segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

POZZO   (...) « O ar esta noite tem qualquer coisa de outono. (Pozzo acaba de vestir o casaco, dobra-se, verifica se está bem, endireita-se.) Chicote! (Luckey avança, dobra-se, Pozzo arranca-lhe o chicote da boca, Luckey volta ao seu lugar.) Pois é, meus senhores, não posso passar muito tempo sem conviver com os meus semelhantes (põe os óculos e olha para os dois semelhantes) mesmo quando a semelhança é imperfeita.»



Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006., p. 34/5

domingo, 30 de janeiro de 2011

ESTRAGON    Olha para isto. (Observa o que resta da cenoura segurando-a pela rama.) É engraçado
                         que quanto mais como pior me sabe.
VLADIMIR      Comigo é exactamente o contrário.
ESTRAGON     Ou seja?
VLADIMIR      À medida que como vou-me habituando ao gosto.
ESTRAGON     (após prolongada reflexão)   E isso é o con-
                          trário?
VLADIMIR       Uma questão de temperamento.
ESTRAGON      De personalidade.
VLADIMIR       Não podes fazer nada.
ESTRAGON     É inútil resistir.
VLADIMIR       Cada um é o que é.
ESTRAGON     É inútil fugir.
VLADIMIR       O essencial nunca se altera.




Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006., p. 30/1

Os Navios

       Da imaginação até ao Papel. É uma difícil passagem, é um perigoso mar. A distância parece curta à primeira vista, e embora seja assim quão longa viagem é, e quão prejudicial por vezes para os navios que a empreendem.
       O primeiro prejuízo provém da natureza assaz frágil das mercadorias que os navios transportam. Nos mercados da Imaginação a maior parte das coisas e as melhores são fabricadas de vidros finos e de cerâmicas transparentes, e com todo o cuidado do mundo muitas vezes se partem no caminho, e muitas vezes se partem quando as desembarcam para a terra. E todo o prejuízo deste género é sem remédio, porque é impensável que o navio volte atrás para recolher coisas da mesma forma. Não há hipótese de encontrar a mesma loja que as venda. Os mercados da Imaginação têm lojas grandes e luxuosas mas não de duração longa. As suas transacções são curtas, arrematam as suas mercadorias rapidamente e liquidam de seguida. É muito raro para um navio voltar e encontrar os mesmos exportadores com os mesmos géneros.
       Um outro prejuízo provém da capacidade dos navios. Partem dos portos dos continentes prósperos sobrecarregados, e depois quando se encontram em alto mar vêem-se obrigados a deitar para fora parte da carga para salvar o todo. De tal modo que quase nenhum navio consegue levar completos tantos tesouros quantos recolheu. As coisas despejadas são obviamente os géneros de menor valia, mas por vezes acontece que os marinheiros, na sua grande pressa, cometem erros e deitam ao mar objectos preciosos.
        Mal chegam ao porto branco do papel e são precisos outros sacrifícios de novo. Vêm os oficiais da alfândega e examinam um género e pensam se devem permitir o desembarque; recusam deixar que se descarregue um outro género; e de certas tralhas apenas aceitam pequena quantidade. Um lugar tem as suas leis. Nem todas as mercadorias têm a entrada livre e é estritamente proibido o contrabando. A importação de vinhos é impedida porque os continentes de que vêm os navios fazem vinhos e álcoois de uvas que crescem e amadurecem a temperatura mais generosa. Os oficiais da alfândega não querem para nada estas bebidas. São demasiado embriagadoras. Não são propícias para quaisquer cabeças. Para além disso existe uma companhia no lugar que tem o monopólio dos vinhos. Fabrica líquidos que têm a cor do vinho e o sabor da água, e deles se pode beber o dia inteiro sem que subam à cabeça. É uma velha companhia. Goza de grande reputação, e as suas acções estão sempre sobrevalorizadas.
         Devemos, porém, ficar satisfeitos quando os navios entram no porto mesmo que seja com todos estes sacrifícios. Porque ao fim de contas com vigia e com muito cuidado limita-se o número de recipientes partidos e atirados ao mar durante a viagem. Também, as leis do lugar e as normas alfandegárias são tirânicas em grande medida mas não de todo proibitivas, e grande parte da carga desembarca-se. Nem os oficiais da alfândega são infalíveis, e alguns dos géneros impedidos passam dentro de caixas fraudulentas em que se escreve uma coisa por fora e por dentro se tem outra, e importam-se alguns bons vinhos para banquetes excelentes.
        Triste, triste é outra coisa. É quando passam alguns navios enormes, com joalharias de coral e mastros de ébano, com grandes bandeiras desfraldadas brancas e vermelhas, cheios de tesouros, que nem sequer se aproximam do porto quer por todos os géneros que levam serem proibidos, quer por o porto não ter bastante profundidade para os acolher. E seguem o seu caminho. Vão de vento em popa sobre as suas velas de seda, o sol fulgura na sua figura de proa em ouro, e afastam-se tranquila e majestosamente, afastam-se para sempre de nós e do nosso porto constrito.
        Felizmente são muito raros estes navios. Apenas vemos dois, três durante a nossa vida inteira. E rapidamente os esquecemos. E depois de passarem alguns anos se algum dia - quando estamos inertes olhando a luz e ouvindo o silêncio - por acaso voltarem os nossos ouvidos mentais algumas estrofes entusiásticas, de início não as reconhecemos e atormentamos a nossa memória para recordar onde as tínhamos ouvido antes. Dificilmente acorda a antiga memória e recordamos que estas estrofes são do cântico que salmodiavam os marinheiros, belos como heróis da Ilíada, quando passavam os grandes, os excelsos navios e avançavam indo - quem sabe para onde.
 
 
 
 
 
Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 145-147
«Quando vestir as roupas negras e quando morar dentro de uma casa negra, dentro de um quarto escuro, abrirei de vez em quando o móvel com alegria, com desejo e com desespero.»

 

Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 144

Antes de o tempo os mudar

Entristeceram grandemente     no momento da sua separação.
Eles não a queriam;       foram as circunstâncias.
Necessidades vitais       fizeram um deles
ir embora para longe -        Nova Iorque ou Canadá.
O seu amor não era     por certo como dantes;
tinha diminuído       a atracção gradualmente,
tinha diminuído       muito a sua atracção.
Mas separar-se,     não o queriam.
Foram as circunstâncias. -     Ou porventura artista
foi a Sorte      separando-os agora
antes de apagar-se o sentimento deles,      antes de o Tempo os mudar;
o um para o outro       ficará para sempre como se fosse
esse belo rapaz      dos vinte e quatro anos.



Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 115

Em desespero

De todo o perdeu.            E agora adiante
dos lábios de um seu             qualquer novo amante
seus lábios demanda;        na união de um qualquer
seu novo amante        o engano demanda
de ser aquele rapaz,         a quem ele se entrega.

De todo o perdeu,      como se nem existisse.
Porque pretendia - ele lho disse -   pretendia salvar-se
do estigmatizado,        do mórbido prazer;
Ainda era tempo de -   ele lho disse - salvar-se.

De todo o perdeu,      como se nem existisse.
Por imaginação,       por alucinações
nos lábios doutros rapazes          os lábios dele demanda;
sentir procurando     seu amor de novo.



Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 111
E da tragédia o Verbo fulgurante
não tires nunca do teu pensamento -



Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 99
O corpo morto do herói com devoção e com tristeza Febo levanta-o e leva-o para o rio.
Lava-o do pó e do sangue;
fecha as feridas horríveis, sem deixar
que se veja nenhum traço; aromas
de ambrosia despejada sobre ele; e com esplêndidas
roupagens olímpicas o veste.
A sua pele branqueia; e com um pente de pérolas
penteia os cabelos todos negros.
Seus belos membros aforma e deita.


O Funeral de Sarpèdón




Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 91

Deslealdade

Ora nós, que elogiamos muita coisa em Homero, não louvaremos
uma [...] Nem Ésquilo, quando faz dizer a Tétis que Apolo, ao
cantar nos seus esponsais, exaltara a sua bela progénie

de vida isenta de doenças e de longa duração.
Depois que anunciou que de tudo, no meu destino,
cuidariam os deuses,

                                                                                                                   entoou o péan, para minha alegria.
                                                                                                                  Julgava eu que era sem dolo, Febo
                                                                                                                  a boca imortal, plena da arte dos oráculos.
                                                                                                                 E ele, o mesmo que cantou este hino,[...] 
                                                                                                                      [...] ele mesmo é que o matou,
                                                                                         
                                                                                                                  esse  filho que é meu.


Platão, República II (383a-b)



Quando casaram Tétis com Peleu
levantou-se Apolo no esplêndido festim
do casamento, e falou da ventura dos recém-casados
com o rebento que sairia da sua união.
Disse: A este nunca lhe tocará a doença
e terá vida longínqua. - Quando disse isto,
Tétis alegrou-se muito, pois as palavras
de Apolo que conhecia de profecias
lhe pareceram garantia para o seu filho.

E enquanto Aquiles crescia, e era
a sua beleza alarde da Tessália,
Tétis lembrava-se da palavra do deus.
Mas um dia chegaram velhos com notícias,
e disseram a chacina de Aquiles em Tróia.
E Tétis rasgava a sua roupa púrpura,
e arrancava de cima de si e atirava
ao chão as pulseiras e os anéis.
E por entre os seus prantos lembrou-se do passado;
e perguntou que fazia o sábio Apolo
por onde andava o poeta que nos festins
maravilhosamente fala, por onde andava o profeta
quando matavam o seu filho na flor da vida.
E responderam-lhe os velhos que Apolo
ele próprio desceu a Tróia
e com os troianos matou Aquiles.


 
Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 87-89

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ESTRAGON    E se nos enforcássemos?
VLADIMIR      Mmm. Depois ficávamos com tesão!
ESTRAGON    (muito excitado) Tesão?
VLADIMIR      Com todas as suas consequências. Crescem
                         mandrágoras onde ele cai. É por isso que
                         elas gritam quando as arrancamos. Não sa-
                         bias?
ESTRAGON    Vamos enforcar-nos agora mesmo!
VLADIMIR      Num ramo? (Aproximam-se da árvore.) Não
                         me parece de confiança.
ESTRAGON    Não se perde nada em experimentar.



Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006., p.25/6

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

       Houve noites, em que nada disseste a ninguém, nem a ti própria. Ficaste entregue ao parapeito da janela, fixando o movimento das nuvens na madrugada. Escorriam enlutadas chamas de ti, do teu peito, e, olhavas certa a saudade. Olhavas e choravas, com a ingenuidade de uma criança.
      Não poderás esquecer (e, sempre lembrar?) o quarto de paredes frias e baças. Estavas só. Entregue à morte do teu sangue dentro ainda de um outro. E, desde então, foi como se houvesse vida numa morte. Um tronco algo queimado, onde pequenas folhas crescem com alguma timidez pelo dorso resistente. O sal que queima nos lábios, dá-te ânimo - já estiveste tão longe; não chegaste ao fim da viagem, porque as viagens não têm fim, mas são sempre os re(começados) caminhos que esperam pela luta e pelo cansaço.
        
          Pisaste (pisas?) um caminho doloroso, mas que escolheste (escolhes?). Tornaste-te mais tu própria e embora o céu te faça falta, a tua vida segue longe daquele que te cá deixou, entregue aos teus anseios e agonias.E se há dias em que o teu rosto mergulha na profundidade das mãos, sem ninguém entender razões, é porque, por alguma razão, ninguém te espera.

ESTRAGON   (frio) Há alturas em que não sei se não seria
                         melhor separarmo-nos.
VLADIMIR      Não ias longe.
ESTRAGON    Isso seria muito mau, muito mau mesmo.
                         (Pausa.)Não é verdade, Didi, muito mau
                          mesmo? (Pausa.) Tendo em conta a beleza
                          do caminho. (Pausa.) E a bondade dos ca-
                          minhantes. (Pausa. Carinhoso.) Não é verda-
                          de, Didi?


Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006., p.24
ESTRAGON     Tens a certeza que era esta noite?
VLADIMIR       O quê?
ESTRAGON     Que tínhamos de esperar.


Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006., p.23
VLADIMIR       Fico contente por te voltar a ver. Pensava
                          que te tinhas ido embora para sempre.
ESTRAGON      Também eu.



Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006

Acto I

Uma estrada no campo. Uma árvore.
                      Anoitecer.



Samuel Beckett. À espera de Godot. Trad. de José Maria Vieira Mendes. 3ª edição, Edições Cotovia, 2006

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

NON CHIEDERCI LA PAROLA

Non chiederci la parola che squadri da ogni lato
l'animo nostro informe, e a lettere di fuoco
lo dichiari e risplenda come un croco
perduto in mezzo a un polveroso prato.

