niece, seventeen-year-old Anne More, daughter of Sir George More, Lieutenant of the Tower, and effectively committed career suicide. Donne wrote to the livid father, saying:

"Sir, I acknowledge my fault to be so great as I dare scarce offer any other prayer to you in mine own behalf than this, to believe that I neither had dishonest end nor means. But for her whom I tender much more than my fortunes or life (else I would, I might neither joy in this life nor enjoy the next) I humbly beg of you that she may not, to her danger, feel the terror of your sudden anger."1

Sir George had Donne thrown in Fleet Prison for some weeks, along with his cohorts Samuel and Christopher Brooke who had aided the couple's clandestine affair. Donne was dismissed from his post, and for the next decade had to struggle near poverty to support his growing family. Donne later summed up the experience: "John Donne, Anne Donne, Undone." Anne's cousin offered the couple refuge in Pyrford, Surrey, and the couple was helped by friends like Lady Magdalen Herbert, George Herbert's mother, and Lucy, Countess of Bedford, women who also played a prominent role in Donne's literary life. Though Donne still had friends left, these were bitter years for a man who knew himself to be the intellectual superior of most, knew he could have risen to the highest posts, and yet found no preferment. It was not until 1609 that a reconciliation was effected between Donne and his father-in-law, and Sir George More was finally induced to pay his daughter's dowry.

In the intervening years, Donne practised law, but they were lean years for the Donnes. Donne was employed by the religious pamphleteer Thomas Morton, later Bishop of Durham. It is possible that Donne co-wrote or ghost-wrote some of Morton's pamphlets (1604-1607). To this period, before reconciliation with his inlaws, belong Donne's Divine Poems (1607) and Biathanatos (pub. 1644), a radical piece for its time, in which Donne argues that suicide is not a sin in itself.

As Donne approached forty, he published two anti-Catholic polemics Pseudo-Martyr (1610) and Ignatius his Conclave (1611). They were final public testimony of Donne's renunciation of the Catholic faith. Pseudo-Martyr, which held that English Catholics could pledge an oath of allegiance to James I, King of England, without compromising their religious loyalty to the Pope, won Donne the favor of the King. In return for patronage from Sir Robert Drury of Hawstead, he wrote A Funerall Elegie (1610), on the death of Sir Robert's 15-year-old daughter Elizabeth. At this time, the Donnes took residence on Drury Lane. The two Anniversaries— An Anatomy of the World (1611) and Of the Progress of the Soul (1612) continued the patronage. Sir Robert encouraged the publication of the poems: The First Anniversary was published with the original elegy in 1611, and both were reissued with The Second Anniversary in 1612.

Donne had refused to take Anglican orders in 1607, but King James persisted, finally announcing that Donne would receive no post or preferment from the King, unless in the church. In 1615, Donne reluctantly entered the ministry and was appointed a Royal Chaplain later that year. In 1616, he was appointed Reader in Divinity at Lincoln's Inn (Cambridge had conferred the degree of Doctor of Divinity on him two years earlier). Donne's style, full of elaborate metaphors and religious symbolism, his flair for drama, his wide learning and his quick wit soon established him as one of the greatest preachers of the era.

Just as Donne's fortunes seemed to be improving, Anne Donne died, on 15 August, 1617, aged thirty-three, after giving birth to their twelfth child, a stillborn. Seven of their children survived their mother's death. Struck by grief, Donne wrote the seventeenth Holy Sonnet, "Since she whom I lov'd hath paid her last debt." According to Donne's friend and biographer, Izaak Walton, Donne was thereafter 'crucified to the world'. Donne continued to write poetry, notably his Holy Sonnets (1618), but the time for love songs was over. In 1618, Donne went as chaplain with Viscount Doncaster in his embassy to the German princes. His Hymn to Christ at the Author's Last Going into Germany, written before the journey, is laden with apprehension of death. Donne returned to London in 1620, and was appointed Dean of Saint Paul's in 1621, a post he held until his death. Donne excelled at his post, and was at last financially secure. In 1623, Donne's eldest daughter, Constance, married the actor Edward Alleyn, then 58.

