segunda-feira, 30 de junho de 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Boys smoking, London, 1956.


sevícia


nome feminino

 1. mau trato físico; ofensa corporal
2. crueldade, desumanidade

(Do latim saevitĭa-, «idem»)
«Sobre essas margens, agora desertas, estendia-se então um subúrbio de Roma, onde banhos, tabernas e jardins recebiam à noite os elegantes da cidade. Era um lugar de depravação e de entrevistas nocturnas; Nero frequentava-o com os seus amigos. Numa dessas excursões, que o prazer de se sentir liberto de todo o constrangimento lhe fazia amar com paixão.»


Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 66/7
«A boca violácea de D. Quitéria cobriu-se de espuma e a pele encarquilhada do rosto estremeceu de indignação.»


Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 158

«E o homem fechou-se num mutismo agressivo.»

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 149
    «Depois, a mulher, com a solicitude de quem cuida de um filho, tomou a iniciativa de lhe esfregar as costas menos acessíveis e mais renitentes. Barbaças, vendo-a assim acocorada a seus pés, humilde e carinhosa, manifestando nesse servilismo toda a sua gratidão, sentiu que lhe era necessário praguejar ou fazer qualquer coisa por onde se escoasse tamanha felicidade.»
 

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 138

«(...) desfez-lhe a rigidez dos braços com um abraço insaciável.»

Fernando NamoraO Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 112
«Os navios existem e existe o teu rosto/ encos-
tado ao rosto dos navios.»

Eugénio de Andrade

id freudiano

«gelo quente, a mais estranha das neves.»

Philostrato

«Este prazer, de tão óbvio, incomoda. Esta harmonia, de tão postiça, inquieta.»

 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 205
«(...) cada coisa está no seu devido lugar, que é este lugar de todos os lugares onde interminavelmente se cruzam e confundem; cada ser está bem na sua própria pele, mas a pele aqui é uma superfície libidinal sem fim onde nomes e rostos se esbatem.»
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 205

Blade Runner

«Do lábio ainda ferido desprende-se um pouco de sangue que alastra pela bebida.»
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 193

A MULHER É A ESCÓRIA DO MUNDO

A mulher é a escória do mundo
Sim, é, pensa nisso
A mulher é a escória do mundo
Pensa nisso, faz alguma coisa.

Obrigámo-la a pintar-se e a dançar
Se não quer ser uma escrava dizemos que não nos ama
Se é sincera dizemos que está a querer ser homem
Enquanto a rebaixamos fingimos que é superior a nós.

A mulher é a escória do mundo
Sim, é
Se não acreditas olha para aquela com quem estás

A mulher é o escravo dos escravos
Sim, devias gritar isso.

Obrigámo-la a parir e a criar os nossos filhos
E depois pomo-la de lado por estar uma fêmea gorda e velha
Dizemo-lhes que foi feita para estar em casa
E depois queixamo-nos que é pouco interessante para ser nossa amiga.

Repete 3 &4

Insultámo-la todos os dias na T.V.
E admiramo-nos por não ter a coragem ou confiança
Quando é jovem aniquilámos o seu desejo de ser livre
Enquanto lhe dizemos para não ser tão esperta
Rebaixámo-la por ser tão parva.

Repete 3.

A mulher é o escravo dos escravos
Sim, é
Obrigámo-la a pintar-se e a dançar.


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 87

Loving Care, 1992 by Janine Antoni ''Performance of her dipping her hair in hair dye and painting the gallery floor''


''Imagina as nuvens a pingar. Abre um buraco no teu jardim para as pôr dentro''.

Yoko, 63

HOW?


How can I go forward
When I don't Know wich way I'm facing?
How can I go forward
When I don't Know wich way to turn?
How can I go forward
Into something I'm not sure of?
Oh no, oh, no

How can I have feeling
When I don't Know if it's a feeling?
If I just don't Know how to feel?
How can I have feelings
When my feelings have always been denied?
Oh, no, oh, no

You Know life can be long
And you got to be strong
And the world is so tough
Sometimes I feel I've had enough

How can I give love
When I don't know what it is I'm giving?
How can I give love
When I just don't know how to give?
How can I give love
When love is something I ain't never had?
Oh, no, oh, no

Repeat 3

How can we go forward
When we don't know Which Way we're facing?
How can we go forward
When we don't Know which way to turn?
How can we go forward
Into something we're not sure of?
Oh no, oh no


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 80

«naperons» bordados

«Ele partiu ferido de morte.»

Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p. 127

Alma Rubens par Edward Thayer Monroe


ANTÍGONA
 
  Meteis-me nojo, todos, com a vossa felicidade! Com a vossa vida que vos esforçais por amar, a todo o custo. Pareceis cães, lambendo o que encontram. A mesquinhez do dia a dia, para quem não for muito exigente. Eu! eu quero tudo, imediatamente e por inteiro, ou, caso contrário, não aceito nada! Não quero ser modesta, e contentar-me com um pedacito, se tiver juízo. Hoje quero ter a certeza de tudo - e que tudo seja tão belo, como quando era pequena - ou então morrer.
 
CREONTE
 
Vamos, vamos: começas como o teu pai!
 
ANTÍGONA
 
  Sim, como o meu pai! nós somos daqueles que levam as perguntas até às últimas consequências. Até que não exista a mais pequena probabilidade de esperança; a mais pequena probabilidade de esperança a sufocar. Nós somos daqueles que, quando encontram a esperança - a vossa esperança, a vossa querida esperança! - lhe saltam em cima e a espezinham.
 
CREONTE
 
  Cala-te! Se visses como ficas feia ao pronunciar essas palavras.
 
ANTÍGONA
 
   Sim, sou feia! São ignóbeis estes gritos, estes movimentos bruscos, estes esgares. Meu pai só foi belo, mais tarde, quando teve a certeza de que tinha matado o próprio pai, de que tinha dormido com a própria mãe, e de que nada, nada, poderia salvá-lo! Nesse momento acalmou-se, de repente; como que sorriu, e tornou-se belo. Era o fim. Só teve que fechar os olhos para não ver mais nada! Ah! As vossas caras, as vossas tristes caras de candidatos à felicidade! Sóis vós os feios! Vós! Mesmo os mais belos! Tendes todos algo de feio a um canto do olho, ou da boca. Tu bem o disseste há pouco, Creonte! Tu bem falaste na maneira como as coisas eram cozinhadas! Vós tendes todos caras de cozinheiros!
 
 
Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p. 114/5

quinta-feira, 26 de junho de 2014

«Sou o único juiz dos meus próprios actos.»

 
Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p. 95/6

«Mas, apesar do teu mau génio, eu gosto muito de ti.»

Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p. 86
«Na tragédia estamos tranquilos. Estamos, desde início, em família! Numa palavra: estão todos inocentes! Não importa que haja um que mata e outro que morre. É apenas uma questão de distribuição. E, além disso, a tragédia é, sobretudo, repousante porque sabemos que não há lugar para a esperança, essa horrível esperança; quando se é apanhado, quando se é apanhado como um rato, com o peso do céu sobre as nossas costas, e só nos resta gritar - não gemer ou queixar-se - gritar a plenos pulmões o que se tem para dizer, o que nunca se disse e que, talvez, há momentos ainda não sabíamos que iríamos dizer. E para nada: para o dizermos a nós próprios. No drama debatemo-nos porque esperamos sair dele. É ignóbil, é utilitário. Na tragédia, tudo é gratuito. É para os reis. Enfim, não há nada a tentar!»
 
