quarta-feira, 29 de janeiro de 2014


TEMPO DE BAIXA-MAR


«Apaga-se a certeza de me ter enganado
em tudo o que mais amei e em tudo aquilo
onde pude enraizar-me plenamente.
Tempo de baixa-mar, cuja ondulação
perdeu o seu feitiço entre as rochas.
Em que se deve apostar na vida quando a vida é só
a saudade que aproxima o tédio de estar morto?»


Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 51

''indómita ondulação''

''húmido uivo da lua''

caligem


nome feminino
1. nevoeiro denso
2. escuridão
3. névoa nos olhos
4. catarata

(Do latim caligĭne-, «fumo negro; nevoeiro cerrado»)

NA FECHADA CELA DE PAPEL


«Já não quer insistir porque sabe que o amado
há-de ser, rapidamente, a imagem da dor.
E sonha, consola-se com maltratadas memórias
na fechada cela de papel.»


Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 43

CRUEL TESTEMUNHO

O vento da dor,
cegando-lhe os olhos,
agitado areal que se move
insone e sem perguntas.
A sua indiferença cala,
enche de sombria luz
o sonolento abraço
de uma cruel desmemória,
ali, onde se extinguem
latidos e desejos,
o vínculo impossível
que faz mover o mundo.
E aperta-se na sua cabeça
uma garra de pedra,
irrespirável boçal,
arduamente enquistados
no longo horizonte
das horas, fazendo-o descer
à sua perversa prisão.
E uma voz, a mais verdadeiramente sua,
sobre outras se amotina,
com o seu nome de fogo,
eleva-o, reclama-o.
E continua e não se rende,
um dia e outro dia
insiste obstinadamente
mas não para viver,
somente para dar
o seu cruel testemunho.



Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 41

«as palavras também não são palavras,
nem sequer se arriscam a serem lágrimas,»

Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 39

A Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper

Com a finalidade de dar a conhecer seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, a crítica de arte Avelina Lésper apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP), sendo ovacionada pelos estudantes na ocasião.

A arte falsa e o vazio criativo

“A carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus “

A crítica explica que os objetos e valores estéticos que se apresentam como arte são aceites em completa submissão aos princípios deuma autoridade impositora. Isto faz com que, a cada dia, formem-se sociedades menos inteligentes e aproximando-nos da barbárie.

O Ready Made

Lésper aborda também o tema do Ready Made, expressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidade. A arte foi reduzida a uma crençafantasiosa e sua presença em um mero significado. “Necesitamos de arte e não de crenças”.

Génio artístico

Da mesma maneira, a crítica afirma que a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveis, já não tem possibilidade de manifestar-se na atualidade. “Hoje em dia, com a superpopulação de artistas, estes deixam de ser prescindíveis e qualquer obra substitui-se por outraqualquer, uma vez que cada uma delas carece de singularidade“.

O status de artista

A substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos, “tudo aquilo que o artista realiza está predestinado a ser arte, excremento, objetos e fotografias pessoais, imitações, mensagens de internet, brinquedos, etc. Atualmente, fazer arte é umexercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativa, além de serem peças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforço e cuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“.

Neste sentido, Lésper afirma que, ao conceder o status de artista a qualquer um, todo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre umabanalização. “Cada vez que alguém sem qualquer mérito e sem trabalho realmente excepcional expõe, a arte deprecia-se em sua presença e concepção. Quanto mais artistas existirem, piores são as obras. A quantidade não reflete a qualidade“.

Que cada trabalho fale pelo artista
“O artista do ready made atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; se faz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; se faz obras eletrónicas, manda-as fazer, sem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; se envolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra dearte contemporânea, não tem porquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização.

Os artistas fazem coisas extraordinárias e demonstram em cada trabalho sua condição de criadores. Nem Damien Hirst, nem Gabriel Orozco, nem Teresa Margolles, nem a já imensa e crescente lista de artistas o são de fato. E isto não o digo eu, dizem suas obras por eles“.

Para os Estudantes

Como conselho aos estudantes, Avelina diz que deixem que suas obras falem por eles, não um curador, um sistema ou um dogma. “Suaobra dirá se são ou não artistas e, se produzem esta falsa arte, repito, não são artistas”.

O público ignorante

Lésper assegura que, nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não apercebe“.