Donne's private meditations, Devotions upon Emergent Occasions, written while he was convalescing from a serious illness, were published in 1624. The most famous of these is undoubtedly Meditation 17, which includes the immortal lines "No man is an island" and "never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee." In 1624, Donne was made vicar of St Dunstan's-in-the-West. On March 27, 1625, James I died, and Donne preached his first sermon for Charles I. But for his ailing health, (he had mouth sores and had experienced significant weight loss) Donne almost certainly would have become a bishop in 1630. Obsessed with the idea of death, Donne posed in a shroud - the painting was completed a few weeks before his death, and later used to create an effigy. He also preached what was called his own funeral sermon, Death's Duel, just a few weeks before he died in London on March 31, 1631. The last thing Donne wrote just before his death was Hymne to God, my God, In my Sicknesse. Donne's monument, in his shroud, survived the Great Fire of London and can still be seen today at St. Paul
's.

Essays and articles on John Donne

More than any other poet of the period, Donne represents his inner search for religious and erotic authenticity in such essentially continuous terms that even New Historicists find themselves forced to admit that the "sexual adverturism of [his] cynical young manhood" and "his adult religiosity" represent cognate "forms of passion radiat[ing] from Donne's frantic quest for personal immortality." (10) Quoting Kathryn R. Kremen, Robert N. Watson argues that the failure of this quest for transcendence leads not just to the misogynistic scapegoating or seduction of the women in the libertine lyrics, but also to the devout love lyrics' fantasy of making the "'sexual union of man and woman on earth ... the temporal and secular image which prefigures ... the hypostatical union in body and soul of man and the Godhead in heaven.'" (11)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Elegia V - Retrato Dele

Aqui está, toma o meu retrato; embora de ti me despeça
O teu no meu coração, onde habita a minha alma, habitará.
É como eu agora, mas se eu morrer, será mais.
Quando formos ambos sombras, do que era antes.
Quando eu voltar gasto das intempéries, as mãos
Talvez rasgadas pelos ramos rudes, ou curtidas pelos raios do Sol
A minha face e o peito de silício, e a cabeça semeada
Com os eczemas dos cuidados das tempestades súbitas,
O corpo num saco de ossos, quebrado por dentro,
E as manchas azuis da pólvora espalhadas na pele;
Se rivais loucos te acusarem de ter amado um homem
Tão imundo e rude como, ah! então poderei parecer,
Isto deverá mostrar o que eu era, e tu deverás dizer,
Será que as dores dele me atingem? Arruínam o meu valor?
Ou atingem-lhe a mente pensante, e ele agora
Amará menos o que tanto gostava de ver?
Aquilo que nele foi belo e delicado,
Era apenas o leite que no estado infantil do amor
O alimentava; o qual agora cresceu forte o bastante
Para se alimentar do que, a gostos desusados, parece rude.

John Donne. Elegias Amorosas. Edição bilingue. Trad. Helena Barbas. Assírio & Alvim., p.35

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

«Eu sou o aborto de uma grande beleza.»


Camilo Pessanha

terça-feira, 10 de agosto de 2010

196

Se a beleza imensa me responde ou não


Procurando-te como estou a procurar-te,
não posso ofender-te, deus, o que tu fores;
nem poderias ser ente de ofensa.

Se te posso, e eu sei que posso, ouvir
todo o mistério que és,
e não mo dizes como to pergunto,
não estou a ofender-te.

E sei que te penso
da melhor maneira que eu quero,
em verdade de beleza,
beleza de verdade que é o meu percurso.
E, se te penso assim,
eu não posso ofender-te.

Graças, eu dou-tas sempre. A quem as dou?
À beleza imensa, se eu as dou,
pois sou bem capaz de conseguir,
que tu tocaste, que és tu.

Se a beleza imensa me responde ou não,
eu sei que não te ofendo nem a ofendo.


Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 182/3

190

No melhor que tenho



Mar verde e céu cinzento e céu azul
e albatrozes amorosos na onda,
e em tudo, o sol, e tu no sol, olhando sempre,
deus desejado e desejante,
a iluminar de outros diferentes meu chegar,
a chegada de este que sou agora eu,
de este que ontem mesmo eu duvidava
que pudesse ser em ti como eu o sou.

Que mudança de homem em mim, deus desejante,
de ser incrédulo na lenda
dos deus de tantos faladores,
em ser firme crente
na história que eu próprio criei
desde toda a minha vida para ti!