Ah l'uomo che se ne va sicuro,
agli altri ed a se stesso amico,
e l'ombra sua non cura che la canicola
stampa sopra uno scalcinato muro!

Non domandarci la formula che mondi possa aprirti,
sì qualche storta sillaba e secca come un ramo.
Codesto solo oggi possiamo dirti,
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo.


Eugenio Montale

Edith, Danville, Virginia




«Primeiro falou o velho. Depois a mulher. Em seguida falou de novo o velho. Depois, de novo a mulher. Enquanto ela falava, devo ter adormecido, sem, no entanto, fenómeno realmente singular, perder a sequência da narrativa, como se aquela voz surgisse do mais profundo de mim mesmo. Quando o dia clareou e eu despertei, o velho voltou a falar.»


 Ignazio Silone. Fontamara, op. cit., p. 26.

Fontamara

«Não haveria nada mais a se dizer sobre Fontamara, se não tivessem ocorrido os estranhos acontecimentos que estou para contar. Lá vivi os primeiros vinte anos da minha vida e não saberia mais o que lhes contar». .


«[...] por vinte anos a mesma terra, as mesmas chuvas, o mesmo vento, a mesma neve, as mesmas festas, as mesmas comidas, as mesmas angústias, as mesmas penas, a mesma miséria: a miséria recebida dos pais que haviam herdado dos avós, e contra o qual o trabalho honesto nunca serviu para nada.»



Ignazio Silone

Dias de 1903

Não voltarei a encontrá-los - esses tão depressa perdidos....
esses olhos poéticos, esse pálido
rosto....no anoitecer da rua....

Não os encontrarei mais - aos adquiridos inteiramente por acaso,
que tão facilmente deixei;
e que depois com ansiedade queria.
Esses olhos poéticos, esse pálido rosto,
aqueles lábios não os encontrei mais.



Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 71
«O Lanes a quem amaste não está aqui, Marcos,
no túmulo a que vens chorar, e ficas horas e horas.
O Lanes a quem amaste tu o que tens mais perto de ti
quando em tua casa te fechas e vês a imagem,
a qual um tanto conservou do que tinha que valesse,
a qual um tanto conservou do que tinhas amado.»


Túmulo de Lanes




Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 61

As coisas perigosas

Disse Myrtias (estudante sírio
em Alexandria; sendo reis
augustus Constans e augustus Constantius;
em parte gentio, e em parte cristianizante);
«Fortalecido com teoria e estudo,
eu e as minhas paixões não vou temer como cobarde.
O meu corpo aos prazeres vou dar,
aos deleites sonhados,
aos desejos eróticos mais audazes,
aos ímpetos lascivos de meu sangue, sem
medo nenhum, pois sempre que queira -
e terei vontade, fortalecido
como estarei com teoria e estudo -
nos momentos críticos hei-de encontrar
o meu espírito, como dantes, ascético.»




Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 43

Troianos

São nossos esforços, os dos infortunados;
são nossos esforços como os dos troianos.
Conseguimos um pouco; um pouco
levantamos a cabeça; e começamos
a ter coragem e boas esperanças.

Mas sempre surge alguma coisa que nos pára.
Aquiles junto do fosso à nossa frente
surge e com grandes gritos assusta-nos. -

São nossos esforços como os dos troianos.
Cuidamos que mudaremos com resolução
e valor a contrariedade da sorte,
e estamos cá fora para lutar.

Mas quando vier o momento decisivo,
o nosso valor e a nossa resolução perdem-se;
a nossa alma fica alterada, paralisa;
e em redor das muralhas corremos
à procura de nos salvarmos pela fuga.

Porém a nossa queda é certa. Em cima,
nas muralhas já começou o pranto.
Choram pelas memórias e os sentimentos dos nossos dias.
Amargamente choram por nós Príamo e Hécuba.



Konstandinos Kavafis. Poemas e prosas. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis. Relógio D'Água. Lisboa, 1994., p. 33

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ítaca

Tradução de Jorge de Sena


Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado — não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria — nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.


Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.


Konstantinos Kaváfis
«O que George Seferis, o primeiro crítico grego de Kaváfis verdadeiramente atento, achava singular nele era que ninguém poderia ter previsto, com base nos seus trabalhos iniciais, que tinha talento suficiente para ser considerado, no devido tempo, um poeta de conteúdo, ou mesmo o mais importante poeta de língua grega do século XX, sendo sua obra mundialmente traduzida.»


Edmund Keeley. O essencial de Kaváfis (fragmentos)
“Da árvore encarnada, meio dentro da memória, apenas a folhagem salta pelos olhos e se espalha pelo rosto [...]. As raízes entram-lhe no sangue [...], não tarda que penetrem pela terra a cujos intestinos vão buscar com que saciar-lhes os olhos – as visões ascendem tumultuosamente, como seiva a ferver”

Luís Miguel Nava

Smoking in Bed

domingo, 23 de janeiro de 2011

A eleição do 'compadre' Cavaco Silva, bem que poderia resumir-se a isto...

  «Multidões de camponeses que anseiam por democracia, e supostamente estariam a celebrar a morte de um tirano, estão, na realidade, a carregar esse mesmo tirano às costas, declarando-o o salvador do povo.»
 
 
Russell Edson. O Túnel. Selecção e tradução de José Alberto Oliveira Assírio& Alvim, Lisboa, 2002, p. 51

O FOGO NÃO É UM CONVIDADO AMÁVEL

          Eu era encarregado de um manicómio, pois estava louco.
          Chegou um fogo, que ficou esfomeado; por isso eu disse podes comer um toro, mas não subas as escadas e não comas uma dementia praecox.
          Eu disse, doidos, ide para o sótão enquanto um fogo come uma cadeira de cozinha ao pequeno-almoço.
          Mas o fogo queria uma cortina da cozinha, que comeu e trepou ao mesmo tempo, e depois foi para o tecto comer um caibro.
          Eu disse, se tens tanta fome come um caibro, mas não comas um maníaco.
          Entretanto, um maníaco no sótão, com um machado, começou a atacar o céu.
          Vais provocar chuva, é o que vais fazer, disse eu, feri-lo até que chova.
           O fogo, estava a comer uma senhora idosa. Eu disse, uma senhora idosa, vá lá, e uma criança para sobremesa.
          Eu disse ao fogo que podia dormir a sesta na cama do maníaco. Mas o fogo queria comer a cama. Estás muito esfomeado, fogo, disse eu.
           Mas, por essa altura toda a família do fogo já tinha entrado e estava a comer os cantos do manicómio - Eh, é aí onde os mortos construíram as suas cidades.
          Mas os fogos não queriam ouvir porque não gostam de passar fome.
          Por isso pedi aos lunáticos que saíssem do sótão e disse-lhes que era uma guerra de nutrição, e que deviam comer o fogo senão ele os comeria.
          Mas eles disseram, nós não somos comedores de fogo, somos engolidores de espadas...
 