“O espectador, para evitar ser chamado ignorante, não pode dizer aquilo que pensa, uma vez que, para esta arte, todo público que não submete-se a ela é imbecil, ignorante e nunca estará a altura da peça exposta ou do artista por trás dela.Desta maneira, o espectador deixa de presenciar obras que demonstrem inteligência”.

Finalizando

Finalmente, Lésper sinaliza que a arte contemporánea é endogámica, elitista; com vocação segregacionista, é realizada para suaprópria estrutura burocrática, favorecendo apenas às instituições e seus patrocinadores. “A obsessão pedagógica, a necesidade de explicar cada obra, cada exposição gera a sobre-produção de textos que nada mais é do que uma encenação implícita de critérios, uma negação à experiência estética livre, uma sobre-intelectualização da obra para sobrevalorizá-la e impedir que a sua percepção seja exercida com naturalidade“.

A criação é livre, no entanto a contemplação não é. “Estamos diante da ditadura do mais medíocre”

fonte: Vanguardia


Conferência proferida por Avelina Lésper:


domingo, 26 de janeiro de 2014

''Corrói-te e persegue-te o espectro da angústia''

Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 35

água lustral

água do baptismo

O TEU PULSAR É O MEU


E lutei contra o sono e contra a fadiga,
contra a ira sem fim e contra o desenraizamento.
Esquadrinhei e esgaravatei sem hesitação,
por entre as débeis e cegas fagulhas
da minha memória por encontrar durante um ano,
um solitário dia, apenas um instante
em que pude dizer: jamais te amei;
mas não encontrei qualquer resquício para, sozinho, mentir-me,
para sequer afirmar a mais pequena negação.
O teu pulsar é o meu. Ali, onde começa
esse desejo intenso em que nomeamos a vida,
ali, resplandecendo nos diferentes dias,
na ardente espessura do meu assombro,
com o sim e com o não do abismo ou da sorte,
esperas-me silenciosa como árvore de fogo 
que sustém essa fruta lustral da esperança.
O meu olhar invoca-te agora,
no rumo indeciso de qualquer distância
desse mar que me canta e seduz
com os olhos impetuosos do relâmpago.
És a sede do Éden que eu não entendo
e, nos profundos acordes da tua voz,
permaneces perene, com a tensa
música da alma e da audaz Primavera,
em todas as palavras do sangue.




Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 33

É TÃO RARO O AMOR POR SI PRÓPRIO


Sigo na escuridão sem rosto. Sofre
a criança solitária que palpita nos meus olhos,
perdida na espiral da angústia.
Ela nada pede, escuta um futuro despido.
Está sombria e ausente e já não me sorri.
Não sei como conduzi-la à alegria.
Com as minhas lágrimas silencia e não pode dormir.

Sou parte da bruma que não me ama.
Um pequeno pulsar une-me a tudo o que vivo,
já não se sabe se sou o que ainda sou
ou sou o que me nega obstinadamente.
É tão raro o amor por si mesmo
que na sua fronteira treme com o seu contrário
e por vezes se troca ou se suprime.
Como entender então a súbita piedade,
a injustiça de um ódio que por vezes se comove
mostrando-me a sua gelada transparência?



Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 31

DESVANECES-TE AO AMANHECER


Desvaneces-te ao amanhecer.
Só fica a tua sombra entre as minhas mãos,
uma presença de ar, desejo e sonho e riso
que dissipa o seu incêndio consumido

(...)


Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 29

Amnesia


RITUAL DOS ESCRAVOS


Dá-me o que não tens, mas que é a tua essência,
acaso esse desejo tão íntimo e proibido,
o que mais te pertence: a tua entrega e a tua renúncia.
Tudo o que serás quando a tua plenitude
alcance o futuro que tenha amadurecido
como um dourado fruto pela luz do Outono.

Talvez a noite límpida nos reúna
para que conheçamos o mal do difícil,
o mail indivisível do amor,
onde por fim possamos existir
no ténue esplendor com que a vida
nos escolhe e fatalmente nos mistura.

Por isso peço-te que com firmeza cumpras
o rigoroso ritual dos escravos:
mudar a liberdade da esperança
pela ânsia que juntos nos aprisiona.



Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 28

RESSURREIÇÃO


A meio da tarde sou um morto qualquer,
e o desejo uma duna que se estende
no seu próprio deserto, no seu pântano sem ondas.
Por não querer saber não sonho nem com a paisagem,
deixo de ouvir o território que disseca o rio
como se fosse o esqueleto em funga
da miragem, pedra que ancorou sob o silêncio.

Tudo se altera na noite. As estrelas ressurgem
de poliedros fulgurantes. São despertos os felinos
que rasgam com veemência um sol que se fez sombra.
A sede põe-se em pé, com metáforas cresce
no alto arvoredo do coração profundo.
Aqui canta o enigma dos bosques,
o círculo que aquece o teu corpo no meu:
bela praia-mar dos sentidos plenos,
ebriedade e delírio da ressurreição.



Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 27

«Desde os gregos que o passeio no campo é uma actividade indispensável ao filósofo; ou ao que tem grilos na lareira, o hipocondríaco, ao melancólico.»


Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 71
«Maria Adelaide, que sofria de «profunda melancolia» desde muito nova, é completamente outra pessoa quando vai viver para Santa Comba, ou antes, é alguém que se observa existir.»


Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 71



Give me your eyes
That I might see the blind man kissing my hands
The sun is humming
My head turns to dust as he plays on his knees
As he plays on his knees
And the sand
And the sea grows
I close my eyes
Move slowly through drowning waves
Going away on a strange day

And I laugh as I drift in the wind
Blind
Dancing on a beach of stone
Cherish the faces as they wait for the end
Sudden hush across the water
And we're here again
And the sand
And the sea grows
I close my eyes
Move slowly through drowning waves
Going away
On a strange day

My head falls back
And the walls crash down
And the sky
And the impossible
Explode
Held for one moment I remember a song
An impression of sound
Then everything is gone
Forever

A strange day

Um dia olhou para o céu e disse a palavra mãe, e caiu morto.



    «Em 1919, o famoso bailarino Nijinsky era fechado num manicómio. Ao longo de trinta anos a sua loucura foi motivo de experiências dolorosas, algumas de carácter quase torcionário. Um dia olhou para o céu e disse a palavra mãe, e caiu morto. A ordem psíquica, que é um acto de criação no tempo, nem sempre, ou muito raramente, tem sentido para os psiquiatras.» 



Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 71


«Viver em Lisboa, para Maria Adelaide, aos dezoito anos, é pior do que sofrer duma deformidade, ter seis dedos nas mãos. Não é o bastante para ser um fenómeno de circo e, no entanto, impede que se dê o sincronismo entre ela e os outros.»



Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 67

«Não vamos buscar razões de amor onde há um despeito que arde no coração de Maria Adelaide e que é próprio das pessoas muito emotivas.»

Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 66

«Aquilino Ribeiro publicava A Via Sinuosa, e ele retratava a mulher cuja ''carne era uma harpa de inefáveis melodias''. O melhor que uma mulher de espírito podia aspirar era ser chamada «privilegiada senhora».


Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 66

Maria Adelaide

«(...) o seu estado depressivo que faz com que se vista pobremente e se recuse a ter relações conjugais, tendo crises de irritação e de isolamento.»

Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 62

«Em pessoas como Maria Adelaide impõe-se o princípio da estranheza que é o que regula os amores fatais.»

Agustina Bessa-LuísDoidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 60

sábado, 25 de janeiro de 2014


 « De pé, no meio da sala, vacilante, atordoado, fiquei a pensar na minha vida, a ver o que ela foi. Não, não é fácil vencer tal corrente de lama. Fui um homem tão horrível que não tive um único amigo. Mas, pensava eu, não seria porque sempre fui incapaz de disfarçar? (...)
 
Eu não teria sido tão desprezado se não me tivesse mostrado tanto, se não fosse tão aberto, tão nu.»
 
 
François Mauriac. O Nó de Víboras. Tradução de Maria Conceição Ramírez Cordeiro. Livros de bolso europa-américa., p. 134
«Prostrada diante de Vós, ó meu Deus, recitava Isa, «eu Vos dou graças porque me destes um coração capaz de Vos conhecer e amar...»
 
 
 
François Mauriac. O Nó de Víboras. Tradução de Maria Conceição Ramírez Cordeiro. Livros de bolso europa-américa., p. 133/4
   «Nem os melhores aprendem a amar sozinhos. Para ultrapassar o ridículo, os vícios e, sobretudo, as asneiras dos seres humanos é preciso conhecer o segredo de um amor que não encontramos no mundo.»
 