 
 
Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p. 68

«Não há felicidade sem discussões.»

Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p. 50
 
«...E sofrer? Será necessário sofrer! Sentir subir a dor a ponto de a não podermos suportar: subir até que se torne necessário sustê-la - ela continuar a subir como uma voz aguda! Oh! Não posso, não posso...»


Jean Anouilh. Antígona. Tradução e Prefácio de Manuel Breda Simões. Editorial Presença, Lisboa, 1965., p.

A Prostituição [Isidore Ducasse - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Fiz um pacto com a prostituição para semear a desordem nas famílias.
Recordo-me da noite que precedeu esta perigosa ligação. Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um pirilampo, grande como uma casa, que me disse: "Vou-te alumiar. Lê a inscrição. Não é de mim que vem esta ordem suprema." Uma vasta luz cor de sangue, em face da qual me bateram os dentes e os braços me caíram inertes, espalhou-se pelos ares, até ao horizonte. Apoiei-me contra um muro em ruínas, pois estava quase a cair, e li: "Aqui jaz um adolescente que morreu de tísica. Bem sabeis porquê. Não oreis por ele." Muitos homens não teriam tido, talvez, a coragem que eu tive.
Entretanto uma bela mulher, nua, veio deitar-se a meus pés. E eu para ela, de rosto triste: "Podes levantar-te." Estendi-lhe a mão com que o fratricida corta o pescoço à irmã. Diz-me o pirilampo: "Pega numa pedra e mata-a." "Porquê?", disse eu. E ele: "Toma cuidado contigo. És o mais fraco, porque eu sou o mais forte. Esta chama-se prostituição."
De lágrimas nos olhos, a raiva no coração, senti nascer em mim uma força desconhecida. Peguei numa grande pedra. Depois de muitos esforços, ergui-a a custo à altura do peito. Coloquei-a em cima do ombro, com os braços. Subi a uma montanha, até ao alto. Dali, esmaguei o pirilampo.

A Maldade [Isidore Ducasse - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Deve-se deixar crescer as unhas durante quinze dias. Oh como é doce arrancar brutalmente da cama uma criança que nada tem ainda sobre o lábio superior e, com os olhos bem abertos, fingir que se lhe passa suavemente a mão na testa, inclinando-lhe para trás os seus lindos cabelos. Depois, de repente, no momento em que ela menos espera, enterrar-lhe as unhas compridas no peito mole, de modo a que não morra! Porque, se morresse, não se teria mais tarde o espectáculo das suas misérias!... Seguidamente, bebe-se o sangue lambendo as feridas. E durante esse tempo, que devia durar tanto quanto dura a eternidade, a criança chora! Nada é tão bom como o seu sangue, extraído como acabo de dizer, e ainda quentinho, a não ser as suas lágrimas, amargas como sal. Homem, nunca provaste do teu sangue quando por acaso te cortaste num dedo? É bom, não é? Porque não tem gosto nenhum.

O Herói [Isidore Ducasse - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro - António Rafael]

Direi em poucas palavras como Maldoror foi bom.
Direi em poucas palavras como Maldoror foi bom nos seus primeiros anos.
Direi em poucas palavras como Maldoror foi bom nos seus primeiros anos em que viveu feliz.
Está dito!
Apercebeu-se depois que tinha nascido mau. Fatalidade extraordinária! Escondeu o seu carácter tanto quanto pôde, durante um grande número de anos. Mas por fim, por causa desta concentração que não lhe era natural, todos os dias o sangue lhe subia à cabeça. Até que, não podendo mais suportar tal vida, se atirou resolutamente para a carreira do mal. Doce atmosfera! Quem diria? Quando beijava uma criança de rosadas faces teria gostado de lhe arrancar as bochechas à navalhada, e tê-lo-ia muitas vezes feito se a justiça, com o seu longo cortejo de castigos, o não tivesse sempre impedido. Não era mentiroso, confessava a verdade e dizia-se cruel. Humanos, ouvis? Ele ousa repeti-lo com esta voz que treme! Ele é então um poder mais forte que a vontade... Maldição!

Quero morder-te as mãos

Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
 
O teu sexo pelado
Faz de mim um escravo
Animal desvairado
Ansiando o teu travo...
 
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
 
Quero-te a urina na boca
Dilacerar-te a valer
Até ficares c'a voz rouca
 Quero matar e morrer!
 
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
 
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...
Quero morder-te as mãos!...

Fado Canibal [Adolfo Luxúria Canibal / Mão Morta]

Das ternas horas do passado resta a penumbra
Em espelhos de bruma a memória reflectindo
Sangrentas rosas de um amor cruel.

DESTILO ÓDIO [Adolfo Luxúria Canibal - Zé dos Eclipses / Mão Morta]

Odeio o teu esqueleto ciumento
E os seus ornamentos de suicida

Destilo ódio!

Odeio as tuas tesouras perversas.

Destilo ódio!

Odeio a colecção de animais embalsamados
Que escondes nas gavetas do teu quarto.

Destilo ódio!

Odeio essas peçonhentas mãos de bruxa
E a obscenidade das tuas unhas.

Destilo ódio!

Odeio-te amuleto maligno que me intoxicas os sonhos
Com esse hálito pérfido que até o metal corrompe.

Destilo ódio!

Odeio-te barca sonâmbula.

Destilo ódio!

Odeio-te farol esclerosado
Onde a luz cresce mutilada.

Destilo ódio!

Odeio-te morte mansa
Que forras de veludo as paredes desta alcova.

Destilo ódio!

Odeio-te maldita celerada.

Facas em Sangue [Adolfo Luxúria Canibal / Zé dos Eclipses]

Vivia na temperatura tépida dos lençóis
Aquele que dava pelo estranho nome
De Amor. Às vezes soltava-se
E percorria pela mão
Dos adolescentes ruas desertas, sombras
Escuras e conspiradoras - soltou-se
O Amor - alguém gritava.

E vinha o vermelho e invadia o vermelho
E assanhavam-se os gatos conscientes
Da invasão da sua noite
Solitária. Depois apagava-se
A última luz da última janela e desaparecia
O Amor na tépidez dos lençóis.

Ficava a lua, ficava
O luar azul a reflectir perigosamente
Nas lâminas das facas ensaguentadas
Dos adolescentes...

FREAMUNDE ACAPULCO [Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Vi homens quererem a morte
Por terem morto o seu amor.
Que assombro lhes apressa o passo?
Que álcool provoca tal ardor?
Não há palavras que nos digam
Quão funda pode ser a dor.

Muitas vezes basta um olhar
Ou um silêncio, um gesto apenas...
Logo o sonho se desmorona
Turvando as mentes mais serenas.

