segunda-feira, 21 de julho de 2014

"Da águia diz-se que nunca tem tanta fome que não deixe parte da sua presa às aves que andam à sua volta; as quais, não se podendo alimentar por si, é necessário que sejam cortejadoras dessa águia, porque assim se nutrem."...


 Leonardo Da Vinci. Bestiário, Fábulas e Outros Escritos.
 

domingo, 20 de julho de 2014

MANUEL DA SILVA
 
   Tinha-se-te metido na cabeça que, se fechasses os olhos, nunca mais os poderia abrir e, durante dezassete dias e dezassete noites, ninguém teve um momento de sossego nesta casa.
 
LEONOR
 
  E afinal, graças a Deus, tens adormecido e acordado centenas de vezes desde então ... (Um pequeno silêncio.)
 
 
Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 39
MANUEL SILVA
 
   A tua mãe adorava-te, estava sempre a temer que um sopro te levasse...Quando eras pequeno, tinhas um feitio infeliz... Não sabias brincar como as outras crianças e choravas em silêncio, como um homem. Foi tudo isto, com certeza, que a inquietou e lhe deu ideias absurdas...No fundo, creio que tinha pena de ti por ver que sofrias, como ela, dum excesso de sensibilidade. Como vês, nada disto tem a mínima importância.
 
 
Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 38/9

Fritz Kahn (1888–1968)

 

«A tua única doença é a imaginação. Essa é que precisa de regime e de médico assistente...»

Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 37
«...És por natureza um nevropata, um exaltado, e a verdade é que fazes tudo para agravar esta característica do teu temperamento.»


Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 13

«Sou caprichosa, exigente, inadaptável;»

Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 25
ISABEL

   Enganas-te: ficou também um certo cansaço, um certo mal-estar, que, apesar de tudo, nos separa. Estou farta de combater eternamente os seus demónios, aquele gosto do sofrimento que é para ele uma espécie de segunda natureza. Tu bem sabes que detesto complicações, que só tenho uma ambição na vida: ser feliz, viver simplesmente, sem histórias, sem dramas. Ele, pelo contrário, adora a tragédia, as discussões inúteis, as reconciliações momentâneas que não remedeiam nada. Ah, Clara, estou farta, farta!




Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 15

ISABEL

  Pois bem, seja! Aliás, o que tenho a dizer-te é muito simples: o teu irmão está doido, completamente doido!

CLARA

Isso já nós sabemos há muito. E depois?

ISABEL

Depois?! Achas que é pouco?!

CLARA

 A loucura dele é mansa...No fundo, não é capaz de fazer mal a uma mosca


Fernanda de Castro. Obras Completas. Teatro. A Pedra no Lago. Peça em Quatro Actos, 1943. Círculo de Leitores, Lisboa, 2006., p. 13

''Vai formosa, e não segura.''

«Maldito seja 'l mare
que mi faz tanto male!»


Roi Fernandez de Santiago

sobre Eugénio de Andrade


«(...), viveu sempre extremamente distanciado do que se chama vida social, literária ou mundana, avesso à comunicação social, arredado de encontros, colóquios, congressos, etc., e as suas raras aparições em público devem-se a ''essa debilidade do coração, que é a amizade''.»

''da catadupa verbal''

Romance de Peter Handke: ''Die Stunde da Wir nichts voneinander wussten (A hora em que não sabíamos nada uns dos outros.)

Romance de Peter Handke: ''Der Kurze Brief zum langen Abschied (Uma Breve Carta para um Longo Adeus), 1972

escrita rilkiana

«O teatro de Handke sempre teve mais ligações com os modelos estruturais e as obsessões temáticas da sua prosa do que com a tradição (ou as tradições) do teatro.»


João Barrento. O arco da palavra. Peter Handke, dramaturgo. in A Palavra Transversal. Literatura e Ideias no Século XX. Lisboa, Livros Cotovia, 1996

quinta-feira, 17 de julho de 2014


Solidão

Solidão de quem tremeu
A tentação do céu
E dos encantos, o que o céu me deu
Serei bem eu
Sob este véu de pranto


Sem saber se choro algum pecado
A tremer, imploro o céu fechado
Triste amor, o amor de alguém
Quando outro amor se tem
Abandonado, e não me abandonei
Por mim, ninguém
Já se detém na estrada

Grito



Silêncio!
Do silêncio faço um grito
O corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco.