 
 
Russell Edson. O Túnel. Selecção e tradução de José Alberto Oliveira Assírio& Alvim, Lisboa, 2002, p. 19-21
«Todas as mulheres da casa observam pelas janelas, esperando para ver o que farei.
  Pai, observa o orvalho nas suas rodas, não te recorda lágrimas?
  Irás destroçar o meu coração enquanto as mulheres vigiam, quase esperando que eu ceda? pois elas anseiam pela vítima que me seria amável entregar.»
 
 
 
Russell Edson. O Túnel. Selecção e tradução de José Alberto Oliveira Assírio& Alvim, Lisboa, 2002, p. 13-15

The Posture

Of like importance is the posture too,
In which the genial feat of Love we do:
For as the females of the four foot kind,
Receive the leapings of their Males behind;
So the good Wives, with loins uplifted high,
And leaning on their hands the fruitful stroke may try:
For in that posture will they best conceive:
Not when supinely laid they frisk and heave;
For active motions only break the blow,
And more of Strumpets than of Wives they show;
When answering stroke with stroke, the mingled liquors flow.
Endearments eager, and too brisk a bound,
Throws off the Plow-share from the furrow’d ground.
But common Harlots in conjunction heave,
Because ’tis less their business to conceive
Than to delight, and to provoke the deed;
A trick which honest Wives but little need.

Translated by John Dryden


Lucretius

Address to Venus

Delight of Human kind, and Gods above;
Parent of Rome; Propitious Queen of Love;
Whose vital pow’r, Air, Earth, and Sea supplies;
And breeds what e’r is born beneath the rowling Skies:
For every kind, by thy prolifique might,   
Springs, and beholds the Regions of the light:
Thee, Goddess thee, the clouds and tempests fear,
And at thy pleasing presence disappear:
For thee the Land in fragrant Flow’rs is drest,
For thee the Ocean smiles, and smooths her wavy breast;
And Heav’n it self with more serene, and purer light is blest.
For when the rising Spring adorns the Mead,
And a new Scene of Nature stands display’d,
When teeming Budds, and chearful greens appear,
And Western gales unlock the lazy year,
The joyous Birds thy welcome first express,
Whose native Songs thy genial fire confess:
Then savage Beasts bound o’re their slighted food,
Strook with thy darts, and tempt the raging floud:
All Nature is thy Gift; Earth, Air, and Sea:
Of all that breathes, the various progeny,
Stung with delight, is goaded on by thee.
O’er barren Mountains, o’er the flow’ry Plain,
The leavy Forest, and the liquid Main
Extends thy uncontroul’d and boundless reign.
Through all the living Regions dost thou move,
And scattr’st, where thou goest, the kindly seeds of Love:
Since then the race of every living thing,
Obeys thy pow’r; since nothing new can spring
Without thy warmth, without thy influence bear,
Or beautiful, or lovesome can appear,
Be thou my ayd: My tuneful Song inspire,
And kindle with thy own productive fire;
While all thy Province Nature, I survey,
And sing to Memmius an immortal lay
Of Heav’n, and Earth, and every where thy wond’rous pow’r display.
To Memmius, under thy sweet influence born,
Whom thou with all thy gifts and graces dost adorn.
The rather, then assist my Muse and me,
Infusing Verses worthy him and thee.
Mean time on Land and Sea let barb’rous discord cease,
And lull the listening world in universal peace.
To thee, Mankind their soft repose must owe,
For thou alone that blessing canst bestow;
Because the brutal business of the War
Is manag’d by thy dreadful Servant’s care:
Who oft retires from fighting fields, to prove
The pleasing pains of thy eternal Love:
And panting on thy breast, supinely lies,
While with thy heavenly form he feeds his famish’d eyes:
Sucks in with open lips, thy balmy breath,
By turns restor’d to life, and plung’d in pleasing death.
There while thy curling limbs about him move,
Involv’d and fetter’d in the links of Love,
When wishing all, he nothing can deny,
Thy charms in that auspicious moment try;
With winning eloquence our peace implore,
And quiet to the weary World restore.
 

 Lucretius

The Difficulty with a Tree

A woman was fighting a tree. The tree had come to rage at the woman’s attack, breaking free from its earth it waddled at her with its great root feet.
         Goddamn these sentiencies, roared the tree with birds shrieking in its branches.
         Look out, you’ll fall on me, you bastard, screamed the woman as she hit at the tree.
         The tree whisked and whisked with its leafy branches.
         The woman kicked and bit screaming, kill me kill me or I’ll kill you!

         Her husband seeing the commotion came running crying, what tree has lost patience?
         The ax the ax, damnfool, the ax, she screamed.
         Oh no, roared the tree dragging its long roots rhythmically limping like a sea lion towards her husband.
         But oughtn’t we to talk about this? cried her husband.
         But oughtn’t we to talk about this, mimicked his wife.
         But what is this all about? he cried.
         When you see me killing something you should reason that it will want to kill me back, she screamed.

         But before her husband could decide what next action to perform the tree had killed both the wife and her husband.
         Before the woman died she screamed, now do you see?
         He said, what...? And then he died.




Russell Edson, “The Difficulty with a Tree”© Source: The Clam Theater (Wesleyan University Press, 1973)

The Unforgiven

After a series of indiscretions a man stumbled homeward, thinking, now that I am going down from my misbehavior I am to be forgiven, because how I acted was not the true self, which I am now returning to. And I am not to be blamed for the past, because I’m to be seen as one redeemed in the present...
         But when he got to the threshold of his house his house said, go away, I am not at home.
         Not at home? A house is always at home; where else can it be? said the man.
         I am not at home to you, said his house.

         And so the man stumbled away into another series of indiscretions...