Vi homens quererem a morte
Por terem morto o seu amor.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

domingo, 22 de junho de 2014



O mundo de André e. Teodósio é, sobretudo, um mundo que esteve sempre aberto para o desconhecido. Podia empunhar um cartaz a dizer: “All you need is love!” O love é o seu assunto.
O Expresso apontou-o como um dos portugueses mais influentes de 2012. A informação tem tanta importância quanto: “O meu pai comprava livros ilegais na Barateira. Esta sede de informação estava nele desde cedo.” As duas estão ligadas. Para compreender o percurso — e a cabeça singularíssima deste alien barroco —, é preciso fazer arqueologia. Conhecer as fundações onde tudo começou por fervilhar e se descobriu o mundo com espanto.
Encontrámo-nos em casa. Tem uma biblioteca poderosa que organizou por cores. Puro gesto excêntrico. Veste uma camisa de leopardo, um colar oferecido pela mãe. Foi também a mãe que ofereceu a colcha que está sobre a cama, de algodão, estampado dourado. Está no chão da sala um vinil da Concha (lembram-se dela no Festival da Canção a cantar: “Qualquer dia, quem diria”?). À entrada, um Apolo de cartão, elegante, inspirador. Tudo conjugado, parece uma conjugação impossível. Artificiosa e impossível. E depois não é. É original, surpreende, abre para o infinito. Como o seu teatro. Que não procura nada, mas que está sempre a encontrar — e a integrar.
A casa fica a dois passos do Teatro Praga, num bairro popular de Lisboa. Corredor directo entre uma coisa e outra. A vida como ela é na pastelaria da esquina. Pastelaria de “sai um galão bem quente” e balcão de metal. E pérolas ditas pelas pessoas de todos os dias que olham para a vida sem peneiras. Pérolas que ele rapina e encaixa numa espécie de puzzle onde está também a vida dos livros. André e. Teodósio é... como qualificá-lo numa palavra? Talvez artista. Um verdadeiro artista. Músico, cantor, actor, encenador, dramaturgo. E amante (i.e., aquele que ama).
Com quem tem afinidade de sangue?
Estive a estudar a minha árvore genealógica e descobri que sou descendente directo de Adão e Eva. A minha afinidade de sangue é o mundo. Está cá tudo inscrito. Isso ajuda-me a fugir de uma ideia de nação, de família.
Como se a sua pertença fosse a qualquer coisa mais abrangente?
Sim. Sintetizo o caos inicial. Todos sintetizamos o caos inicial, temos em nós as estrelas, o hélio. É muito importante fugir de qualquer naturalização, de qualquer essência. Claro que é uma falsa questão…
Provimos de um sítio que é mais circunscrito do que isso. O que é que importa da sua árvore genealógica mais estreita para compreender a sua cabeça?
Venho de duas famílias díspares da Beira Baixa. Os meus pais conheceram-se num comboio, a vir para Lisboa. A família do meu pai é de latifundiários que trabalhavam com as pessoas do campo. A família da minha mãe é aristocrata, de mistura escocesa e espanhola, e é tudo maluco. Realizadores, escritores. Há histórias de a minha bisavó desenhar ovnis.
Aberta ao infinito.
Sim. Sou descendente de Adão e Eva mas virado para o infinito — para não fazer sentido nenhum. Sou muito ligado à terra, sendo que a terra não faz sentido nenhum. É só uma parte de uma totalidade caótica.
Procura o sentido no que lê, no que faz?
É o contrário. Estou aqui e sei que nada faz muito sentido. Estou aqui e não quero que isto tenha um sentido. A ter, que tenha muitos sentidos. Até não fazer sentido. É como se em vez de ser só uma coisa, fosse capaz de estar sempre a mudar de ficção. É uma fusão estranha... Sou um barroco alien [risos].

A sua mãe falava consigo em português?
Sim, ela é portuguesa. Quando era nova, assinava nos livros Lúcia Scott. (O apelido é Escoto. Foram traduzindo o Scott para português.) Nunca pertenceu a Penamacor. Era uma cidadã do mundo.
O seu percurso é marcado por viagens constantes e por um período que passou fora. Sente-se estrangeiro em relação a quê?
Não me sinto estrangeiro em relação à língua. Apesar de não a dominar e não a ter aprendido bem. Estive até ao 6.º ano em Portugal. Depois, fui para os Estados Unidos e aprendi Inglês. Não sei como é que as palavras são feitas, qual é a sua etimologia, como é que estão relacionadas. Nunca me senti de um só lugar. Os meus pais sempre me incentivaram a pensar o fora.
A sua geografia, em Lisboa, era qual?
Nasci na Lapa, depois estive em Paço de Arcos, depois Olivais. Frequentei uma escola católica. Os meus pais não são católicos. Acho que me puseram lá para não gostar da escola católica [risos].
O que é que foram fazer para os Estados Unidos?
O meu pai era militar e concorreu a um cargo na NATO. Tornou-se administrador da base de dados da NATO. Nos anos [19]80 tinham uma vida muito boa.
Quando é que teve a noção de que era artista e de que a sua vida ia ser esta?
Sempre tive um fascínio por artes. Desde novo queria ser músico. Lia muito porque o meu pai queria ser escritor. Desenhava caras de pessoas, olhos. E tinha jeito para as composições e para os teatrinhos da escola. Tive uma bolsa nos Estados Unidos, estudei flauta transversal, tuba, toquei trombone. Em Portugal, deu-me uma traquitana qualquer e pensei: “Vou para Direito.” Não correu bem. Fui para Música e tornei-me músico profissional. Tocava em orquestras. Depois integrei o coro Gulbenkian e fui estudar canto.
Percebe a traquitana do Direito?
Estava meio perdido. O Direito parecia-me assim regrado, como a vida militar do meu pai. E dava-me a ilusão de poder fazer justiça. Uma coisa muito importante, fazer justiça. Depois conheci um rapaz. Convidaram-me para fazer um espectáculo no Teatro Nacional e conheci o Pedro Penim. Apaixonámo-nos e pensei: “Isto agora não vai correr bem. Ele não pode ir estudar Música, ele faz teatro. Não quero estar com ele só à noite como as famílias normais. Quero estar com ele a vida toda. Vou estudar Teatro.” Os meus pais: “Teatro? É Direito, é Música, tens de ter tino e decidir.” Fui para Teatro. Tinha 21 ou 22 anos.
O amor a decidir a vida toda.
Faço por isso. Para mim, a vida é o amor. É o que interessa. Tudo o resto são placebos para evitar entrar numa depressão. (Sou muito dado à tristeza.) Tudo o resto são placebos para ir continuando.
Ensaio para Sonho de uma Noite de Verão (CCB, 2010) Nuno Ferreira Santos

O Pedro era da formação do Teatro Praga?
Era. Era uma companhia ainda conservadora, de alguma forma. Quando entrei, consegui trazer uma certa dose de desprendimento em relação ao teatro. Nunca gostei muito de teatro, na verdade.
Como assim?
Tinha lido sempre imenso, ficção, ficção. Não conseguia ver pessoas a fingir que eram coisas em palco. Não percebia aquele tipo de representação mimética, caricatural. Diziam o texto de uma forma que não me interessava. Adormecia.
Mas o enredo, a força vital da palavra, que tanto existe nos livros como no teatro, isso interessava-o.
Sim. Mas não a representação daquilo que podia ler em livros. Preferia ler, sublinhar.
Sublinhar é uma maneira de se projectar naquilo, de se identificar mais intimamente com o que lê?
Sim. De tornar aquilo meu. Os livros que leio têm de ser meus, já não são do autor.
O encontro com o Pedro fê-lo encontrar um fio condutor? Foi um princípio organizador da sua diversidade?
O que ele me ofereceu foi o sítio que eu recusava e que ele defendia como sendo o sítio onde todo o caos podia conviver. E que não existia na música. A música tinha uma herança histórica. Não era tão permeável como o teatro.
Quando entro na Praga, digo isto: “Temos de pensar o texto de uma forma musical, fora da musicalidade que está associada a um dizer teatral.” Os cenários não deviam ser tão teatrais. Deviam ser como a casa dos meus avós ou ter a lógica de decoração da minha mãe, que mudava de três em três segundos (agora a casa é gótica, agora é nova-rica). São assumidamente ficções [no caso da minha mãe], tão ficcionais como no teatro. O teatro permitiu trazer um bocado de real perante a lógica do texto.
Parecendo a fantasia, o desvario, trata-se, no fundo, de trazer o real.
Exacto. E ali conseguia ter tudo. Tocar, fazer artes plásticas, escrever. E, para além disto, tudo o que não tinha pensado ainda, podia trazer também, quer fosse filosofia, culinária, roupa, televisão.
Esse é o lado da genealogia Adão e Eva? Tudo pertence a tudo, tudo vai dar a todo o lado.
É isso.
O que sabotou a sua vida linear? Que grãos de areia se intrometeram na engrenagem? Na verdade, ela nunca foi linear.
Não, nada. Tive muita sorte. A info-exclusão: é importante saber que há pessoas que não tiveram esta oportunidade. É isso que me faz ser defensor do Estado social e defensor de uma certa ideia de esquerda. Mais próxima agora do Livre.