 
 
François Mauriac. O Nó de Víboras. Tradução de Maria Conceição Ramírez Cordeiro. Livros de bolso europa-américa., p. 133

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

«Não amava o marido, ou parecia-lhe que ele não a merecia, rica como era, bonita e submissa como uma freira ao seu apostolado. (...) Que prazeres tivera, que compensações, que esperanças? São perguntas que as mulheres fazem a si próprias quando o espelho as desengana.»
 
 
Agustina Bessa-Luís. Doidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 48
 

«(...) orgulhos maltratados e leis do coração que só a morte resolve.»

Agustina Bessa-Luís. Doidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 44

«Há casas que não se devem despertar. São como sepulcros das paixões mal combinadas com o destino.»


Agustina Bessa-Luís. Doidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 44

être en verve

«A frustração amorosa é uma reminiscência pré-histórica da frustração do poder.»

Agustina Bessa-Luís. Doidos e amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 40
«O que dizem Júlio de Matos, Sobral Cid, Egas Moniz e Bettencourt Rodrigues numa obediência cega ao seu trabalho de alienistas? Dizem o seguinte: ''O equilíbrio instável, em que muitos degenerados conseguem manter-se, simulando a sanidade do espírito, rompe-se facilmente ao menor pretexto, porque eles não são, na frase justa dos psiquiatras franceses, senão perpétuos candidatos à loucura. Fadigas físicas, emoções, surménage intelectual, muitas vezes mesmo as fases evolutivas e as funções normais da vida, as menstruações, a gravidez, os partos, o aleitamento e a menopausa, bastam a lança-los na alienação mental em qualquer das suas múltiplas formas. Este é o caso de D. Maria Adelaide Coelho da Cunha.'' E assinam.»



Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 32


* surmenage  - esgotamento

''cidade nevoenta e triste''

''assoar-se aos dedos''


«O coração de Adelaide tinha ainda sombras, dessas que não se apagam com coisas felizes. Ela era nova e alegre, mas parecia-lhe a felicidade uma forma qualquer de malícia.»


Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 32

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

amancebar-se


verbo pronominal
1. viver maritalmente com uma pessoa, sem estar casada com ela; juntar-se em mancebia; amigar-se
2. tornar-se amante


«Coisas do coração querem-se seladas e feitas em fumo.»

Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 27
«Porque a dor é mais imaginosa do que a alegria. A perda de alguém que se ama traz aos sentidos flores de retórica insuspeitadas.»

Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 26
«Aprendemos a não nos desiludir porque não aspiramos a ser protagonistas de nada deste mundo. Bastamo-nos como ser parceiros na história que, por ser fingida, nos dá a garantia de ser inofensiva. Passa-se com os outros, e portanto temos a liberdade melhor de todas que é a de acreditar que estamos a salvo de tudo o que sucedeu e sucederá.»


Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 20
É o tempo da abundância e da paz sobre os campos. Vejo-os ao olhar nítido da minha fome. As sombras estendem-se sobre eles como os rios no seu leito e eles são à superfície a agonia da paisagem. É o último dia de agosto, a tarde desce com o verão. Ainda se ouvem nas árvores os últimos pássaros e a agitação da folhagem esconde tantas asas quanto aquelas que ainda ferem o meu coração. Estive pronto e não parti.
 
De Fome (Inédito)
João Moita

lobo-cão


pavão-real

Mandrágora







O BORAMETZ



   «O cordeiro vegetal da Tartária, também chamado «Borametz» e «polipódio Borametz», e «polipódio chinês», é uma planta cuja forma é a de um cordeiro, coberta de penugem dourada. Ergue-se sobre quatro ou cinco raízes; as plantas morrem, à volta e ela mantém-se louçã; quando a cortam sai um suco sangrento. Os lobos deleitam-se a devorá-la. Sir Thomas Browne descreve-a no terceiro livro da sua Pseudodoxia Epidemica (Londres, 1646). Noutros monstros combinam-se espécies ou géneros animais; no Borametz, o reino vegetal e o reino animal.

    Recordemos a este propósito a mandrágora, que grita como um homem quando a arrancam, e a triste floresta dos suicidas, num dos séculos d'O Inferno, de cujos troncos magoados brotam ao mesmo tempo sangue e palavras, e aquela árvore sonhada por Chesterton, que devorou os pássaros que tinham feito ninho nos seus ramos e que, na Primavera, deu penas em vez de folhas.»