''O riso foi sempre próprio dos deuses, porque se supõe que eles conhecem não só o nosso desamparo, como o desamparo que lhes é próprio - ou como, noutra ocasião, escreveu Edson «o sentido de humor é o verdadeiro sentido do trágico».''


Russell Edson. O Túnel. Selecção e tradução de José Alberto Oliveira Assírio& Alvim, Lisboa, 2002, p. 7

¿Por qué esos lirios que los hielos matan?

¿Por qué esos lirios que los hielos matan?
¿Por qué esas rosas a que agosta el sol?
¿Por qué esos pajarillos que sin vuelo
se mueren en plumón?

¿Por qué derrocha el cielo tantas vidas
que no son de otras nuevas eslabón?
¿Por qué fue dique de tu sangre pura
tu pobre corazón?

¿Por qué no se mezclaron nuestras sangres
del amor en la santa comunión?
¿Por qué tú y yo, Teresa de mi alma
no dimos granazón?

¿Por qué, Teresa, y para qué nacimos?
¿Por qué y para qué fuimos los dos?
¿Por qué y para qué es todo nada?
¿Por qué nos hizo Dios?


Miguel de Unamuno

¡Dime qué dices, mar!

Dime qué dices, mar, qué dices, dime!
Pero no me lo digas; tus cantares
son, con el coro de tus varios mares,
una voz sola que cantando gime.

Ese mero gemido nos redime
de la letra fatal, y sus pesares,
bajo el oleaje de nuestros azares,
el secreto secreto nos oprime.

La sinrazón de nuestra suerte abona,
calla la culpa y danos el castigo;
la vida al que nació no le perdona;

de esta enorme injusticia sé testigo,
que así mi canto con tu canto entona,
y no me digas lo que no te digo.



Miguel de Unamuno

En horas de insomnio

Me voy de aquí, no quiero más oírme;
de mi voz toda voz suéname a eco,
ya falta así de confesor, si peco
se me escapa el poder arrepentirme.

No hallo fuera de mí en que me afirme
nada de humano y me resulto hueco;
si esta cárcel por otra al fin no trueco
en mi vacío acabaré de hundirme.

Oh triste soledad, la del engaño
de creerse en humana compañía
moviéndose entre espejos, ermitaño.

He ido muriendo hasta llegar al día
en que espejo de espejos, soy me extraño
a mí mismo y descubro no vivía.


Miguel de Unamuno

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

o semi-heterónimo: Bernardo Soares

Ou pelo menos, assim Pessoa o definiu numa carta enviada a Adolfo Casais Monteiro, a Janeiro, de 1935: “É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela.”

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O envelhecimento não é a velhice

«O envelhecimento não é a velhice, como uma imagem não se reduz a uma etapa. O envelhecimento é um processo irreversível, que se inscreve no tempo. Começa com o nascimento e acaba na destruição do indivíduo. (...) Se o envelhecimento é o tempo da idade que avança, a velhice é o da idade avançada, entende-se, em direção à morte”



Jack Messy. A pessoa idosa não existe: uma abordagem psicanalítica da velhice. 2ªed. São Paulo: ALEPH, 1999.

“o homem de ontem não é o homem de hoje''

 Borges

A relação humana com o mundo físico


“Não tenho absolutamente um mundo físico, não vivo somente no meio da terra, do ar e da água, tenho em volta de mim estradas, plantações, cidades, ruas, igrejas,  utensílios, uma campainha, uma colher, um cachimbo. Cada um desses objectos tem no fundo a marca da acção humana à qual serve. Cada um emite uma atmosfera de humanidade que pode ser muito pouco determinada, se só se trata de alguns traços de passos na areia, ou, pelo contrário, muito determinada, se visito a cabo e rabo uma casa recentemente esvaziada”

                   MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção, 1971.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

No pinhal

No pinhal, uma criança corre a tirar a caruma dos púcaros de resina, mergulhando os dedos (e, depois as formigas) nas baças sombras da água.

A Juan Ramón Jiménez

¿Tienes, joven amigo, ceñida la coraza
para empezar, valiente, la divina pelea?
¿Has visto si resiste el metal de tu idea
la furia del mandoble y el peso de la maza?

¿Te sientes con la sangre de la celeste raza
que vida con los números pitagóricos crea?
¿Y, como el fuerte Herakles al león de Nemea,
a los sangrientos tigres del mal darías caza?

¿Te enternece el azul de una noche tranquila?
¿Escuchas pensativo el sonar de la esquila
cuando el Angelus dice el alma de la tarde?...

¿Tu corazón las voces ocultas interpreta?
Sigue, entonces, tu rumbo de amor. Eres poeta.
La belleza te cubra de luz y Dios te guarde.



Rubén Darío
«Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro.Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com sua cristalina gotita de mel...E terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra. Quando nele passo, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:— Tem aço...Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo.»


Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Amargura, nudez de seios castos


Camilo Pessanha
« (...) O poeta não sabe se ama, mas sabe que tem prazer em estar com a mulher invocada no poema.»



João Camilo, A Clepsidra de Camilo Pessanha, in Persona, 10, 1984, p. 25
«Desejo, nuns transportes de gigante, / Estreitá-la de rijo
 entre meus braços, / Até quase esmagar nestes abraços/ A sua carne
 branca e palpitante; »


Camilo Pessanha
«Eu quisera também, adormecido, / Dos fantasmas da febre ver o mar,/ Mas
sempre sob o azul do seu olhar,/ Envolto no calor do seu vestido;»


Camilo Pessanha
«morre‑me a boca por beijar a tua.»


Camilo Pessanha

existência como ser-para-o-naufrágio

Karl Jaspers
    «Assim, quando chegou a manhã, o Ulisses e eu éramos realmente amigos, como prometera que seríamos. Ou, deixe-me contar isto doutra forma: eu nutria afeição por ele - mais até: amor e paixão - e ele comportava-se como se sentisse o mesmo. O que não é a mesma coisa.»


Margaret Atwood. A Odisseia de Penélope. Tradução de Paula Reis. Editorial Teorema, 2006, p. 57

   «Um pouco mais tarde, descobri que Ulisses não era um daqueles homens que, terminado o acto, se deixam rolar, simplesmente, e desatam a ressonar. Não que eu soubesse deste hábito masculino vulgar por experiência própria, mas, como já disse, escutara montes de coisas das servas. Não, o Ulisses queria conversa, e era um excelente narrador que eu adorava escutar. Penso que isso foi o que ele mais apreciou em mim: a capacidade para gostar das suas histórias. É um talento que se subestima nas mulheres.»


