quarta-feira, 28 de novembro de 2012


NÓS DESAPRENDEMOS DE DAR AOS MENDIGOS

 
Nós desaprendemos de dar aos mendigos,
De inspirar sobre o mar o ar salgado.
De saudar o dia e de comprar na loja
Por tuta e meia o ouro dos limões.
 
É por acaso que até nós vêm os barcos
E os railes levam a sua carga habitual,
Vá, conta aos homens na minha terra -
E verás quantos mortos se erguerão ao apelo!
 
Mas tudo solenemente desprezamos.
Faca partida não é boa para o trabalho,
Mas esta faca negra e partida
Terá cortado páginas imortais.
 
 
 
Nikolai Tikhonov. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 87
(...)
 
«E o mais jovem de todos, o mais impetuoso
Olhou para o sol que batia na água.
 
Que importa, de facto, ' disse ele, 'o lugar?
No fundo do mar repousa-se ainda mais tranquilamente.'»
 
 
 
 
Nikolai Tikhonov. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 86

Akhmatova in 1924


OUVI UMA VOZ

 
Ouvi uma voz. Falava confiante,
Murmurando: 'Vem,
Deixa a Rússia para sempre.
Eu limpo o sangue das tuas mãos,
Do coração te arranco o negro pejo,
Com outro nome cubro
A injúria e a dor da derrota.'
Tapai os ouvidos com as mãos,
Para que essas palavras indignas
Não profanassem o meu espírito aflito.
 
 
 
Anna Akhmatova. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 77

ADEUS, MEU AMIGO, ADEUS

 
Adeus, meu amigo, adeus,
Querido amigo, que trago no coração.
A separação predestinada
Para mais tarde promete novo encontro.
 
Adeus, meu amigo, sem aperto de mão nem palavras.
Não lamentes e não haja dor nem pena, -
Nesta vida morrer não é nada de novo,
Mas também nada de novo é viver.
 
 
 
 
*Este poema foi encontrado junto do cadáver do poeta. Foi, sem dúvida, o seu último poema.
 
 
Sergei Yesenin. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 69

«Pois os pensamentos são uma coisa estranha. Muitas vezes não passam de acasos que desaparecem sem deixar rastos; os pensamentos têm épocas de viver e épocas de morrer.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 238
«Considerava inevitável que uma pessoa com vida interior movimentada e rica tivesse segredos e lembranças ocultas nas suas gavetas íntimas. Apenas exigia dessa pessoa que mais tarde soubesse usar isso com elevação.
     Certa ocasião, quando alguém a quem contara esse episódio da sua adolescência perguntou se essa lembrança não o envergonhava, respondeu sorrindo:
      -Não nego que era uma degradação. Porque não? Ela passou. Mas algo dela permaneceu para sempre: aquela mínima porção de veneno necessária para que a alma não fique excessivamente confiante e tranquila, conferindo-lhe qualidades mais refinadas, aguçadas e sábias.
    «De qualquer modo, contaríamos as horas de degradação que todas as grandes paixões gravam com fogo a nossa alma?»
 
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 195
"Quando eu morrer, morre a guitarra também.
O meu pai dizia que, quando morresse, queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele.
Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver de morrer.”



Carlos Paredes



 

domingo, 25 de novembro de 2012

"To seek in nature the fairest forms and to find the movement which expresses the soul in these forms — this is the art of the dancer. ... My inspiration has been drawn from trees, from waves, from clouds, from the sympathies that exist between passion and the storm."

Isadora Duncan and Sergei Esenin


«Era um pensamento....

«Era um pensamento rodeado de emoções como se o cercassem mulheres lascivas em longos vestidos de golas altas, usando máscaras. Törless não conhecia nenhum nome para essas emoções; não sabia o que ocultavam; nisso residia toda a fascinação.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 193
 
«Parecia que lhes faltava a coroa de espinhos dos seus próprios remorsos.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 192

« A experiência que Törless tivera constituíra essa ocasião. Por uma surpresa, um mal-entendido, a interpretação errada de uma sensação, aqueles esconderijos secretos em que se reunira tudo o que a alma de Törless tinha de oculto, proibido, sufocante, inseguro e solitário - rebentou tudo e ele derramou sobre Basini os seus mais obscuros impulsos. Pois aí, estes depararam-se de súbito, com algo quente, que respirava, algo perfumado, algo que era carne, na qual os sonhos indecisos de Törless assumiam forma e tornavam-se parte da beleza, em lugar da ácida fealdade com que Bozena os maculava na solidão. Isso abrira-lhes repentinamente uma porta para a vida, e na penumbra tudo se misturava, desejo e realidade, loucas fantasias e impressões que traziam ainda os rastos ardentes da vida, sensações exteriores que as recebiam no seu interior, envolvendo-as e tornando-as irreconhecíveis.
       Em Törless tudo isso era indistinto, formava uma só emoção, imprecisa e compacta, que, no choque inicial, se podia tomar por amor.
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 190

''ácida fealdade''

 

«Sussurrava: na solidão tudo é permitido.»

Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 187
 
«Quem é que hoje em dia ainda acredita em alma? Quanto mais em reencarnação! Sei muito bem que errei, mas sempre tive esperança de me corrigir.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 176

domingo, 11 de novembro de 2012

(...)
 
«Não acordes aquele que esgotou todos os sonhos,
Não perturbes aquele que não se realizou, -
Demasiado cedo o sofrimentos e o cansaço
Encheram totalmente a minha vida.»
 
Sergei Yesenin. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 67

ESTOU CANSADO DE VIVER NA MINHA TERRA NATAL

 
Estou cansado de viver na minha terra natal,
Pensativo nas vastidões do trigo negro,
A minha cabana vou abandonar
E partirei como vagabundo e ladrão.
 
Seguirei o dia de caracóis brancos
A procurar miserável abrigo.
E o meu melhor amigo afiará
Em mim a navalha tirada da bota.
 
A estrada atravessa o prado
Amarela de sol e Primavera,
E aquela de quem guardo o nome
Em mim, correr-me-á da sua porta.
 
E voltarei então à casa paterna,
Com a alegria de outro me consolarei,
E com a manga, uma noite verde,
Da janela me enforcarei.
 
Os salgueiros cinzentos na cerca
Inclinarão mais ternamente a cabeça.
E enterrar-me-ão sem me lavarem
Ao som dos cães a ladrar.
 
E a lua há-de vaguear e vaguear,
Deixando cair ramos nos lagos,
E a Rússia como dantes viverá
A dançar e a chorar na cerca.
 
 
Sergei Yesenin. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 63/4

pele de raposa

«A liberdade vem nua»

Alexei Kruchonykh. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 56

Lilya Brik in gauzy dress by Alexander Rodchenko, 1924


«O meu
             ouvido
                        está desacostumado
                                                         da carícia das palavras;
orelhas femininas
                              nos pêlos enrolados
não podem corar
                            com versos obscenos meus.»







Vladimir Mayakovsky. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 52

numismata

 
1. pessoa versada em numismática
2. colecionador de moedas ou medalhas antigas; numismatista
 
 
(Do francês numismate, «idem»)
«Nós vivemos
                      unidos
                                 num juramento de ferro.»



Vladimir Mayakovsky. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p. 44

«                                  deitado
cobriu
            os olhos cansados
como se
            o seu coração
                                 sob as palavras estivesse exausto,
como se
           a sua alma
                           se arrastasse sob as frases.
Mas eu sabia
                    que aqueles olhos
                                                captavam
verdadeiramente
                          tudo
                                o que se dizia -»




Vladimir Mayakovsky. Antologia da Poesia Soviética. Trad. de Manuel Seabra. Editorial Futura, Lisboa, 1973, p.

sábado, 10 de novembro de 2012

 
«Sinto», anotou, «algo em mim, e não sei ao certo o que é».
    Depois riscou depressa a frase e em seu lugar escreveu:
 «Devo estar doente...insano!»
   Sentiu um calafrio, pois essa palavra era agradavelmente patética. «Insano - o que me faz estranhar mais as coisas que são normais para os outros? E porque é que esta estranheza me atormenta? E porque é que esta estranheza provoca em mim uma sensualidade carnal?»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 153

domingo, 4 de novembro de 2012

''flores recém-cortadas''

Gazela da morte sombria


Quero dormir como dormem as maçãs,
fugir do tumulto dos cemitérios.
Quero dormir como dorme aquele moço
que queria cortar o coração no alto mar.

Não quero que me repitam que os mortos não per-
        dem o sangue,
que a boca apodrecida continua a pedir água.
Não quero conhecer os suplícios que nos vêm da
         erva
nem da lua com boca de serpente
que trabalha antes do amanhecer.

Quero dormir um pouco,
um pouco, um minuto, um século;
mas que todos saibam que não estou morto;
que há um estábulo de oiro nos meus lábios;
que sou o pequeno amigo do vento oeste;
que sou a imensa sombra das minhas lágrimas.

Cobre-me com um véu pela manhã,
porque me atirará punhados de formigas,
e molha com água dura os meus sapatos
para que neles resvale a pinça do lacrau.

Porque quero dormir como dormem as maçãs
para aprender um pranto que me limpe da terra;
porque quero viver como aquele moço sombrio
que queria cortar o coração no alto mar.



Frederico García Lorca. Antologia Poética. Selecção de Eugénio de Andrade com um estudo de Andrée Crabbé Rocha e um poema de Miguel Torga. Coimbra Editora, 1946., pp.139-141

bandarilhas

''pai da tua agonia, camélia da tua morte,''

Frederico García Lorca. Antologia Poética. Selecção de Eugénio de Andrade com um estudo de Andrée Crabbé Rocha e um poema de Miguel Torga. Coimbra Editora, 1946., p.107

«Nem um só momento, velho e formoso Walt
          Whitman,
deixei de olhar a tua barba cheia de borboletas,
nem os teus ombros de pano gastos pelo luar,
nem as tuas pernas de Apolo virginal,
nem a tua voz como uma coluna de cinza;
ancião formoso como a neve
que gemias como um pássaro
com o sexo atravessado por uma agulha.
Inimigo do sátiro.
Inimigo da vide
e amante dos corpos ocultos pelo pano grosseiro.
Nem um só momento, formusura viril
que entre montes de carvão, anúncios e caminhos
        de ferro
sonhavas ser um rio e dormir como um rio
com aquele camarada que poria no teu peito
uma pequena dor de inconsciente leopardo.»