É simpatizante?
Completamente. Tive essa sorte, nos anos [19]80, de poder viajar, ter os livros que queria. O dinheiro possibilitava, como hoje, ter acesso à informação. Não quer dizer que produza conhecimento, mas experimentar é atravessar o fogo.
“O Homem nada sabe até queimar os pés no fogo ardente”, diz Antígona.
É. Todas as pessoas deviam ter acesso a uma vida não linear. Ou, mesmo que essa linearidade exista, que alguém lhes diga que é só uma parte de uma totalidade.
O que acaba de dizer traduz uma ausência de medo. Aquilo que faz as pessoas escolher, ou serem escolhidas, por uma vida linear, tem que ver com uma ideia de controlo sobre os acontecimentos da sua vida.
Escrevi uma vez num texto: “Quando as nossas mães nos dão à luz, nascemos nós e o nosso medo.” Tem-se sempre medo. Mas ou o medo toma conta de nós ou tentamos domar o medo. Nunca se sabe se se vai flipar, se se vai ficar doido. [O desafio] é não ficar perplexo perante aquela sombra gigante, delinear os contornos daquela sombra, perceber que é só um padrão.
Porque é que não reproduziu o caminho dos seus pais? Casar, ter filhos, uma vida razoavelmente arrumada.
Os meus pais, apesar de terem tido uma profissão, nunca tiveram uma vida muito linear, afectivamente. Tiveram as suas coisas, com certeza [risos]. Não tiveram uma vida como a dos filmes. Havia ali qualquer coisa a quebrar a jarra de cristal perfeita. E isso ajudou-me muito.
Perguntou-se: o que é que faço com estes cacos?
Exacto. É arte. Antes era uma jarra, agora são cacos, é uma escultura. Seria impossível para mim ter uma vida muito linear. Se bem que afectivamente seja hiperlinear. Não namorei muito, quero é namorar para o resto da vida.
Romântico.
O amor interessa-me como ideologia. É o rubi que quero talhar. Consigo falar sobre milhares de coisas, de filosofia, biologia, teatro, estética. Sobre o amor não consigo falar, e tenho uma obsessão com o amor. Não sei muito bem porquê… é porque me faz feliz.
Ou então porque o amor é o detonador, é o motor.
Sim, o amor é o detonador. Tem coisas que nem sei o que são porque não tenho palavras para elas. Não é dependente do meu conhecimento do mundo — está lá. É muito bonito, reduz outra vez a importância do eu.
Madame Sade (Teatro Taborda, 2000) Rui Gaudêncio

Ao mesmo tempo, tudo aquilo que se faz é afirmação do eu, da singularidade. O que faz profissionalmente anda muito à volta das questões da identidade.
É verdade. Mas isso é um erro táctico meu [risos], ainda estou preso a uma lógica primitiva. Quero estar no futuro. Há aquela coisa dos gender bender, das pessoas sem género. Eu digo que o próximo passo é a identity bender. A identidade é que está a mudar. Agora posso ser uma cadeira, amanhã sou uma flor. E depois sou um ser humano e depois um cão. Amanhã ou numa questão de segundos.
A palavra “metamorfose”, o que é que lhe ocorre dizer sobre ela?
Ocorre-me essa escolha deliberada de ficções. De irmos mudando as nossas ficções. Gosto da palavra “metamorfose”. Tenho medo de que isto também seja representativo de um tipo de histeria que possa ter em mim. Não é muito agradável. Não queria achar que estou à procura de ter alguma coisa e que vou mudando até a encontrar.
Explique melhor.
Não é que queira saber o que sou como ser humano, mas tenho medo de que esta ideia de mudança de identidade, de metamorfose constante daquilo que sou, represente, não aquilo que sou, mas uma histeria em busca de poder ser alguma coisa. E como não quero definir-me, como não quero ser como o Heidegger e estar à procura de uma essência, não quero achar que há uma essência ou um início.
Não tem um fascínio pelo momento inaugural, pelo instante da deflagração?
O momento inaugural não é uma coisa, é uma relação de coisas. Por isso é que me interessa mais a relação do que um particular.
Interessa-lhe a constelação.
Exacto. Não quero achar que estou na constelação à procura de uma estrela. Quero manter-me só no plano da experiência, de queimar os pés com o fogo.
Não lhe interessa o que se extrai disso? O que se extrai da rasura, da cicatriz.
Interessa-me como processo de experiência, mas não quero deixar muita informação, muitas marcas. Ela pode perpetuar-se, pode tornar-se essencial, tradição, e não quero que isso aconteça. Isso é o que leva as pessoas, ou que já me levou a mim em determinadas alturas, a não conseguir relacionar-se com o medo. Como se existisse uma origem para aquela sombra que ali está presente. Não me quero preocupar com grandes respostas. Tenho dificuldade com escolas, academias. Muitas vezes estão alicerçadas nesse saber verdadeiro. E ele não é verdadeiro, está é em relação com o outro.
Há pouco fotografámos na sua biblioteca. Os livros estão alinhados por cores! Lembrei-me da biblioteca do David Mourão Ferreira, que estava organizada numa sequência cronológica e não por estilos ou ordem alfabética.
É, as coisas estão em relação umas com as outras, no mesmo momento. O tempo não interessa, mas estão todas sequenciais. Não há uma que seja a origem.
Está a apanhar uma grande seca? Às vezes não digo nada com sentido. Vivo numa bolha qualquer. Os meus amigos dizem sempre que não saio de casa, não falo com ninguém. Estou sempre fechado. Na Internet, a ler livros, a ver filmes. Viver numa bolha protege-me muito. É muito difícil entregar-me ou conhecer uma pessoa. Ninguém sabe nada da minha vida.
Agora vai ficar-se com um vislumbre.
Sim. Mas ninguém sabe como falo com os meus amigos, como é que estou com eles, a intimidade.
Essa palavra- rubi, essa palavra-jóia, intimidade...
É muito cara, a intimidade. É o sítio onde se une tudo, é na intimidade.
Se fosse uma flor, seria qual, a intimidade? Ou uma pedra preciosa.
Âmbar. A intimidade é âmbar. Fecha-se, cristaliza-se, mas consegue-se ver tudo lá dentro.