 Margaret Atwood. A Odisseia de Penélope. Tradução de Paula Reis. Editorial Teorema, 2006, p. 54/55
A água não resiste. A água corre. Quando mergulhas nela a mão, só sentes uma carícia
A água não é uma muralha sólida, não te deterá. Mas a água vai sempre para onde quer ir,
e nada, no fim, pode nada contra ela. A água é paciente. A água a pingar desgasta uma pedra.
Lembra-te de que és metade água. Se não puderes passar através dum obstáculo, contorna-o.
A água fá-lo.

Margaret Atwood. A Odisseia de Penélope. Tradução de Paula Reis. Editorial Teorema, 2006, p. 53
  «Uma vez por outra, o nevoeiro aparta-se e temos um vislumbre do mundo dos vivos. É como esfregar o vidro duma janela suja, abrindo um espaço para espreitar.»


Margaret Atwood. A Odisseia de Penélope. Tradução de Paula Reis. Editorial Teorema, 2006, p. 29

V

Asfódelos


 «Aqui está escuro, como muitos têm notado. A «Escura Morte», como costumavam dizer. «As sombrias salas do Hades», e por aí adiante. Bom, sim, é escuro, mas tem vantagens - por exemplo, se se vê alguém a quem preferíamos não falar, pode-se fingir sempre que não o reconhecemos.»



Margaret Atwood. A Odisseia de Penélope. Tradução de Paula Reis. Editorial Teorema, 2006, p. 27

domingo, 16 de janeiro de 2011

ELOGIO E PRANTO POR UMA MULHER

És e renasces como a pura linha do amanhecer
e como o sol primeiro és incandescente
rosado de repente e logo a pouco
e pouco cada vez mais rubro e mais intenso
até à amarela gema de ovo que é o sol a pôr-se
Quanto eu não dava deus por sempre te ouvir rir
riso tão fresco como tilintar de loiça
Não confies em mim mulher mas desconfio haver de
                                                             amar-te
até ao fim do mundo frase conhecida que me surge
no poster ilustrado com esse poema do
palhaço morto do miguel macedo
miúdo que por certo e muito bem desconhecia
a inscrição de pedra inscrita aos pés do túmulo de pedro
esse maldito infante embêbedo de amores
pela açafata a nova isolda do novo tristão
pedro possivelmente pederasta misturados nesses
concúbitos danados que geravam lobisomens
homem que nasce e morre sem amparo de árvores
Seis são os anjos reparei depois tal como foram seis
os beijos que te dei e depois respirei e descansei
que o sétimo seria fosse beijo ou dia
um tempo de repouso e não de guerra
Suspeito ter em ti essa mulher que se requer e que
se nos arrima mais que amor nos dá a rima
Tu não és como eu sou mensageira da chuva
da água calculada e racionada
tu libertas o corpo da mais pura espuma
Rosa-dos-ventos vivos e poéticos
quisera coroar-te de hera rosmaninho e louro
quisera engrinaldar-te a fronte dos junquilhos amarelos
colhidos nas montanhas junto ao mar
sob o recente sol do dia de ano novo
que em noites de tormenta canta tanto
que para ele caminho até quase cair
depois de tropeçar no escuro nalgum tufo de verdura
quisera para ti o cheiro que me chega
agreste dessa planta sumarenta há bem pouco pisada
quisera para ti a cúpula de tudo essa
perene cúpula que sempre se procura e sempre foge
no desencanto mesmo da menos fugitiva cópula
Sonho contigo e vejo-te valsar
de branco a valsa vienense de johann strauss
elegantemente embebida num vestido branco que embebias
do requinte distante do elegante porte
que sem misericórdia porém sem acinte
opunhas garça de pescoço alto e fino
à mole escura da igreja da atouguia da baleia
inaugurando o ano inaugurando a vida
a causa sem remédio já por mim perdida
E se durante o sono contigo sonhei
ter-te perdido para sempre agora sei
Um dia por exemplo deixarei de ver-te
um dia deixarei de vez de ver-te
dissolvidos os ombros confundidos os cabelos
entre inúmeros ombros e cabelos de distinta gente
nas salas populosas de um museu
Mas surgisses de súbito ó aparição
do solo da cidade onde estiveste há tantos anos
onde por ter um dia estado jamais estiveste
surgisses tu aqui e tudo mudaria
Porém eu sei sem dúvida que um dia após
uma colher de olhar em água dissolvida
além do nome voltarás a ter pra mim um apelido
Na prematura primavera de sevilha
o poeta na musa se assevera
e a palavra em seus olhos mais uma vez brilha
E o vento que te envia a primitiva primavera
com que na raiz dos teus cabelos principia
a construir esse edifício de alegria
visível para quem em ver-te como eu há muito persevera
Hás-de cair da vida um dia como agora este cinzeiro
esta recordação de inolvidável refeição no restaurante
                                                                    anselmo
de madrid se quebra nos ladrilhos do meu quarto
Onde sem ser no verão sem ser em mim
terá enfim ficado o teu sorriso?
É digna esta cabeça de mulher do espaço desta tarde
que me explode nos olhos mal eu saio do metro
Não sei não sei donde é que venho não importa vindo eu
do metro ou tarde é para ti que na verdade vou



Ruy Belo. Transporte No Tempo. Introdução de Fernando Pinto do Amaral. Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, 1997., p. 130/1
Quero dormir não ter esta doença de pensar


Ruy Belo. Transporte No Tempo. Introdução de Fernando Pinto do Amaral. Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, 1997., p. 114
(...)

inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia-a-dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de um homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o pequeno-almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental




Ruy Belo. Transporte No Tempo. Introdução de Fernando Pinto do Amaral. Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, 1997., p. 104