Agora chego a este termo
de um ano da minha vida natural,
no meu fundo de ar em que te tenho,
em cima deste mar, fundo de água;
este formoso termo que me cega
onde me vais entrando,
contente de ser teu e de ser meu
no melhor que eu tenho, a minha expressão.


Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 175/6

184

Todas as nuvens ardem



Todas as nuvens ardem
porque te encontrei,
deus desejante e desejado;
tochas altas e cárdeas
(escarlates, azuis, rubras, amarelas)
num alto grito de rumor de luz.

Do horizonte redondo vêm todas
em reunião fulgente,
a abraçar-se com voltas de esperança
à minha fé respondida.

(Mar deserto, com deus
em redonda consciência
que me fala e me canta,
que me dá confiança e dá certeza;
por ti passo de pé
alerta, em mim firmado,
satisfeito porque minha viagem
é para o homem continuado, que me espera
um porto de chegada permanente,
de encontro repetido.)

Todas as nuvens que existiram,
que existem e existirão,
me rodeiam com sinais de evidência;
elas são para mim
a afirmação que se ergue do profundo
fundo de ar em que vivo;
o subir verdadeiro do subir,
do subir do achado no alto profundo.


Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 168/9

182

O nome dos nomes conseguido

Se, por ti, criei um mundo para ti,
deus, tu tinhas que a ele vir, sem dúvida,
e tu vieste a ele e a mim,
porque o meu mundo era a minha esperança.

Eu acumulei a minha esperança
em língua, em nome falado, em nome escrito;
a tudo eu tinha dado nome
e tu tomaste o lugar
de todos esses nomes.

Agora posso deter já meu movimento,
como a chama se detém em brasa rubra
com um esplendor de inflamado ar azul,
na brasa do meu perpétuo estar e ser;
agora sou já o meu mar paralisado,
o mar em que eu falava, mas não duro,
paralisado em ondas de consciência em luz
e todas vivas, voltadas para cima, para cima.

Todos os nomes que dei
ao universo que por ti eu me recriava
estão a converter-se em um só e em um
deus.

O deus que é sempre ao fim,
o deus criado e recriado e recriado
por graça e sem esforço.
O Deus. O nome dos nomes conseguido.

Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 166/7

domingo, 8 de agosto de 2010



So, so you think you can tell Heaven from Hell
Blue skies from pain
Can you tell a green field from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange a walk on part in the war
for a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls swimming in a fish bowl
year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here



Aqui na mina, esta cavidade aberta, exposta à erosão do tempo, onde os pássaros acordam o dia e o silêncio, abri um livro: De Profundis, Valsa Lenta. Li-o em comunhão com o ar quente e húmido da tarde. Fui descobrindo a nascente de água, esse caminho subterrâneo que se abre para a condução, de uma espécie de escuridão branca. Uma comoção - uma viva dor de borboletas nocturnas com duras asas cobertas de escamas finas de cristais férreos -, atingiu-me na queda de todos os espelhos, todos os voos calcinados.

Num cubículo alto, com uma fenda em V, entre dois pilares de rochedos róseos com rugas acastanhadas pelo enclausuramento das rigorosas sombras, os meus olhos lançam-se pelas rasuras da água. A pele queima (é sombrio o Alentejo). Deito-me sobre a rocha, que arde sobre o meu corpo cavernoso. As nuvens em desordem, no céu, parecem tochas acesas de memórias.

Reanimo o clarão e o palácio desfeito num conta-gotas de soro, que lentamente me acordava, naquele destino de forcas, na arena. Lembro-me das paredes, ironicamente brancas quando os meus olhos apenas viam e sentiam le sang des fleurs morts. Noite profunda na hora despida de luz. No vidro polido, diante de ti, Outro que me olhas: representas o engano. A ferida, que na borda do bacio, reluz, sanguínea, a vulnerável timidez, essa sempre mascarada do arrogante orgulho, e no fundo alguém que viveu dentro de ti, embora morto, acompanha-te os passos. Não vem aterrorizar-te na hora dos sonhos, vem, acalmar-te: dar-te a mão para subires a montanha. «Vê como é vasta!» . Só sentimos falta do vento que nos tocou, quando na aridez seca da tarde, já não o sentimos leve na pele. Descem as pálpebras de seda frágil. Sinto os que não desistem de me lançar a mão, para que saia desta escuridão, que tanto tem procurado pelos meus limites, pela minha atordoada e desistente luta.


