terça-feira, 27 de março de 2012

''nuvens invernosas''


«(...) não havia nada que mais a perturbasse do que sentir-se cercada de escuridão.»

Truman Capote. Contos Completos. Tradução do inglês por José Vieira de Lima. Sextabre Editora, 1ª edição, 2008., p. 62

Middy

«Middy, sempre retraída, sempre em segundo plano, disse, num jeito nervoso: «Appleseed, não devias estar para aí a contar as coisas pessoas e privadas da nossa família assim dessa maneira.»


Truman Capote. Contos Completos. Tradução do inglês por José Vieira de Lima. Sextabre Editora, 1ª edição, 2008., p. 45

'' o ardiloso assassínio''

sábado, 17 de março de 2012

«Talvez seja uma evidência esperar que o movimento surgido como proposta de interpretação do universo do realizador russo Andrei Tarkovsky seja lento, respirado, tenso. Às primeiras imagens de "Du Don de Soi", que Paulo Ribeiro criou para a Companhia Nacional de Bailado, a primeira peça que concebeu para a companhia e também aquela que abre a nova temporada (até dia 6 de Novembro e digressão nacional depois), os corpos dos 36 bailarinos vão invadindo um palco encoberto em sombras e encontrando, depositados no chão, os vestidos que carregarão ao longo de toda a peça, como vestes cerimoniais. As luzes de Nuno Meira e os figurinos de José António Tenente vão, assim, forçando o seu espaço por entre uma coreografia que pede corpos que saibam controlar cada gesto, cada movimento, cada olhar e cada passo da respiração. E quando os corpos, homens e mulheres, todos eles sem nome, sem um gesto que os distinga, compõem uma massa que é só uma imagem a dialogar com outra, que os vigia, de um homem que vai cavando a terra (vídeos de Fabio Iaquone), percebemos melhor porque é que Tarkovsky acreditava em imagens que "não significavam mais para além de si mesmas", tal como nos haikus, essa forma poética oriental de construção de imagens a partir de breves frases.»

"Corpos que estão a caminho do abismo"

quinta-feira, 15 de março de 2012

Um Segredo

Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em
[nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
[estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
[tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a
[víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.

Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.

Ainda que por ele devorados.

Fernando Namora, in 'Nome Para Uma Casa'

sábado, 10 de março de 2012

«Agasalhava todos os pássaros na véspera dos temporais.»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 197

''orvalho de sangue''

Virginia (2005) Len Prince

«(...), dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma»


Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 186

''Tens uma complicação infinita de asas que te impede o voo.''

Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 186
   «Eu tenho ainda por ti aquele amor servil e adulador, que se glorifica quando abdica, que tem um êxtase quando se dá a uma humilhação. Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta grande alma de chama, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de negro - justamente como o corpo dum amor abandonado.»


Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 183

''A minha história é triste, luminosa e terrível, imunda e meiga''

Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 182
  «Agora, de Inverno, no campo, as noites são ásperas e hostis. Toda a natureza está impassível e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas. As árvores erguem os braços nus, miseráveis, e suplicantes. E as águas, que no Outono estavam quietas e pálidas, e que em Maio faziam claras murmurações, tão melódicas como o ritmo dum idílio latino, têm agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e lento como um canto católico de ofícios: as chuvas caem de cima, como escárnios triunfantes e ruidosos.»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 181

domingo, 4 de março de 2012

“Algures, entre a inquietude da procura e a voracidade implacável da obra feita, fica o sonho irrealizável de vermos quem somos naquilo que fazemos”.

« E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão, ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo a pobre alma, chorando aflita, torturando-se, e pedindo com as mãos postas às estrelas um refúgio sereno!»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 180

EN UNA TEMPESTAD


Huracán, huracán, venir te siento,
Y en tu soplo abrasado
Respiro entusiasmado
Del señor de los aires el aliento.

En las alas del viento suspendido
Vedle rodar por el espacio inmenso,
Silencioso, tremendo, irresistible
En su curso veloz. La tierra en calma
Siniestra; misteriosa,
Contempla con pavor su faz terrible.
¿Al toro no miráis? El suelo escarban,
De insoportable ardor sus pies heridos:
La frente poderosa levantando,
Y en la hinchada nariz fuego aspirando,
Llama la tempestad con sus bramidos.

¡Qué nubes! ¡qué furor! El sol temblando
Vela en triste vapor su faz gloriosa,
Y su disco nublado sólo vierte
Luz fúnebre y sombría,
Que no es noche ni día...
¡Pavoroso calor, velo de muerte!
Los pajarillos tiemblan y se esconden
Al acercarse el huracán bramando,
Y en los lejanos montes retumbando
Le oyen los bosques, y a su voz responden.

Llega ya... ¿No le veis? ¡Cuál desenvuelve
Su manto aterrador y majestuoso...!
¡Gigante de los aires, te saludo...!
En fiera confusión el viento agita
Las orlas de su parda vestidura...
¡Ved...! ¡En el horizonte
Los brazos rapidísimos enarca,
Y con ellos abarca
Cuanto alcanzó a mirar de monte a monte!