Frederico García Lorca. Antologia Poética. Selecção de Eugénio de Andrade com um estudo de Andrée Crabbé Rocha e um poema de Miguel Torga. Coimbra Editora, 1946., p.103
«(...)

um limite de agulhas cercará a memória
e levar-se-ão ataúdes aos que não trabalham.»


Frederico García Lorca. Antologia Poética. Selecção de Eugénio de Andrade com um estudo de Andrée Crabbé Rocha e um poema de Miguel Torga. Coimbra Editora, 1946., p.101

Encontro

Nem tu nem eu estamos
na disposição
de nos encontrar.
Tu...pelo que já sabes.
E eu desejei-a tanto!
Segue essa vereda.
Nas mãos
tenho as feridas
dos cravos.
Não vês como estou
sangrando?
Não olhes nunca para trás,
vai devagar
e reza como eu
a São Caetano,
que nem tu nem eu estamos
na disposição
de nos encontrar.



Frederico García Lorca. Antologia Poética. Selecção de Eugénio de Andrade com um estudo de Andrée Crabbé Rocha e um poema de Miguel Torga. Coimbra Editora, 1946., p. 87

«Aquela tarde foi maravilhosa.»

     «Törless tirou da gaveta todas as suas tentativas poéticas. Sentou-se com elas junto do fogão e permaneceu sozinho e despercebido atrás da chaminé. Folheou um caderno após outro, depois rasgou-os bem devagar, em mil pedacinhos, jogando-os no fogo, saboreando de cada vez a doce emoção da despedida.
      Com isso queria lançar fora de si toda a bagagem antiga, como se agora - sem nenhum impedimento - devesse dar toda a atenção ao futuro.»
   
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 135
«(...), sentiu uma alegria maligna. Sentiu que assimilava os factos mais completamente do que os companheiros, com um significado que eles não alcançavam.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 121

''aborreceu-se com a sua própria timidez''

«Era a falha das palavras que o torturava, a vaga consciência de que as palavras eram apenas subterfúgios transitórios para as coisas realmente experimentadas.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 110

''lagartos lustrosos''

Törless sonhava mais que pensava.

Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 103

Vira imagens que não eram imagens

«Sempre existira alguma coisa de que os seus pensamentos não conseguiam dar conta. Algo simples e estranho. Vira imagens que não eram imagens.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 102
«As coisas cruéis que acontecem servem unicamente  para matar os desejos miseráveis que se dirigem para fora, e que, seja vaidade, fome, alegria ou piedade, apenas nos afastam do fogo que cada pessoa é capaz de acender dentro de si.»
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 99/100

 
«Num ser humano, ela coloca essa dureza na personalidade, na consciência, na responsabilidade que ele sente por ser parte da alma universal. Se uma pessoa perde essa noção, perde-se a si mesma. E quando um ser humano se perdeu a si mesmo, renunciou a si, perdeu também aquela coisa especial, singular, para qual a Natureza o criou como ser humano. E em nenhum outro caso como neste poderíamos estar tão seguros de que estamos a lidar com algo inútil, com uma forma vazia, algo há muito abandonado pela alma universal.»
 
 
 
Robert Musil. O Jovem Törless. Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1987., p. 93


(...)

«Para que são essas lágrimas? Porque cobres o rosto com as mãos! Fiz-te sofrer, minha idolatrada? Pois esquece o que te disse que conformar-me-ei com o presente.»


Tagore. CHITRA. Poema Lyrico. Editorial Paulista S. Paulo., p. 81

contumaz

contumaz
 
adjetivo de 2 géneros
1. que revela contumácia; teimoso; obstinado; pertinaz
2. DIREITO diz-se da pessoa que, intencionalmente, se recusa a comparecer perante o juiz que a citou; revel
 
(Do latim contumāce-, «idem»)

sábado, 3 de novembro de 2012


«Todo o meu ser será teu, se me disseres, o que e a quem buscas.»


Tagore. CHITRA. Poema Lyrico. Editorial Paulista S. Paulo., p. 31

paulatinamente

 
pouco a pouco; lentamente

MADANA

«Não necessitas instrução, formosa beldade! Os olhos cumprem seu dever sem serem amestrados (...)»



Tagore. CHITRA. Poema Lyrico. Editorial Paulista S. Paulo., p. 17


CHITRA

«(...) Nada sei dos artifícios femininos que conquistam corações. Meus braços têm forças para curvar o arco, porém ignoro a artimanha de Cupido e a arte dos olhos.»



Tagore. CHITRA. Poema Lyrico. Editorial Paulista S. Paulo., p. 17

sexta-feira, 2 de novembro de 2012