Não é a Beleza que dorme, é o sangue que se apaga, como que cansado da viagem. Não luto pelos secos ressentimentos. A harmonia...que engano Senhor!, Interessam-me poucos os nados vivos deste mundo velho. Fui-me apagando lentamente como a chama que na campânula sorri no frio nevoeiro. Quem pensa ao «contrário», tem defeito, é um triste de um louco (e o que eu sempre gostei de loucos!).
Caí de joelhos em memória. Ouvi aquela voz... e, da frágil boca de orvalho um leve «Vive, que eu sou sombra». Sonhei mais tarde com a desordem. A minha alma tornou-se viajante como essas borboletas muito ‘’atreitas às flores do cemitério’’ , e, o que hoje guardo, são os olhos desse Outro que refulgem contra o vidro da névoa; e a mão pequenina guardada no meu coração aponta o pássaro que no abismo, transporta no bico, um dente-de-leão que leva entre a canção e a penumbra, a dor da lembrança. Na flor da água sobre este fundo negro, eis-me defronte o espelho: a outra face contaminada.

A insónia, trouxe-me os dias doentes. As fissuras pálidas desse luto cansado. A luz à espera do amanhecer das horas. O pesar da alma que arrasta o corpo. Vivi muitos dias com o teu pensamento na minha almofada. Era teu e meu. Mergulhava no sal das estátuas, que no jardim, me afastavam do teu existir. Doíam-me todas as palavras, que pudesse usar para te nomear. O tempo...o tempo cura-nos a desistência e obriga-nos a edificar. Olhei para o princípio e apaguei o fim. Mergulhei no profundo abismo. A memória atraiçoa-nos. Virei-a do avesso. Ó psicoanálisis! Vi-te sobre o dorso da pedra. O destino mostrou-me o engano. O teu corpo, naquele pássaro, que poisou sobre a pedra salpicada de erosão negra, com olhos de ternura nívea, trouxe-me a verdade. Vi e compreendi a forma. Abracei o livro contra o peito. A memória de Outro. Valsa lenta. As minhas lágrimas últimas; a nuvem no céu pareceu-me forma surrealista , sentida pela tua ausência.


Quando no sonho contra as janelas baças, no nevoeiro adensado de copas verdes de grandes árvores, um homem transportava uma menina de vestido branco com as formigas que lhe subiam até aos joelhos dobrados, descendo depois, caindo pelo chão, como códeas, marcando um carreiro infindo, encontrei o demarcado vaguear das imagens. Os teus limites: suados abismos circulares, como essas peças articuláveis de movimento que nunca cessa.


A tua morte foi sentida no Éden. A criança de olhos meigos, com as pernas entre os silvados, veio arranhada, aconchegar-se ao pé da tua mão. Pegou-a, talvez como se nunca a tivesse esquecido, e num rasgão forte, puxou-te pelo movimento. Olhas-te-a confusa. Confiaste no desconhecido inquietar doce. Transportaste as imagens que ela te deu. Andaram sobre um campo cheio de flores de espécies inomeáveis. Jogaste o velho jogo do mundo Rayuela, na terra vermelha e férrea. Cansaram as pernas e o coração. Num sopro, caíram cheios de ar e exaustos no pó do chão. Os Rostos colaram-se de lado e os seus olhos sorriam como as estrelas escondidas no céu diurno. Apagou-se a luz. Veio a nocturna passagem. Uma floresta, um jogo de escondidas, que em anseio, corremos de olhos vendados à procura de um rosto atrás duma árvore. Suspirei, vi-o ao longe, continuou a sorrir: acenou com a mão um adeus...e, nunca mais o vi. Procuraste entre as flores e nada, nem semente! Mas imagine-se, um sussurro na tua pele, guarda a sua existência. Entraste no lugar dum Outro, que és tu mesma: um Outro que vive a tua arborescência. O fogo de todos os arrozais. A escuridão de todos os nevoeiros. A neve no deserto presa ao ar rarefeito.