Eu chamaria a isso “essência”, mas não gosta da palavra “essência”. Recusa-a.
Tenho um problema histórico com a palavra “essência”. Já representou tanta coisa negativa. Sempre que a oiço, é como se houvesse uma origem. Começo a ficar tolhido. Começo a disparar: “Não há razão, não há essência. Podes ser o que quiseres! Não és, estás a ser.”
Não há ser, estamos a ser?
É. E vamos estando a ser. Estamos a ser em relação, simétrica ou assimetricamente com as coisas no mundo.
Voltando à genealogia de que comecei por falar: tem afinidade de sangue, está em relação com Zizek, Bela Lugosi, Antígona, Cleópatra, Susana Pomba, Concha, Tony de Matos. Shakespeare, claro. Fellini, muitíssimo. Tudo faz parte do mesmo?
Sim, somos todos primos [risos].
Há primos em primeiro grau, em segundo grau. Estas são filiações mais íntimas? O seu mundo é essa coisa sincrética onde entra tudo?
Não posso dizer que não. Sou feito deles. Os meus pais, os meus amigos, o Godard, o Zizek, o Fellini, nem sequer consigo pensar o que é que poderia ser se não existissem. Não tinha sobrevivido. Tinham-me posto em bebé na relva e eu morria. De certeza que estava lá o Fellini a dizer: “Agora tens de caminhar até ao supermercado” [risos].
O que é que deve ao Fellini? Há uma peça encenada pelo Teatro Praga que tem um excerto do filme Cidade das Mulheres.
Nossa? Já não me lembro. Não tenho boa memória, esqueço-me de tudo. Passa a ser tudo meu, está cá mas não sei o que fiz, de onde é que vem. Reciclo-me muito nos textos, têm sempre frases repetidas. O que eles têm todos em comum é esta desnaturalização.
Passam a ter outra natureza. Muda a perspectiva.
E não muda a perspectiva através da alienação, é através da inclusão. Todos fazem uma espécie de exaustão daquilo que já existe e que se consegue reconhecer. Mas nada daquilo bate certo, está sempre tudo disforme.
Fellini tem um lado grotesco e disforme muito acentuado.
O que tenho com ele é esse lado disforme, a capacidade de encontrar na coisa mais prosaica um outro ponto de vista. As pinturas de Picasso foram importantíssimas para mim. De repente, há um quadro que em vez de ser o ponto de vista do pintor é o da criança que está a ser amamentada.
Ainda que pareça, não é fácil mudar o ponto de vista. Exige distância crítica, pormo-nos em causa.
Será que conseguimos? Às vezes, não se produz pensamento nenhum, não se chega a lado nenhum. Sou bélico, gosto de ganhar conversas, mas não tenho problema em admitir que estou errado, que estou a pensar ancorado num conhecimento hegemónico, que não permite diferença. Uma vez entrevistaram o Godard e perguntaram: “Porque é que faz uns filmes tão diferentes dos outros?” O Godard responde: “Não faço filmes diferentes. Os outros é que fazem os filmes todos iguais.”
Top Models: Paula Sá Nogueira (Culturgest, 2011 — um espectáculo de Teodósio para a companhia Cão Solteiro) Joana Dilão

Interessa-lhe, claro, mais que tudo fazer a pergunta.
Sempre. Ou ver que a pergunta estava errada. O que é teatro? É uma pergunta errada porque significa que o teatro é alguma coisa. E o teatro não é nada, é aquilo que quisermos que seja. É como a primeira frase do Tractatus do Wittgenstein: o mundo é tudo o que quisermos que ele seja. Eu quero é o infinito! Quero é que não haja respostas e que toda a gente seja muito feliz e que estejamos todos a viver e a fazer amor. [risos]
Fazer amor ou fazer o amor?
As duas coisas, obviamente [risos]. Gosto muito de fazer amor.
A conversa estava quase abstracta, e ficou concreta, com o fazer amor. Porque é que está a dizer isso?
Porque é verdade.
É o tipo de frase que as pessoas não dizem habitualmente. Não dizem por pudor, por convenção social.
Não deve haver pudor em relação a nada.
Gosto de pensar espectáculos, mas não gosto de fazer espectáculos. Gosto de ter ideias, mas não gosto de as fazer. Não quero entrar em espectáculos, não quero escrever textos, não quero fazer nada.
O seu trabalho é pensar e a sua diferença assenta nisso?
Em relação ao amor, não gosto só de o pensar [risos].
As peças são um lugar de pensamento?
Claro.
Lugares de compreensão do mundo?
Sim, de disponibilização de ferramentas para a compreensão do mundo. A arte é um legado do pensamento, não é da materialização. Não precisávamos da materialização, toda a gente sabe.
Sabe que são três pessoas que sabem? Tem noção disso?
[risos e comoção] Não quero aceitar isso. Quero aceitar que toda a gente pode pensar isto. Gostava mesmo de estar com as pessoas todas. A maneira como a cultura se foi desenvolvendo no Ocidente é que castra muito.
Por falar em castração. Quando é que deixou de ser criança?
Nunca fui muito criança. Era puto e fazia campanhas políticas. “É coisa de adulto, tomar conta do mundo.” Nunca me dava com os filhos. Queria era plasmar o mundo dos adultos. Tipo Kidzania avant la lettre.
Queria crescer depressa?
Sim. E agora sofro de uma coisa: quero desaparecer muito depressa. Já cresci e estou em “rame-rame”.

Está numa fase deprimida?
Não, estou bem. Ao crescer, sempre quis mudar o mundo. E quero disponibilizar coisas para que o mundo mude. A realidade desmente isso a toda a hora. Vemos a Rússia a invadir a Ucrânia, passos históricos atrás. O que perdi foi uma ingenuidade vital que tinha. Não a perdi há muito tempo.
Estive a ler excertos de peças suas. Gostava de devolver-lhe algumas ideias que sublinhei. Uma está na Cenofobia: “Ah, cair em mim, ah, finalmente ser eu.”
Esse foi o primeiro texto que escrevi para ser editado. Cenofobia, a palavra é estranha. Ao mesmo tempo que quer dizer medo de estar em espaços muito abertos, pode descrever o medo de estar em cena.
Fale-me deste cair em si.
Decidi fazer um texto em que me concentrava em mim, como entidade, como sujeito. Sendo que esse sujeito, durante todo o texto, está a tentar fugir dele, a matá-lo. É a ideia de que cá dentro não há nada, mas que consigo articular estas coisas todas e afirmar: “Se calhar, isto sou eu.” Estou a ser qualquer coisa. A única coisa que posso fazer é cair em mim. Deixar de ter medo de estar em espaços abertos e deixar de ter medo de estar em cena. Um amigo meu diz que vivemos em solidões partilhadas. É um bom caminho. Esta é a minha solidão, eu partilho-a consigo, você partilha a sua solidão, e é nesta relação que vão surgindo coisas.
Na peça Terceira Idade, diz assim: “Avança-se na trama e eu fico tramado.” É o que sente?
Sim. Vamos ficando tramados porque [a vida] é cada vez mais complexa. É como escrever um texto. Vai-se tentando sintetizar e simplificar para que não polua, para retribuir aquilo que se consumiu. Quanto mais se avança, quanto mais se vai pensando e conhecendo, mais tramado se fica: fica-se enredado.
Em 2012, foi considerado pelo Expresso uma das 100 personalidades mais influentes do país.
Em 2013, caí [risos].
Tropa-Fandanga (D. Maria II, 2014) Nuno Ferreira Santos