¡Oscuridad universal!... ¡Su soplo
Levanta en torbellinos
El polvo de los campos agitado...!
En las nubes retumba despeñado
El carro del Señor, y de sus ruedas
Brota el rayo veloz, se precipita,
Hiere y aterra a suelo,
Y su lívida luz inunda el cielo.

¿Qué rumor? ¿Es la lluvia...? Desatada
Cae a torrentes, oscurece el mundo,
Y todo es confusión, horror profundo.
Cielo, nubes, colinas, caro bosque,
¿Dó estáis...? Os busco en vano:
Desparecisteis... La tormenta umbría
En los aires revuelve un oceano
Que todo lo sepulta...
Al fin, mundo fatal, nos separamos:
El huracán y yo solos estamos.

¡Sublime tempestad! ¡Cómo en tu seno,
De tu solemne inspiración henchido,
Al mundo vil y miserable olvido,
Y alzo la frente, de delicia lleno!
¿Dó está el alma cobarde
Que teme tu rugir...? Yo en ti me elevo
Al trono del Señor: oigo en las nubes
El eco de su voz; siento a la tierra
Escucharle y temblar. Ferviente lloro
Desciende por mis pálidas mejillas,
Y su alta majestad trémulo adoro.

LA NOTE

_Que n’ai-je un peu de voix ! J’ai le cruel ennui
De sentir mon poème en ma poitrine éclore,
Et dc ne pouvoir pas, plus créateur encore,
Comme j’ai mis mon cœur, mettre mon souffle en lui.

 _Le chant aérien laisse, après qu’il a fui,
Des lèvres jusqu’au ciel tin sillage sonore
Ou l’âme, rajeunie et plus légère, explore
Les paradis anciens qu’elle pleure aujourd’hui.

_La ilote est comme une aile an pied du vers posée ;
Comme l’aile des vents fait trembler la rosée,
Elle le fait frémir plus sonore et plus frais.
 _O vierges qu’effarouche un seul mot, le plus tendre,
Peut-être modulé daigneriez-vous l’entendre,
 Vous qui l’osez chanter sans le dire jamais !


Sully Prudhomme

L’INSPIRATION


Un oiseau solitaire aux bizarres couleurs
Est venu se poser sur une enfant ;
mais elle, Arrachant son plumage où le prisme étincelle,
De toute sa parure elle fait des douleurs.

_Et le duvet mœlleux, plein d’intimes chaleurs,
Épars, flotte au doux vent d’une bouche cruelle.
Or l’oiseau, c’est mon cœur ; l’enfant coupable est celle,
Celle dont je ne puis dire le nom sans pleurs.

 _Ce jeu l’amuse, et moi j’en meurs, et j’ai la peine
De voir dans le ciel vide errer sous son haleine
La beauté dc mon cœur pour le plaisir du sien !

_Elle aime à balancer mes rêves sur sa tête
Par un souffle, et je suis ce qu’on nomme un poète.
Que ce souffle leur manque, et je ne suis plus rien.

Sully Prudhomme
«Na arte só têm importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes.»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 178

''subtilezas morais''

«Quais podem ser as obras desta geração? Criações febris, convulsões cerebrais, idealistas e doentias, todo um pesadelo moral. Por isso, temos tido toda uma série de figuras melodramáticas, desde Fausto até Mr. de Camors.»





Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 177


«(...), com todo o sangue de Tácito - para pintar a cara macia do egoísmo humano.»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 173

Que tardes!

«Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e dos rios.»


Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 171

 «Outrora, nos dias já distantes da minha juventude e da minha infância, que passaram como um sonho e não voltam mais, sentia-me imensamente feliz sempre que chegava pela primeira vez a qualquer lugar desconhecido: quer fosse uma aldeia, vila, pequena cidade da província ou capital do distrito, em toda a parte o meu olhar infantil encontrava motivos para satisfazer a sua curiosidade.»




Nikolai Gógol. Almas Mortas. Círculo de Leitores, 1ª Edição, 1977, p. 117
«Como obstinado corvo, a alcunha plebeia lá ficará sempre a grasnar, proclamando com a sua voz a prodecência do pássaro.»



Nikolai Gógol. Almas Mortas. Círculo de Leitores, 1ª Edição, 1977, p. 115

fleuma


nome feminino
1. impassibilidade; frieza; domínio das emoções
2. indiferença; falta de interesse
3. pachorra
4. um dos humores naturais, segundo a medicina antiga
(Do grego phlégma, -atos, «inflamação», pelo latim phlegma, -ătis, «idem»)

« - Francamente, o senhor é como a pega do provérbio que só conhece um som, e o repete a cada instante.»



Nikolai Gógol. Almas Mortas. Círculo de Leitores, 1ª Edição, 1977, p. 110

fornicoques


nome masculino plural
1. popular cócegas
2. popular apetite; desejo; tentação

cabelo castanho-arruivado

sexta-feira, 2 de março de 2012

49.