Jorge Luis Borges; Margarita Guerrero. O livro dos seres imaginários. Trad. Serafim Ferreira, Editorial Teorema, Lisboa, 2ª ed, 2009., p. 39

O Basilisco


   «O Basilisco reside no deserto: ou melhor, cria o deserto. Aos seus pés caem mortos os pássaros e apodrecem os frutos; a água dos rios em que bebe fica envenenada durante séculos. Plínio declarou que o seu olhar parte as pedras e queima o pasto. O cheiro da doninha mata-o e na Idade Média dizia-se que era o canto do galo. Os mais experimentados viajantes levavam galos consigo para atravessar regiões desconhecidas. Uma outra arma era um espelho, porque o Basilisco cai fulminado com a sua própria imagem.»



Jorge Luis Borges; Margarita Guerrero. O livro dos seres imaginários. Trad. Serafim Ferreira, Editorial Teorema, Lisboa, 2ª ed, 2009p. 34

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

«Os pobres de espírito e os ascetas estão excluídos dos prazeres do Paraíso porque os não compreenderiam.»


Jorge Luis Borges; Margarita Guerrero. O livro dos seres imaginários. Trad. Serafim Ferreira, Editorial Teorema, Lisboa, 2ª ed, 2009p. 24

THANATOS E EROS


Espelho dentro de um absorto espelho,
quem vês dentro de ti mesmo,
o teu frio, talvez, a tua carência,
ou o convulso mistério que te embebe
para ser parte de ti o que do éden tu desejas?
Serás, por acaso,  o meu altivo delírio,
a outra metade perdida e nunca encontrada,
o outro inimigo que me procura?

Obscura tentação do proibido,
a tua indagação explica-me, turva-me até inflamar
a perversa paixão da aparência,
a vã leveza que me nega e te apaga,
a que lança na minha alma a sua promessa de amor
até ficar contigo, alheio e deslumbrado,
para assim me destruíres lentamente.
Mas o que procuras em mim? Serão os meus sonhos
ou as minhas reencarnações futuras?

Afasta de mim a tua exaltação tenebrosa,
ou será que formaremos sempre um só ser,
fundidos num corpo de cega luz.
Sei que somos duas forças fustigadas,
a luta fraticida entre Thanatos e Eros,
a impiedade da noite e o desdém da luz,
a claridade que pulsa com a sua agónica sombra.
O horror e o afã de se extinguir na tua vertigem,
sorvendo o teu brilho e o meu soluço,
tornam infindável a miragem.
O tempo divide-nos e reúne-nos.
Na palavra elevada voltamos a olhar-nos,
lenta ressurreição, sonho de pátria e vento,
olhos onde começamos a encontrar
as súbitas presenças da minha face e do teu revés,
enquanto a solidão e o silêncio se afundam
e nos deixam cativos, frente a frente, no nada.



Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 18

«Toco a hostil humidade no anoitecer
das tensas palavras que não esqueço
e escuto a palpitação do poema,
como se fosse o infinito espaço
que abraçasse o planeta solitário que eu sou.»


Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 18

terça-feira, 21 de janeiro de 2014




First I shut down the stars because
You said they ruled us
Then I took out Mars
He was the cruelest

His lover followed suit
By way of suicide
And the others stood there silent
As I dealt out peace of mind

Shut me up
Shut me down
Stop me if you can
My love, I'll show you nothing
I'm a misanthropic man

Shut me up
Shut me down
Stop me if you can
My love, I'll show you nothing
I'm a misanthropic man

Shut me up
Shut me down
Stop me if you can
My love, I'm less than nothing
I'm a misanthropic man

This is a journey
To the edge of the night
I've got no companions
Only Celine's on my side
Don't need nothing from no-one
The needle's in the red
Nothing to lose
Everything's dead

Shut me up
Shut me down
Stop me if you can
My love, I'll show you nothing
I'm a misanthropic man

Shut me up
Shut me down
Stop me if you can
My love, I'm less than nothing
I'm a misanthropic man

The sky is empty/silent
The earth as still as stone
Nothing stands above me
Now I can sleep alone
«É uma coisa magnífica, a inocência. Mas também é de temer, posto que não consegue proteger-se contra aquilo que a pode destruir.»


Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 19

púcaro


«Mas seria Kant um mortal qualquer? Ele tem ''um grilo na lareira'', quer dizer um maníaco, talvez um louco adiado.»


Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 16

« -O trabalho que me deu essa mulher para descobrir-lhe a alma ou qualquer coisa como isso. Virei Lisboa do avesso para encontrar-lhe o rosto. Havia ainda quem a amasse, acredita nisso? Havia quem, depois de ela ter morrido, velha e esquecida, fosse capaz de matar por ela.»



Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 12


« - Dispenso as explicações. Quando elas são necessárias já não servem de nada - disse eu, de maneira modesta, para não o irritar. Digo mal. O Freirão nunca se irritaria comigo. Um caçador irrita-se com o meteorologista, não com uma mulher. Eu, de resto, não lhe dizia o que pensava. Como se me ouvisse, no silêncio das minhas cordas vocais, ele perguntou-me:
       -O que estás a pensar?
       -Eu? Em nada...Mas já que quer saber, penso que não há remédio para uma pessoa como você.
       -Não há salvação, quer dizer.
      -Ou isso.»

Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 12

I

«Um enterro no campo:
  A tarde parecia vagarosa, como acontece às vezes em que acrescentamos às obrigações de todos os dias um dever que não sabemos qualificar. Neste caso, o enterro dum amigo. É muito difícil descrever uma amizade quando se tem tudo para a pôr de parte. Tudo, como a juventude, o futuro prometedor e a espécie de indústria cega que é o talento. Este tem qualquer coisa de desumano. Escorrega-nos dos dedos sem que se possa evitar o egoísmo que compõe a sua matéria e o seu uso. Ele não se adapta a qualquer conselho moral ou imoral. Apodera-se das nossas entranhas e deixa-as secas para tudo o que não seja a sua obra.
    No entanto, eu tinha tido um amigo naquele homem que fazia da infelicidade um desporto da alma.»


Agustina Bessa-Luís. Doidos e Amantes. 2ª edição, Lisboa Guimarães Editores, 2005., p. 9


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

UM ANIMAL SONHADO POR KAFKA

«(...)


Costumo ter a impressão de que o animal me quer amestrar; agarrar e logo esperar tranquilamente que volte a atrair-me, e de imediato voltar a saltar?»


FRANZ KAFKA
Hochzeítsvorbereitungen auf dem Lande, 1953



Jorge Luis Borges; Margarita Guerrero. O livro dos seres imaginários. Trad. Serafim Ferreira, Editorial Teorema, Lisboa, 2ª ed, 2009p. 20

Antichrist


O SANGUE IRREFREÁVEL


A avidez que descubro nas minhas pupilas
como fera encerrada por um íntimo acaso.
Atracção por aquele fogo, a miragem
estende as suas areias perante o mar de Verão,
perante o voo dos pássaros que anunciam
o diálogo furtivo dos corpos.

Reino da lascívia sob palmeiras sombrias,
ardente brisa, música plena dos sentidos
iniciada na alma, respirada
com fruição pelos meus cinco salteadores dementes.
Quantas luzes se acenderam. Quanta pura agitação
nos lábios e nas ancas fugidias.

Emergi da espuma como um sol solitário.
Passei por dunas, oásis, cheirei esticados lençóis,
despertei os racimos mais pretos e os mais túmidos,
senti as certezas que estes dedos abriam.
Ali a dança, abismo de doçura,
e o seu vibrante ventre de timbale,
bebendo-se na desordem o meu futuro
sob o ar de uma vertigem de estrelas.
Fui tirano e escravo do gozo e da dor,
da dura saudade dos beijos,
da fugacidade depredadora
de tudo quanto vive e ama consumindo-se.
Despedaçado, escutei o pavor do capricho,
a impiedade que me nega ou aquela onde amanheço.

Morri com a convicção em tantas ocasiões
para ressuscitar com um vigor fragante,
e depois e depois e depois, depois de tantos anos,
sonho perante o mar rebelde do estio,
sonho com a juventude de um erguido desejo
e espero a maré das horas
vindo e indo até ao último deserto,
lá onde se dilui o sangue irrefreável.



Justo Jorge Padrón. Extensão da Morte. Editorial Teorema, 2000., p. 13/4