Em 2014, apresentou no Teatro Nacional, essa instituição, uma peça de grande sucesso, a Tropa-Fandanga. A expectativa em relação a si e ao seu trabalho é um peso?
A Praga começou com um grupo circunscrito de pessoas que achavam a companhia curiosa. Hoje há uns milhares que a conhecem e que precisam dos nossos espectáculos como matéria de pensamento. Nunca deixei de arriscar como arrisco. É diferente falar da Tropa Fandanga, feita por várias pessoas, e falar de espectáculos só meus. Quando são espectáculos só meus, é claríssimo que são quase sempre mal recebidos.
Porquê?
Sou muito ditador quando sou eu a fazer. Nunca deixei de querer experimentar. As obras que faço são mal recebidas pela crítica, apesar de serem bem recebidas pelo público. Isso interessa-me muito. Quer dizer que nunca estamos de acordo com uma ideia de ver teatro, ópera, dança.
Quer dizer que fogem ao cânone.
Sim. Que estamos sempre meio fora e que as pessoas estão a receber isso.
Foi uma surpresa ver-se entre os mais poderosos?
Penso que resultou de, com a minha idade, ter feito coisas que ninguém tinha feito. Em Portugal, fiz espectáculos para a Companhia Nacional de Bailado, o São Carlos, o Teatro Nacional Dona Maria, o São Luiz, o CCB. Tinha 33 anos, é meio inédito.
A sua carreira internacional é pujante. Fazemos esta entrevista depois de regressar da Alemanha e Suécia, dentro de dias parte para a Bélgica e depois Finlândia.
E vamos para o Théâtre de la Ville [Paris]. A trama vai-se adensando. As instituições estavam cristalizadas e apanhei uma época em que estava tudo em mudança, com novas pessoas, novas maneiras de pensar. Tenho facilidade porque fui músico, escrevo, consigo estar em vários sítios ao mesmo tempo. Como a ideia de teatro que temos não é dependente de uma técnica, a teatral, mas sim de pensar, isto [que fazemos] é aplicável a tudo, às artes plásticas, à dança, à ópera. Consigo pensar sobre todos estes suportes artísticos porque não tenho suporte.
A não ser a sua cabeça.
Sim. Que é a cabeça do Fellini, do Bela Lugosi, do Godard, do Zizek, do realismo especulativo.
“O que se quer é o desconhecido, andar para lá do horizonte a caminho do caos.” A frase consta de outra peça, escrita por José Maria Vieira Mendes. Olhemos para o fio do horizonte. O que é que há para lá?
É o abismo. Conhece a pintura do Caspar David Friedrich? Sou como esse senhor. Gosto de estar ali, nem muito atrás, para não deixar de ver, nem muito à frente, para não cair. Mas tenho medo do abismo. O que é paradoxal. Tenho medo, ainda, de deixar de me entender com os outros, de estar cada um por si.
É uma imagem tremenda de abismo: deixar de se entender com os outros, deixar de se entender com o mundo, ficar cada um por si. Como se as estrelas ficassem sozinhas e se acabasse a constelação.
Uma coisa são as coisas circunscritas aos sujeitos, à sua praxis. Tem de haver um arco fundamental que as una e que as emoldure num determinado tipo de agir ou de estar. Os direitos universais. Se está cada um por si, a experimentar o seu mundo, entramos num jogo alienado.
Desafiaram o crítico Augusto M. Seabra a linchar o Teatro Praga para a revista que a companhia edita. Então, como é que o lincho? (Parêntesis: vocês dizem “a Praga” como se se referissem a uma peste. Uma peste boa.)
Linchar é pôr em causa. É porem-me um espelho à frente e ter de lidar com isso. Adoro o espírito crítico. Adoro pessoas que estão constantemente a pôr espelhos umas às outras, que se criticam e põem em causa. Que não vão dar festinhas às outras nem vão confirmar que elas têm razão.
Quer dizer mais alguma coisa sobre o amor?
Roma ao contrário é amor. Não sei muito bem o que é que o amor é, mas sei que quando ele não existe é horrível. Não quero nem Roma nem o horrível, quero o amor, que está ali no meio. É a palavra que sobrevive a este jogo de pensamento.
Há outra ainda entre Roma e Amor: romã.
Isso é muito judaico, é um fruto sagrado. É um fruto maravilhoso.
É também uma imagem da multiplicidade de mundos de que estivemos a falar. Tantas partículas dentro da unidade da romã...
Vou deixar de dizer que vivo numa bolha e passar a dizer que vivo numa romã [risos].

Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle Lyrics - Nirvana

It's so relieving
To know that you're leaving as soon as you get paid
It's so relaxing
To hear that you're asking whenever you get your way
It's so soothing
To know that you'll sue me, this is starting to sound the same

I miss the comfort in being sad(x2)
I miss the comfort in being saddd-aaaddd-aaaddd-aaaddd yeah....

In her false witness, we hope you're still with us,
To see if they float or drown
My favorite patient, a display of patience,
Disease-covered Puget Sound
She'll come back as fire, And burn all the liars,
leave a blanket of ash on the ground

I miss the comfort in being sad(x2)
I miss the comfort in being saddd-aaaddd-aaaddd-aaaddd yeah....

It's so relieving
To know that you're leaving as soon as you get paid
It's so relaxing
To know that you're asking wherever you get your way
It's so soothing
To know that you'll sue me, this is starting to sound the same

I miss the comfort in being sad(x2)
I miss the comfort in being saddd-aaaddd-aaaddd-aaaddd yeah....

sábado, 21 de junho de 2014


(...)

«I've had enough of watching scenes
Of schizophrenic egocentric paranoic prima donnas
All I want is the truth now
Just gimme some truth»



John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 74

JEALOUS GUY

I was dreaming of the past
And my heart was beating fast
I began to lose control
I beagan to lose control

I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't want to hurt you
I'm just a jealous guy

I was feeling insecure
You might not love me any more
I was shivering inside
I was shivering inside

I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't want to hurt you
I'm just a jealous guy

I was trying to catch your eyes
Thought that you were trying to hide
I was swallowing my pain
I was swallowing my pain


I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't want to hurt you
I'm just a jealous guy
Watch out
I'm just a jealous guy
Look at babe
I'm just a jealous guy


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 68

“Most Of Them, I’m Not Writing About Me”


GOD

«God is a concept
By Which we measure our pain
I'll say it again
God is a concept
By which we measure our pain, yeah, yeah


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 59

Love is Knowing we can be

Love is needing to be loved


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 27

UMA EVIDÊNCIA SEM REVERSO (sobre Body Heat de Lawrence Kasdan)

 
«Porque o filme arranca com uma linha temática extremamente sublinhada: a linha do fogo. É o incêndio da sequência inicial, é o calor que domina a cidade, são as camisas suadas, é a respiração sufocada, é o pedido de Ned («fale-me de tudo, menos do calor»), é o isqueiro que brinca nas mãos dela, é este cigarro silenciosamente apagado, é a mancha crepitante da imagem, e tudo isto funciona como uma imensa metáfora sexual: tudo isto é, no fundo, um calor que vem do corpo.»
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 187

William Mortensen. Death of Hypatia


o devir-mulher da alma

«O cinema, acrescentaremos, é, para Manoel de Oliveira, uma tentativa de se identificar com o devir-mulher da alma
 
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 183

O orgulho

«O orgulho é desprovido de alma; e, no entanto, em tudo a imita. As mulheres possuem esse orgulho angélico e bestial.»
«Que a alma seja um vício quer dizer tudo e não quer dizer nada.»

João Bénard da Costa
« a Loucura e qualquer coisa de que não sei bem o nome. Começarei por chamar-lhe: o sofrimento do amor.»

Barthes

parálise

«Chamar-se-á parálise ao modo de abordar o que vem pela escrita.»