A dourada linha reveste a moldura. Rostos cínzeos fixam os teus olhos. Uma chama escorrega do isqueiro; a chama é como uma chaga, que consome as máscaras. As do teu rosto? Queimas a memória dos mortos, e guarda-las apenas no aguaceiro da escuridão branca. Regressas, com cinzas verdes nas mãos. Levantas-te do túmulo: na mina inteira, há olhos cegos, a queda do alto dos pássaros encolhidos na hora do inferno contra os rochosos escombros, que saúdam os teus perdidos passos, por breve momentos encontrados.

Sobes o caminho, os pássaros com corpo de corvos astutos, vigiam-te os passos perdidos. Continuas a subir. A cada escalada, as brasas fervem em lava. Os olhos procuram o fim desse caminho que te afasta deste lugar. Promessas!, ó ironia das promessas vãs. Uma lágrima quente, suave, despede-se desta ruína. O ar queima ...a garganta encolhe-se. Que caiam as máscaras...

Lento o teu regresso, mais lenta a partida daqueles que te sangraram. Viaja e vive! Os teus pés são as coordenadas da desordem. Desfruta das mãos que te suavizam a tensão dos ombros nus. Que o teu coração aprenda a desaprender do orgulho e raiva em que consomes as amarras dos teus espectros. Vive a mutação do teu Ser, que a suave forma da protecção te preencha em amor. Que os teus cansados desapontamentos sejam apenas breves passagens entre as rochas, desse lugar, onde encontras a solidão e o subtil acompanhar.
O céu traz a adensada forma: no lugar onde abandonaste o sonho encontrarás o princípio.

7 de Agosto de 2010
«Disse e vivi, Acta est fabula



José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.78
PROIBIDA A ENTRADA A MENORES
OU A ADULTOS AO COLO




José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.62
«(...) sem sacrificados não há principiante que chegue a bem sucedido.»



José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.62

«Inacreditável. Eu, o Outro de mim, em viagem de passos perdidos e a interrogar-me se não estaria a caminhar para a loucura. E o caso é que, desconcertante ou não, a pergunta aconteceu. E para maior surpresa, não a esqueci. Loucura, caminho para a loucura, a questão chegou-me com uma insistência passageira mas no estado em que me encontrava o que não seria para mim a loucura? Como é que eu, impessoal e tão a esmo, me tinha lembrado de tal coisa a propósito dum letreiro? Pensando-a a esta distância, admito que essa perturbação se possa dever a um eco da minha identidade do passado: ao enfrentar aquele letreiro como uma provocação da leitura e da escrita era o ex-autor de livros que estremecia na cegueira em que me tinha mergulhado e que tirava do fundo da sua razão perdida o esboço duma interrogação à loucura. Seria?»



José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.57
«Na véspera de não partir nunca...»


Álvaro de Campos
«Ver pessoas (figuras) através dum vidro mudo e perdê-las num acto contínuo. Tudo sem angústia, como quem preenchesse o tempo numa serenidade terminal. Como quem, na desertificação que o invadia, fosse avançando para a morte cerebral num cenário de contornos indiferentes.»


José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.33
«Para ele, agora ou ontem tudo era outrora, mundo alheio ou como tal. E desinteressante. O constante e desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e de lugares, de tempo e sentimentos.»


José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.32
«Ele, o Outro, O outro de mim. Em menos de nada, já a Edite falava ao telefone com os médicos sobre esse alguém impessoal que eu estava a começar a ser.

(...)

Lembro-me de que essa manhã foi invadida por um aguaceiro desalmado, ouvia-se uma chuva grossa e pesada lá fora mas deve ter sido passageira porque quando acabou a Edite ainda estava ao telefone. A partir de então tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta da vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com alguém ou do real com a visão que o abstracto contém.»



José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998., p.30/1
«Quando perdeste o sonho e a certeza tornaste-te desordem e fizeste-te nuvem.»