Solene saudação a uma fotografia

E de novo de súbito a helena viva aqui numa fotografia
helena que ficou nesse país onde nasci e sempre fico
e fico mesmo mais sempre que ausente
helena tão discreta no recorte dos gestos
na forma de vestir no corte de cabelo
que tenta mas em vão dissimular que é bela
ou o consegue só junto de quem jamais conseguiria vê-la
ao nível exigente onde ela na verdade se situa
helena recortada contra a pedra contra o mar redondo
da baía
onde há não muito ainda e no entanto há tanto
tempo colaborámos por exemplo na exaltação do verão
e afrontámos a morte implícita no tempo
helena vertical dúctil porém em tão frágil figura
helena sorridente e inocente como uma criança
mas no fundo talvez superiormente maliciosa
milagre de mulher deus que talvez procure
por detrás de tantos rostos que se os dias me os trouxeram
me os levaram
única metafísica possível para quem volta em verdade hoje
da vida
com a concha das mãos acumulados do vazio
vindo afinal do fundo das mais várias verdades
mulher coisa mudável num momento como um mar
objecto de beleza só visível no conjunto
irredutível a uns olhos aos cabelos ao nariz
tão frágil flor que a mim há pouco forte apenas vista me
faz frágil
num tempo detergente que nos lava que nos leva quanto
tínhamos gente
helena como que translúcida e não menos transparente
do que se fosse alma esse corpo que ela totalmente é
helena natural portanto provocante
ignorante das praxes do exército
talvez por se encontrar isenta do serviço militar
helena inflecte o braço esquerdo e faz-me a continência
sem nada ó insolência na cabeça
helena que perdi e tanto mais perdi
por ter desde o início consciência de perdê-la
mulher que vi envolta pelas dobras do verão
ficar no mar sob o dossel de tule do céu azul
helena que deixei e quase nunca saudei
quando como uma folha o tempo me a levou
e me a matou à vista numa esquina ou curva
helena já definitivamente ausente quando se me apresentou
helena inacessível tanto mais se mais visível
helena inexpugnável como funda fortaleza
(lutar por encontrar imagem menos gasta em futura versão)
não só por não ter armas e ter só o mínimo de mãos
mas por ser o sorriso a sua única defesa
helena deste verão helena todo o ano
em virtude talvez de um expediente técnico por mim
desconhecido
helena perturbante e mais desconcertante
à força de nem mesmo - ingenuidade minha? - dar
por isso
helena deste outono madrileno só porque a fotografia
lhe permite sair do labirinto desse verão onde a deixei
helena assistemática e imprevisível como coisa viva
que quanto mais conheço desconheço
e nunca mais conheci melhor que quando a conheci
há anos nos distantes trás-os-montes
mais branca mesmo do que a camisola e do que a flor
da árvore (e não me lembrar eu ó diabo ou do nome
ou da forma da flor dissimulada pela cor)
plantada junto à casa onde camilo quando jovem habitou
helena que comove um homem que se isola
mais sozinho na vida que num quarto
ao fundo do comprido corredor de um casarão
onde talvez procure a protecção de muita gente nova
pois até aprendeu com thomas mann há pouco que a
velhice
é afinal a única impureza verdadeira
helena luminosa mais que a própria luz
helena que distante se me impõe
e sobressai do meio das múltiplas coisas
dispersas pelo espaço limitado por quatro paredes
helena talvez nada talvez tudo ou quase tudo
(melhor é não falar de percentagens
depois daquela viva discussão no verão)
helena ergue o braço e mais do que evitar a luz
do sol dessa intensa estação onde sei só agora que me
senti bem
helena em desafio faz-me a continência
E eu ao descobri-la ali perdida na fotografia
entre diapositivos e agendas caixas de comprimidos
botões de punho livros algodão sobre a mesa-de-cabeceira
aó consigo cumprimentá-la atrapalhadamente
com a proverbial solenidade portuguesa
tão rígida mas menos militar - bem o sabes ó salvador
tu que em mafra já és a esperança miliciana do exército
a até dispões de um pronto - do que a continência:
helena passou bem vossa excelência?



Ruy Belo. Transporte No Tempo. Introdução de Fernando Pinto do Amaral. Editorial Presença, 4ª edição, Lisboa, 1997., p. 87-89
« E pus-me a pensar se uma recordação seria algo que se tem ou se perdeu.»


Gene Rowlands - Marion


Woody Allen. Filme 'Another Woman', 1988
«Andou tanto tempo a fingir que está tudo bem, mas percebe-se claramente que anda perdida.

(...)

E é uma mulher muito inteligente, realizada. Como eu, ela...Como sabe, as emoções sempre me causaram embaraço. Fugi de homens que senti que me ameaçavam, porque a intensidade da paixão deles faz-me medo. Mas não se consegue reprimir para sempre os sentimentos profundos. Não quero é perceber, quando chegar à idade dela, que a minha vida é vazia. »


(Falas de uma mulher perturbada que perspectiva uma breve mas acutilante visão do vazio interior de uma professora de filosofia, no limiar da compreensão de si própria)



Woody Allen. Filme 'Another Woman', 1988
Agora que estou morta, sei tudo. Isto era o que eu desejava que acontecesse, mas tal como muitos dos meus desejos não se revelou verdadeiro.

Margaret Atwood. A Odisseia de Penélope. Tradução de Paula Reis. Editorial Teorema, 2006

sábado, 15 de janeiro de 2011

Terminat hora diem. Terminat Author opus.

«A hora termina o dia, o autor termina a obra.»
«Alexandre era também o nome que Homero deu a Páris, filho de Príamo, que raptou Helena de Tróia. Páris tinha-se enamorado de Enon, uma ninfa, antes de conhecer Helena; ferido durante o cerco de Tróia, foi conduzido a Enon, a única que podia curar-lhe as feridas, mas que, por despeito e ciúme, o deixou morrer, suicidando-se de seguida sobre o cadáver do amado.»
2º EST. - Todo o nosso prazer se tornou melancolia?
3º EST. - O mal vem-lhe de ser por demais solitário.


Christopher Marlowe. Doutor Fausto. Edição Bilingue. Publicações Europa-América, 2003., p.137
MEFIST. - (...) Pobre homem do mundo, seca-lhe de dor o sangue,
                         O remorso mata-o e as convulsões da mente
                   
                      
Christopher Marlowe. Doutor Fausto. Edição Bilingue. Publicações Europa-América, 2003., p.135
FAUSTO - Foi este o rosto que lançou ao mar mil barcos
                   E às imensas torres de Tróia lançou fogo?
                   Faz-me imortal com um beijo, doce Helena.
                   Sugam-me a alma os lábios dela: vede onde voa.
                   Aqui quero viver, que o Céu está nestes lábios,
                   E tudo é impuro o que não é Helena.



Christopher Marlowe. Doutor Fausto. Edição Bilingue. Publicações Europa-América, 2003., p.133

Marilyn Crucifix II, 1962

«(...) O que eu disse, filho meu, não veio da ira,
Nem da inveja, mas sim de um terno amor
E compaixão pela tua futura desdita.
Confia, pois, que a minha afável censura
Te mortifique o corpo e, assim, corrija a alma.