Jacques Derrida, «Pas (préambule)», Gramma, 3/4

«desleitura» - Eduardo Lourenço

Dancer Ben Magid Rabinovitch-Tamaris in 'Dirge' , 1931


AMOR. DESPREZO.

Assim compreendo
o meu perfeito
acabamento.


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 64
«À beira dos teus olhos,
por acaso detenho-me,
que acontecimentos serão produzidos
em mim e em ti?

Não há resposta.
Sabem-se os nascimentos
quando já foram sofridos.

Tão pouco somos, -  e tanto causamos,
com tão longos ecos! »

...


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 62
«(...)

Porque não há mais ninguém,
não, não haverá mais ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.»



Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 57
«Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.»


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 54

LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.



Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 52

«O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.»


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 50

André da Loba (Portugal)


há mãos de amor para a tua ausência.

No estrondo das guerras, que valem meus pulsos?

CANÇÃO DE ALTA NOITE

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente-
Não necessita de nada.


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 37

TIMIDEZ

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

-mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

-uma palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos nocturnos,

-que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

-e um dia me acabarei.


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 32

TEOLOGAL


Agora é definitivo:
uma rosa é mais que uma rosa.
Não há como deserdá-la
de seu destino arquetípico.
Poetas que vão nascer
passarão noites em claro
rendidos à forma prima:
a rosa é mística.



Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p. 124

MEDITAÇÃO À BEIRA DE UM POEMA

Conheci a cólera de Deus,

«Os escritores são insuportáveis
                          menos os sagrados,»


Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.97

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A culpa. Repensar a culpa.


ARTEFATO NIPÔNICO

A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.



Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.96

A FORMALÍSTICA

 
O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
                    que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
     o efeito respeitoso que produz
                           seu trato com dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco começam a fosforescer coisas no mato
A serva de Deus sai de sua cela à noite
                            e caminha na estrada,
passeia porque Deus quis passear
                                            e ela caminha.
O jovem poeta,
                                  fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
                                   ''Deus é impecável''.
As rãs pulam sobressaltadas
                                     e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas
 
 
 
 
 
Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.94

«Eu vi morrer um homem e caminho»

 
«Sublinhemos eu vi. Existir, para Ruy Belo, é ser olhado, é ser coberto pela força de um olhar, mas é também resistir ao olhar dos outros, conseguir que o olhar dos outros não destrua o nosso olhar. Só no lugar da Mãe, ou de Deus, o olhar assimétrico. «Somos seres olhados » (p.41), «Não mais o teu olhar te defende / Tu és um ser exposto a todos os olhares » (p.43) - e esta é talvez, para Ruy Belo, a definição da morte.»
 
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 159

«Eu não dispenso a morte eu quero morrer muito »

««nunca até hoje eu morrera tanto em alguém»

«ele vai só não tem ninguém / onde morrer um pouco toda a morte que o espera»


«No teu amor por mim há uma rua que começa»

   «Depois, os ombros. Há toda uma relação com a amada e o amigo que passa por esta valorização dos ombros como lugar de apoio para duas pessoas que caminham lado a lado: «Há no meu ombro lugar/para o teu cansaço » (p.29), «tu és uma presença redonda no meu ombro de morte» (p.45), «uma mulher, alguém capaz de partilhar / o peso que nos ombros de cada dia puser » (p.101). E o homem isolado na cidade é aquele que não tem «um ombro para o seu ombro » (p.19).
 
sobre o poeta Ruy Belo
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 156

ESTIRPE

Os mendigos maiores não dizem mais, nem fazem nada.
Sabem que é inútil e exaustivo. Deixem-se estar. Deixem-se
                                                                                             estar.
Deixem-se estar ao sol e à chuva, com o mesmo ar de
                                                                           completa coragem,
longe do corpo que fica em qualquer lugar.



Entretêm-se a estender a vida pelo pensamento.
Se alguém falar, sua voz foge como um pássaro que cai.
E é de tal modo imprevista, desnecessária e surpreendente
que, para a ouvirem bem, talvez gemessem algum ai.


Oh! não gemiam, não...Os mendigos maiores são todos
                                                                                       estóicos.
Puseram sua miséria junto aos jardins do mundo feliz
mas não querem que, do outro lado, tenham notícia da
                                                                                      estranha sorte
que anda por eles como um rio num país.


Os mendigos maiores vivem fora da vida: fizeram-se excluídos.
Abriram sonos e silêncios e espaços nus, em redor de si.
Têm seu reino vazio, de altas estrelas que não cobiçam.
Seu olhar não olha mais, e sua boca não chama nem ri.

E seu corpo não sofre nem goza. E sua mão não toma nem
                                                                                          pede.
E seu coração é uma coisa que, se existiu, já esqueceu.
Ah! os mendigos maiores são um povo que se vai conver-
                                                                                        tendo em pedra.

Esse povo é que é o meu.



Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 31

terça-feira, 17 de junho de 2014

''lábios brancos de medo''

«Quando penso no teu rosto
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.»



Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 27

« -por dentro das tuas máscaras,
meus olhos, sérios e lúcidos,
viram a beleza amarga.»



Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 20
«Surgi do meio dos túmulos,
para aprender o meu nome.»


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 18
«O choro foge sem vestígios,
mas levando náufragos dentro.»


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 18


«(...)

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Sé se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 16

«(...)

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.»


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 15

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão parada e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
-Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles. Antologia Poética. Colecção Poesia e Verdade. Guimarães Editores. Lisboa, 1968, p. 13

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A LUME

''Entre os ruídos apaixonantes, deves acrescentar a voz de um ser que se deseja, atrás da sebe,atrás da cortina da liteira, atrás da porta ou da tapeçaria de brocado.
 Quando escuto o ruído apaixonante do copo de dados, fico toda ruborizada,o meu coração torna-se uma espécie de odre de vinho que o cabreiro tira da ribeira e leva avidamente à boca."

  Pascal Quignard
As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia

sábado, 14 de junho de 2014


A CÓLERA DIVINA

Quando fui ferida,
por Deus, pelo diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei -
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos.
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
 - ele, um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar:
por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
uma tênue sombra ainda sobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.



Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.71
''neste quarto meu pai morreu,
aqui deu a corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte''

Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p. 66

Comecei a chorar de prazer e vergonha.

buracos negros no peito



ISOLATION

People say we've got it made
Don't they Know we're so afraid
Isolation

We've afraid to be alone
Everybody got to have a home
Isolation

Just a boy and a little girl
Trying to change the whole wide world
Isolation

The world is just a little town
Everybody trying to put us down
Isolation

I don't expect you to understand
After you've caused so much pain
But then again you're not to blame
You're just a human
A victim of the insane

We're afraid of everyone
Afraid of the sun
Isolation

The sun will never disappear
But the world may not have many years
Isolation


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 48
As soon as you're born they make you feel smanll
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all



John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p. 47
«I've seen thru junkies I've been thru it all
I've seen religion from Jesus to Paul
Don't let them fool you with dope and cocaine
No one can hang you feel your own pain»

John Lennon

Bagism, Shagism, Madism, Tagism

sexta-feira, 13 de junho de 2014


E devagar tornei-me transparente

Poesia das palavras envergonhadas
Poesia dos problemas de consciência das palavras

Poesia das palavras arrependidas


Sophia de Mello Breyner Andresen

E eu fecho os olhos para não te ver

Eu sei que trago em mim a minha morte.
Mas perdi o meu ser em tantos seres,
Tantas vezes morri a minha vida,
Tantas vezes beijei os meus fantasmas,
Tantas vezes não soube dos meus actos
Que a morte será simples como ir
Do interior da casa para a rua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