Simónides de Kéos, Epitáfio nas Termópilas
«A primeira, é que V. simplesmente teve sorte, e não há nada de mal com isso. O nosso inimigo queixava-se de Napoleão pode ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais com sorte, princípio para mim fundamental para a prática da profissão.» (p.17)
«O primeiro toca ao mistério que desde sempre tem intrigado os afasiologistas e que se refere ao estado mental dos afásicos, ou seja, o que pensa e como pensa aquele que não consegue de modo algum comunicar o pensamento. Aliás, esta questão é tão inquietante como a de tentar perceber o que sentem aqueles que se encontram no chamado «estado vegetativo persistente», em cuja intimidade receamos penetrar, esquecendo talvez que as flores também sofrem.» (p.18)
«Curiosamente, V. prende sempre a sua memória à imaginação indissociáveis e indispensáveis à sua criação literária.» (p.19)
«Uma última palavra. Para Keats, o desafio da poesia do futuro era «thinking into the human heart». Os cientistas deste e do próximo século sabem que a tarefa é «thinking into human brain», pois continuamos todos sem saber por que é que o «binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo». Mas como dizia a personagem do nosso Eça, certas coisas não se sabem e é preferível não se saberem. Não será melhor assim?
Ab imo corde. » (p.22)

João Lobo Antunes

Páscoa de 1997



in José Cardoso Pires. De Profundis, Valsa Lenta. Círculo de Leitores. Lisboa, 1998

sábado, 7 de agosto de 2010

Acerca de um livro intitulado «Lolita»

«(«Procede como um louco. Todos nós procedemos como loucos, creio. Embora toda a gente devesse saber que detesto símbolos e alegorias (devido, em parte, à minha velha animosidade pelo macumbismo freudiano, e, em parte, à minha aversão pelas generalizações inventadas por mitistas literários e sociologistas), […]»

«Não se deveria esperar que nenhum editor deste país livre se preocupasse com a demarcação exacta entre o sensório e o sensual: é ridículo. Sou capaz de admirar, mas não consigo emular, a exactidão de critério dos que escolhem as fotografias das jovens louras e mamíferas e as publicam em revistas onde o nível geral de decote se situa a uma altura estudada para não provocar o riso aos mais atrevidos e um franzir de testa aos mais sisudos.»

«Há boas almas capazes de considerar Lolita inútil porque não lhes ensina nada.»

«[…] Tudo mais é um acervo de lugares-comuns ou aquilo a que alguns chamam «literatura de ideias», a qual não passa muitas vezes de um acervo de lugares-comuns em enormes blocos de gesso, cuidadosamente transmitidos de século para século, até que aparece alguém com um martelo e dá uma boa martelada a Balzac, a Gorki ou a Mann.»


Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.324/5

Acerca de um livro intitulado «Lolita»

«A primeira palpitaçãozinha de Lolita percorreu-me em fins de 1939 ou começos de 1940, em Paris, numa ocasião em que estava com um ataque violento de nevralgia intercostal. Tanto quanto me lembro, o calafrio inicial da inspiração foi de certo modo provocado pela história que um jornal publicou acerca de um macaco do Jardin des Plantes que, após meses de treino por um cientista, foi autor do primeiro desenho jamais feito por um animal: um esboço que representava as grades do pobre bicho.»





Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.321

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

[...] nasci para nascer, para impedir a passagem
daquilo que se aproxima, daquilo que me bate
no peito como um novo coração palpitante.


Pablo Neruda. Nasci para nascer. Publicações Europa-América. Trad de Eduardo Saló (texto em prosa), Dr. Mário Dionísio (poemas), 1878.
«Quando a minha mãe, num lívido vestido húmido e sob a névoa que caía (era assim que a recordava claramente), correra, ofegante, pela encosta acima do Moulinet, para aí ser fulminada por um raio, eu era apenas um bebé e, em retrospectiva, não pude atribuir a nenhum momento da minha juventude quaisquer anseios e nostalgias do tipo aceito, por muito selvaticamente que os psicoterapeutas insistissem nesse ponto, nos meus períodos posteriores de depressão. Mas admito que um homem com a minha imaginação não pode alegar ignorância pessoal de emoções que são universais.»


Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.298

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

32

Houve um dia, na nossa primeira viagem - no nosso primeiro circuito do Paraíso - em que, para gozar os meus fantasmas em paz, decidi firmemente ignorar o que não podia deixar de compreender: que, para ela, não era um namorado, nem um homem sedutor, nem um camarada, nem sequer uma pessoa, e sim, apenas, dois olhos e um palmo de músculo ingurgitado - para mencionar somente as coisas mencionáveis. Houve um dia em que, depois de recusar e cumprir a promessa funcional que lhe fizera na véspera (qualquer coisa em que o seu engraçado coraçãozinho tinha empenho - um rinque de patinagem com um piso especial de plástico ou uma matinée a que queria ir sozinha), vi por acaso, da casa de banho, graças a uma ocasional combinação de espelho inclinado e porta entreaberta, uma expressão no seu rosto...uma expressão que não consigo descrever exactamente...uma expressão de tão perfeito desespero que parecia transmutar-se gradualmente noutra de confortável inanidade, precisamente porque fora atingido pelo próprio limite da injustiça e da frustração - e cada limite pressupõe algo para além dele, daí a compreensão neutra. E, se tiverem em mente que se tratava das sobrancelhas arqueadas e dos lábios entreabertos de uma criança, poderão avaliar melhor os abismos de carnalidade calculada e o pensado desespero que me contiveram e impediram de cair aos seus queridos pés e desfazer-me em lágrimas humanas, e sacrificar o meu ciúme aos prazeres que Lolita esperasse, porventura, encontrar na companhia de crianças sujas e perigosas num mundo exterior que era real para ela.
Mas ainda tenho outras recordações sufocadas, que se desdobram agora em monstros de dor desprovidos de membros. Uma vez, numa rua de Beardsley envolta no poente, ela voltou-se para a pequena Eva Rosen (eu levava as duas ninfitas a um concerto e caminhava atrás delas, mas tão perto que quase lhes podia tocar com o meu corpo), voltou-se para Eva e, muito serena e seriamente, em resposta a qualquer coisa que a outra dissera acerca de ser melhor morrer do que ouvir Milton Pinski, um estudante qualquer que ela conhecia, falar de música, a minha Lolita observou:
- Sabes, o que há de tão terrível em morrer é ficarmos completamente entregues a nós próprias.
Pensei então, enquanto os meus joelhos de autómato subiam e desciam que não sabia nada a respeito da mentalidade da minha querida e que, possivelmente, atrás dos horríveis clichés juvenis, havia nela um jardim e um crepúsculo, e o portão de um palácio - vagas e adoráveis regiões que me eram lúcida e absolutamente proibidas, nos meus farrapos poluídos e nas minhas miseráveis convulsões. Pois ocorreu-me muitas vezes que, vivendo como vivíamos, ela e eu, num mundo de mal absoluto, ficaríamos estranhamente embaraçados sempre que eu tentasse discutir qualquer coisa que ela e uma amiga mais velha, ela e uma pessoa da família, ela e um namorado autêntico e saudável, eu e Annabel, Lolita e um sublime, purificado, analisado, deificado Harold Haze poderiam discutir - uma ideia abstracta, um quadro, o pontilhado Hopkins ou o esbulhado Baudelaire, Deus ou Shakespeare, fosse o que fosse de natureza genuína. Boa vontade! Ela envolvia a sua vulnerabilidade em imprudência ordinária e enfado, enquanto eu, utilizando nos meus comentários desesperadamente impessoais um tom de voz artificial que me irritava, provocava na minha interlocutora tais explosões de rudeza que se tornava impossível continuar a conversa. Oh, minha pobre, minha magoada criança!





Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.294/5
Citando um velho poeta:

O senso moral dos mortais é o dever.
Temos de pagar com o sentido moral da arte.



Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.294.
«Cobri o rosto com a mão e derramei as lágrimas mais ardentes da minha vida. Sentia-as escorrer através dos meus dedos e pelo queixo abaixo, queimando-me, o nariz entupiu-se-me, não fui capaz de me controlar e, de súbito, ela tocou-me no pulso.
-Se me tocas morro - afirmei. - Tens a certeza de que não vais comigo? Não há nenhuma esperança de que me acompanhes? Responde-me só a isso.»


Vladimir Nabakov. Lolita. Livros de bolso europa-américa. Trad. Fernanda Pinto Rodrigues, 1995., p.289.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Greta Garbo, 1928


173

Pomba Ferida


Pelas rochas oiço-te arquejar,
a caminhar pra cima.
Sobe, não sou cruel,
oh pomba ferida.