«Pentesileia voltou para os bosques, anunciou o caçador,
dizendo que o seu corpo saiu das escadas do inferno.
Reconhecia-a. Tinha a cicatriz da espada gravada entre
os seios. »

(...)


Jaime Rocha. Zona de Caça. Relógio D' Água, 2002., p. 55

the death and the maiden.....

«                      (...) O olhar dela cai sempre
que lhe toco no peito, como as amoras no inverno.»




Jaime Rocha. Zona de Caça. Relógio D' Água, 2002., p. 54

34.

A mulher está agora, pela primeira vez, dentro
da morte, nessa linha de sombra que o cavalo
procura esmagar, incitado pelo chicote. Pela primeira
vez ela descobre o seu corpo subterrâneo, o sítio onde
esconde o sangue e os pedaços de carne que se vão
espalhando pela encosta, entre as ervas. O seu riso tem
um lado negro, um apelo que sai da cintura e que o
cavalo reconhece como um pó cego, entrando pelas narinas.
Pela primeira vez ela consegue ver a sua espada. Tudo se reflecte
no seu peito, a própria imagem do cavaleiro, a chuva, os
gritos dos corvos, as cigarras. Até o Verão se cola ali,
debaixo dos seios, e escorre como lágrimas, como pêssegos
que se destroem lentamente dentro de uma travessa.



Jaime Rocha. Zona de Caça. Relógio D' Água, 2002., p. 40

21.

E o banquete foi feito. Ela deixara para trás a
roda e a palma com que atraiçoara o homem.
Transportada pelos cães, ordenara que as vespas
se mantivessem sobre a sua cabeça enquanto
dormia, permitindo aos pequenos sátiros que
brincassem no meio dos mirtos a ouvir o mar do
fundo dos búzios. À mesa. com os seus peplos
coloridos, as mulheres aguardavam a incursão
da presa. Espiavam devagar o fio de sangue que ia
marcando o chão. Mas logo os criados surgiam
por detrás de altas colunas, empunhando as aves
domésticas e duas raposas dilaceradas pelos galgos.
A mulher debatia-se com a sua própria volúpia,
limpava o sangue das coxas, afugentando os cães
com os gemidos. Até que o cavaleiro acordasse,
doente, queimado pelo brasido.


Jaime Rocha. Zona de Caça. Relógio D' Água, 2002., p. 27

peplo


nome masculino
manto comprido usado pelas matronas romanas, de rico tecido de cores vivas, bordado a ouro, e ornamentado de figuras de deuses e heróis

(Do grego péplos, «idem», pelo latim peplu-, «idem»)

''grandes risadas frias e metálicas''

«Andava convulsivamente como se ferisse os pés no lajedo.»

Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 158

''convulsões dos cérebros industriais''

Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 147

quinta-feira, 1 de março de 2012

«Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 141
«As cidades são cheias e caiadas, só as consciências é que têm nódoas; as praças estão cheias de iluminações, só os corações é que estão escuros; os cais estão arejados, só os espíritos é que sufocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas é que andam nuas, miseráveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farsa, os paraísos artificiais, as arcas venais, e também o esfriamento do túmulo! Oh! amigos íntimos dos vermes, como vós cuidais do corpo, e o lavais, e o amaciais, e o engordais - para a pastagem escura das covas!»



Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 137

'' o apetite rude''

impudor


«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nus.»


Eça de Queiroz. Prosas Bárbaras. Com uma introdução por Jaime Batalha Reis. Lello & Irmão Editores, Porto, p. 136
«Ele cravara-lhe as unhas no pescoço,
ela enroscava o corpo, como fazem os anjos nos
banquetes em honra dos heróis. Ele abria as asas,
protegendo-a, ela sugava-lhe o coração, entre
lágrimas, deixando-o marcando pelas garras.»



Jaime Rocha. Zona de Caça. Relógio D' Água, 2002., p. 62

« (...)                             São as suas
asas que o acordam para aquela sombra
despida, saída do inferno.»


Jaime Rocha. Necrophilia. Prefácio de João Barrento. Relógio D' Água, 2012., p. 62

36.

É um homem com uma face virada para o
fim das ondas, um homem com uma dança
dentro dos olhos. Está a ser pintado por uma
mão antiga e, atrás dele, uma mulher deita-se
em cima do vidro enquanto os pássaros e as
formigas esperam, encostados a uma trepadeira.
Um sopro aproxima-se, uma coisa a arder no
barro. É o vaso com pólenes trazido pelo
pedreiro. Coloca-o à sua frente como se estivesse
sentado num eucalipto e vislumbrasse uma
jovem rapariga a acender um forno para secar
o seu próprio cabelo.


Jaime Rocha. Necrophilia. Prefácio de João Barrento. Relógio D' Água, 2012., p. 61

estuário


nome masculino
GEOGRAFIA parte terminal de um rio, longa e ampla, onde se faz sentir a ação das marés

(Do latim aestuarĭu-, «idem»)