É Janeiro muito tempo na noite

(história desse homem antigo)

Um homem muito antigo, caminhando,
ocupando demoradamente a rua.
É de noite. Uma plúmbea noite de Janeiro,
ou o Janeiro denso e severo prostrado numa só noite.
Caminha de forma velha, o homem.
É muito antigo o seu caminhar.
É um homem louco, uma loucura muito atenta.
Caminha durante uma hora inteira
em redor desta mesa. Procura.
Traz ao pescoço as chaves. Todas as chaves.
Uma hora, desta noite dura de Janeiro,
caminhando à volta desta mesa
com as pesadas chaves vergando-lhe as costas.
É muito antigo o caminhar do homem louco e atento, procurando.
É Janeiro nesta aguda noite e ele caminha louco,
muito atento,
com os ferros minguando-lhe a face de muitas estações.
É demasiado tempo para se ter dentro.
Os olhos atentos do homem, procurando no chão
em redor desta mesa.
Encontra. A sua louca atenção
encontra uma fenda no chão, perto desta mesa,
nesta noite muito antiga de Janeiro.
Retira da sua loucura muito atenta
uma chave muito grande
e lança-se longamente ao chão da rua
demoradamente ocupada.
Introduz a chave velha e grande na fenda encontrada,
roda algumas vezes:
primeiro para a direita e depois
para a esquerda da sua atenta loucura, muito antiga.
Chove um pouco
sobre o peito aberto da noite velha de Janeiro…
e o homem muito antigo está deitado
sobre a chave muito grande
cravada na fenda da sua loucura. hoca-a durante semanas. Talvez mesmo anos.
Mas é sempre aquela noite. É sempre Janeiro naquela rua.
Dorme muito tempo, muito antigo, o homem na sua loucura.
Dir-se-ia que descansa ou que aos poucos deixa de ser louco: que morre…
Mas apenas sonha.
Tem em si muito tempo, muito ferro na face.
A atenção da sua loucura vira-se para dentro.
É de noite e ele chegara muito antigo,
caminhando, demoradamente, pelo Janeiro desta rua.
Uma hora inteira em redor desta mesa
muito atento, procurando.
Agora está deitado, há muito tempo,
com a loucura por dentro, sonhando, germinando.
Janeiro é um mês que nunca acaba nesta noite.
Olho para o homem muito antigo
e não sei se voltará à noite dura de Janeiro.
Não sei se o fragor de cavalos batendo, loucos,
com as ferraduras nos olhos
é som de coisa que quer entrar ou sair.
Não sei.
Chove cada vez mais sobre as coisas da rua e nada parece acabar.
O tumulto do metal batendo nos olhos…
o som entrando e saindo,
germinando a loucura por dentro.
Penso em levantar-me.
O homem - muito antigo, atento,
demoradamente deitado sobre a chave muito grande,
cravada na fenda do chão molhado da noite louca de Janeiro - está frio.
É cada vez mais noite. Cada vez mais Janeiro. É demasiado, o tempo.
Os cavalos batem, soterrados, a loucura que sabem nos olhos.
Os cavalos aterrados batendo, loucos, o Janeiro eterno da noite.
Um homem muito antigo, deitado
chocando na loucura atenta os sonhos por dentro. Incubando.
Levanto-me.
Caminho demoradamente. Caminho o Janeiro desta rua:
a sua noite interminável.
O peso verga-me as costas. As chaves são muito pesadas ao pescoço.
É muito longa, a louca noite de Janeiro.
Procuro, muito atento, o som dos cavalos loucos,
batendo nos olhos os ferros muito antigos. hove cada vez mais. Caminho.
Já não vejo o homem muito antigo
sonhando, por dentro, a sua loucura.
A rua é muito longa quando se anda à roda.
É sempre Janeiro naquela noite louca.
Procuro pelo chão os cavalos batendo nos olhos
a sua loucura demoradamente nova.
As chaves são muito grandes.
É de noite na rua interminável de Janeiro.
Caminho muito atento, com a loucura procurando,
germinando por dentro…
…muito antigo, demoradamente.

 (Tavira, Janeiro)

Nuno Mangas-Viegas

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Le pouvoir des mots

Catherine Clément

''Era a carne da árvores (...)''


« o medo foi a minha única paixão.»

Hobbes
«Quem quiser entrar na alma, deve passar pelo nada, isto é, pelo medo.»

(da epígrafe de Burnier)
 «Eis a única certeza: «não saber onde estou.»
Definitivamente perdido, definitivamente encontrado.
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 107
«Il parle de soi-même comme d'un autre. Il dit en parlant de soi. Il parle de soi comme d'un autre.»

Beckett

um devir-feminino do segredo

Luísa Costa Gomes
«uma mulher pode ser secreta não escondendo nada, à força da transparência, de inocência e de velocidade.»

Luísa Costa Gomes

sensações claustrais

 «(...) a língua-tal-qual-se-fala, a palavra à flor da boca, por vezes numa coloquialidade tão intensa e sofisticada que se recriam artificias de discurso. »
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 102

A MAÇÃ NO ESCURO

Era um cômodo grande, talvez um armazém antigo,
empilhado até o meio de seu comprimento e altura
com sacas de cereais.
Eu estava lá dentro, era escuro,
estando as portas fechadas
como uma ilha de sombra em meio do dia aberto.
De uma telha quebrada, ou de exígua janela,
vinha a notícia da luz.
Eu balançava as pernas,
em cima da pilha sentada,
vivendo um cheiro como um rato o vive
no momento em que estaca.
O grão dentro das sacas,
as sacas dentro do cómodo,
o cómodo dentro do dia
dentro de mim sobre as pilhas
dentro da boca fechando-se de fera felicidade.
Meu sexo, de modo doce,
turgindo-se em sapiência,
pleno de si, mas com fome,
em forte poder contendo-se,
iluminando sem chama a minha bacia andrógina.
Eu era muito pequena,
uma menina-crisálida.
Até hoje sei quem me pensa
com pensamento de homem:
a parte que em mim não pensa e vai da cintura aos pés
reage em vagas excêntricas,
vagas de doce quentura
de um vulcão que fosse ameno,
me põe inocente e ofertada,
madura pra olfato e dentes,
em carne de amor, a fruta.














Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p. 41
«Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.»



Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.38
(...)

«A alegria dele desertava, quase, do que fosse
uma alegria humana e não estávamos à altura de entendê-la.
Sofrer era muito mais fácil.»



Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.27

gesticular o pensamento



«(...)

Quem entender a linguagem entende Deus
cujo filho é o Verbo. Morre quem entender.



Adélia Prado. Com Licença Poética. Selecção e prefácio de Abel Barros Baptista. edições Cotovia, Lisboa, 2003., p.6

terça-feira, 10 de junho de 2014

IV

os namorados mortos não sabiam
e não queriam morrer, nunca ninguém
em verdade o quis já, mas acontece
que quase sempre morte e amor se tocam

 dos namorados mortos não se diga
que já não têm destino nem são livres
sequer de os esquecermos mesmo quando
se lhes apaga o rosto o sítio o nome

 os namorados mortos não são fáceis
tu, por exemplo, evitas enredar-te
com o que sabes deles, mas que sabes
além de alguma história ou da aparência?


 Vasco Graça MouraPoemas Escolhidos 1963-1995. Apresentação Fernando Pinto do Amaral. Bertrand Editora, 1996., p. 74