Truncaram-te as asas côncavas?
Já não podes abri-las?
Vou, não sou trôpego,
oh pomba ferida!

Com os teus olhos deténs o sol
e páras a brisa.
Vem cá, não sou tardo,
oh pomba ferida!

Em minha boca tua sede aguarda-te,
tua sede que é minha.
Entra, não sou seco,
oh pomba ferida!


Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 156/7

170

REQUIEM


Quando todos os séculos regressam,
anoitecendo, à sua beleza,
sobe ao âmbito universal
a funda unidade terrena.

Então a nossa vida alcança
a alta razão de sua existência:
todos somos reis iguais
na terra, rainha completa.

Vemos-lhe as têmporas infindas,
escutamos-lhe a voz imensa,
sentimo-nos acumulados
pelas suas mãos verdadeiras.

Seu mar total é o nosso sangue,
a nossa carne é a sua pedra,
respiramos o seu ar uno,
seu fogo único incendeia-nos.

Ela está com todos nós,
todos nós estamos com ela;
ela é bastante para dar-nos
a todos a substância eterna.

E tocamos o zénite último
com a luz de nossas cabeças
e detemo-nos todos certos
de estar no que nunca se deixa.


Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 153

168

Rosa Íntima

(Todas as rosas são a mesma rosa
amor! a única rosa.
E tudo está nela contido,
breve imagem do mundo,
amor! a única rosa.)

Rosa, a rosa ...(Mas aquela rosa...)
A Primavera volta
com a rosa
escarlate, rósea, amarela, escarlate, branca;
e todos com a rosa se embriagam,
a rosa igual a outra rosa.
Uma rosa é igual a outra rosa?
Todas as rosas são a mesma rosa?
Sim (mas aquela rosa...)

A rosa que numa mão se isola,
que se cheira até ao fundo seu e nosso,
a rosa para o seio do amor,
para a boca do amor e da alma.
(...E para a alma era aquela rosa
que docemente entre as rosas se escondia,
e que uma tarde depois não se viu mais.
De que amarelo aquela fresca rosa?

Tudo, de rosa em rosa, louco vive,
a luz, a asa, o ar,
a onda e a mulher,
e o homem, e a mulher e o homem.
A rosa prende, bela
e delicada, para todos,
seu corpo sem penumbra e sem segredo,
a um tempo suave e pleno,
íntimo e evidente, ardente e doce.
Esta rosa, essa rosa, a outra rosa...
Sim (mas aquela rosa...)



Juan Ramón Jimenez. Antologia Poética. Selecção e Trad. de José Bento. Relógio D'Água, 1992, p. 150/151

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

«Parecia a Iegoruchka que esta canção suave, dolente e melancólica, como um queixume, que mal se ouvia, ora vinha da direita, ora da esquerda, ora de cima ora de baixo da terra; dir-se-ia que um espírito invisível voava sobre a estepe cantando. Iegoruchka olhava em volta, sem conseguir compreender donde partia este estranho canto. Momentos depois, escutando com mais atenção, convenceu-se de que era a erva que cantava; meio morta, condenada sem remissão, tentava com esta canção sem palavras, queixosa mas sincera, convencer alguém da sua completa inocência; fora injustamente que o Sol a calcinara. Repetia que desejava ardentemente viver, que ainda era jovem e que, sem aquele calor e sem aquela secura, teria sido bela. Não era culpada, e no entanto pedia perdão a alguém e jurava que sofria horrivelmente, que estava infinitamente triste e era digna de dó.»




Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 17

Eleanor. Chicago, 1948


« - Um homem não é como uma agulha, com certeza que havemos de o encontrar. A esta hora deve ele andar aí às voltas pelos arredores.»



Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 17
«Um gavião volteja muito alto, batendo as asas com um movimento harmonioso; de repente pára em pleno voo, parecendo meditar sobre o tédio da existência, depois sacode as asas e foge como uma flecha por cima da estepe, sem que se saiba porque voa e o que procura. Ao longe as velas do moinho continuam sempre a girar...»



Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 10
«Por muito que já tivessem andado, não havia forma de se ver nem o princípio nem o fim.»


Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 9