Christopher Marlowe. Doutor Fausto. Edição Bilingue. Publicações Europa-América, 2003., p.131
ANCIÃO - (...)

E, contudo, é digna de amor a tua alma,

Christopher Marlowe. Doutor Fausto. Edição Bilingue. Publicações Europa-América, 2003., p.129
Entram Fausto, Mefistófeles
e dois ou três estudantes


1º EST. - Senhor Doutor Fausto, depois de termos falado de mulheres formosas e de qual seria a mais bela do mundo, chegámos à conclusão de que Helena da Grécia foi a mais digna de admiração que jamais existiu; por isso, Mestre, se quisésseis fazer o favor de nos deixar contemplar essa inigualável dama grega, que todo o mundo admira pela majestade, ficaríamos muito obrigados para convosco.



Christopher Marlowe. Doutor Fausto. Edição Bilingue. Publicações Europa-América, 2003., p.129

''(...), pude atravessar as trevas primitivas que se estendiam sob o meu espírito, abrir o alçapão e ver.»

     «E a partir do momento em que vi, a minha alma começou a consolidar-se: já não se escoava numa perpétua renovação como a água; ao redor de um núcleo iluminado, condensava-se e fixava-se agora um rosto, o rosto da terra. Deixei de avançar por caminhos inconstantes, ora à direita ora à esquerda, tentando descobrir o animal de que descendia; avançava com segurança, porque conhecia o meu verdadeiro rosto e o meu único dever: trabalhar esse rosto com toda a paciência, amor e habilidade que pudesse. Transformá-lo em fogo e, se tiver tempo, antes que a Morte venha, fazer desse fogo uma luz para que a Morte nada mais encontre em mim, para levar consigo. Porque foi esta a minha maior ambição: nada deixar de mim que a Morte possa levar - alguns ossos apenas.»


Nikos Kazantzakis. Carta a Greco. Trad. Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho. Editora Ulisseia, Lisboa, p. 22
        «Sempre que, ao ouvir as vozes secretas que em mim residem, pude seguir não o meu espírito que não tarda a perder o fôlego e a parar, mas o meu sangue, cheguei, com uma secreta certeza, à mais longínqua origem dos meus antepassados.»
 
 
 
Nikos Kazantzakis. Carta a Greco. Trad. Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho. Editora Ulisseia, Lisboa, p. 21

“Jaipur, India” (1998)


94
Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
95
- "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
96
- "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

97
- "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

 
Luís Vaz de Camões .Os Lusíadas, Canto IV, 94-97
«Matavam e matavam-se, sem respeitar a sua vida nem a dos outros. Amavam e desprezavam, com a mesma prodigalidade desdenhosa, a vida e a morte.»



Nikos Kazantzakis. Carta a Greco. Trad. Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho. Editora Ulisseia, Lisboa, p. 20
«Diz-se que o Sol por vezes pára no caminho para ouvir cantar uma rapariga.»


Nikos Kazantzakis. Carta a Greco. Trad. Armando Pereira da Silva e Armando da Silva Carvalho. Editora Ulisseia, Lisboa, p. 20

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

«Perguntamo-nos se a criança tem necessidade de evasão como as criaturas de idade e batidas pelo uniforme pesadume das coisas. Por minha parte quero crer que o mundo gravita em sonho e em mistério. Cada partícula da vida encerra um conto de fadas. Não é preciso inventá-las. Os brinquedos de Nuremberga são de resto tanto mais apreciados pelos meninos quanto melhor reproduzem o real; ursos de feltro, cavalos de pau, pintainhos de lata que andam e vão bicando um imaginável grão de painço.»
 
 
 
 
Aquilino Ribeiro in Teorias do autor acerca da literatura infantil e dos seus dois livros neste género - inquérito. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 174/5

Sobre o sector da vida literária

« - Estou pouco ao corrente do que se passa neste sector da vida literária. Mas a avaliar pelas montras dos livreiros e pelos anúncios, temos messe grada. Suponho que há duas ilusões a considerar às espaldas desta actividade: que seja rendosa e que seja tarefa fácil


Aquilino Ribeiro in Teorias do autor acerca da literatura infantil e dos seus dois livros neste género - inquérito. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 171
«Os contos de fadas, a meu ver, representam um perigo, neste nosso mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé.»



Aquilino Ribeiro in Teorias do autor acerca da literatura infantil e dos seus dois livros neste género - inquérito. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 171




*Acho que uma mulher deve acalentar ser mãe, tomando para si, primeiro, estes ensinamentos da vida. Conhecer o seu sangue, antes de o fazer germinar em corpo que não se torna árvore, ou sequer, animal consciente.

Quando escreve para crianças, tem a preocupação da idade delas?

« (...) Se escrevêssemos apenas as palavras que a criança emprega e de que sabe o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura duma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora, desde que pertença, bem entendido, ao nosso glossário quotidiano, é um obstáculo que vence penetrando-lhe o sentido por intuição natural.»


Aquilino Ribeiro in Teorias do autor acerca da literatura infantil e dos seus dois livros neste género - inquérito. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 169

melífluo

'diz-se da voz, do gesto, da atitude de doçura de quem pretende insinuar-se'
« (...) O podre sendeiro estava escondido num giestal, a arfar, coberto de sangue, dizendo cobras e lagartos da sua má sorte.»


Aquilino Ribeiro. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 140/1
« - Ouça o conselho duma tola e aceite se bem achar. A água não é muita; são duas odradas, se tanto. Se nós a bebêssemos?! Tirávamos, depois, o queijo a seco...


Aquilino Ribeiro. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 136

« - Então isso é que é a peste, sua grande saca de mentiras?
   -Foi um anjo que me viu a morrer e me trouxe esta hostiazinha...
   -Também quero...
   -Se tens o coração puro, come...Mas vê lá!
   A Patifina pôs-se, sem vergonha, a manducar e, enquanto enchia o fole, reparou nos montes de ossos que havia pelos cantos, ossos velhos, brancos como a cal, ossos ainda vermelhos de sangue, ossos mal esburgados, tantos que parecia haver ali a indústria de cabos de faca e canivete. (...)»


 
Aquilino Ribeiro. Romance da Raposa. Ilustrações de Benjamim Rabier.21ª edição. Bertrand Editora. Lisboa, 1961. p. 131/2