De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido.

Ao céu!
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.

E eu,
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora.

Solidão!
Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura.

Ai, solidão
Quem fora escorpião
Ai! solidão
E se mordera a cabeça!

Adeus
Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede.

Adeus,
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura.

segunda-feira, 14 de julho de 2014



Entra Helena.

Os olhos traz ela doentes de amor; ...e agora o noto.



William Shakespeare. Bem está o que bem acaba. Tradução directa da edição de Collins por Henrique Braga. Lello&Irmão, Porto., p. 33
BOBO

Profeta é que eu sou, senhora, e digo as verdades pelo caminho mais curto»



William Shakespeare. Bem está o que bem acaba. Tradução directa da edição de Collins por Henrique Braga. Lello&Irmão, Porto., p. 20

PAROLLES
 
 «Contra isso pouco se pode dizer; em todo o caso, é contrário às leis da natureza. Defender a virgindade é acusar as vossas mães - o que é desobediência declarada. Aquele que se enforca a si mesmo, é virgem: a virgindade assassina-o; devia ser enterrado nas entranhas públicas, fora de todo o recinto sacrificado, como terrível criminoso contra a natureza. A virgindade gera bichos, muito semelhante ao queijo; consome-se até à côdea, e morre devorando as próprias entranhas. Além disso, a virgindade é impertinente, orgulhosa, preguiçosa, toda ela amor-próprio, que é o pecado mais proibido pela doutrina. Não a conserveis; se lhe dais a preferência, é uma perda certa: fora com ela! dentro de dez anos ter-vos-á produzido dez outras virgindades, o que já é um bonito rendimento; e o próprio capital não estará por isso pior; fora pois com ela!»
 


William Shakespeare. Bem está o que bem acaba. Tradução directa da edição de Collins por Henrique Braga. Lello&Irmão, Porto., p. 17

CONDESSA

Ao ver meu filho desprender-se de mim, enterro um segundo marido.


William Shakespeare. Bem está o que bem acaba. Tradução directa da edição de Collins por Henrique Braga. Lello&Irmão, Porto., p. 9

«Peto, cheio de arrogância, ignorava os perigos e os obstáculos que o rodeavam; tinha a louca presunção dos impotentes.»



Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 114

''vãs especulações e as discussões estéreis não eram alimento suficiente para esses homens de acção''

Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 108
«Um traço característico desta singular fisionomia é que Nero não via bem a não ser ao perto e piscando os olhos. Quando ia ao circo presidir aos jogos, servia-se de uma esmeralda para ver os combates dos gladiadores. Todas as vezes que Nero presidia aos jogos do circo, servia-se de uma destas pedras preciosas como de um espelho, para poupar a vista do sangue que lhe causava horror e para poupar os seus olhos.»


Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 105
«Foi depois de ter empregado inutilmente os meios aconselhados pelos curiões que Nero desceu aos mistérios da magia para se subtrair às obsessões que perturbavam as suas noites. Esforços inúteis: os terrores e os remorsos incessantes foram o suplício de toda a sua vida.»



Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 88
 
«A avareza, a ambição, o amor da guerra que não tinham contrariado esses bons impulsos, não opuseram obstáculo ao lado mau;  e o ódio veio, por sua vez, reinar na sua alma tão absolutamente quanto outrora a bondade tinha dominado. Vencido pelo mal como o tinha sido pelo bem, Nero foi o pior dos homens depois de ter nascido o melhor e as suas paixões levaram-no longe, tão facilmente se deixava arrastar, que tudo se tornou uma fatalidade, até mesmo o assassínio da mãe.»


Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 87

«As mulheres - diz tácito - convencem-se facilmente com o que as lisonjeia.»

«Nero, que não queria ser um tirano, tomou precauções para chegar até Popeia, recorreu a atenções, quase organizou uma conspiração. A Sálvio Otão, seu amigo, foi pedida a intervenção neste assunto delicado, sem escândalo e sem barulho. Logo que Popeia se viu requestada pelo príncipe, serviu-se de todos os seus artifícios para desenvolver essa paixão nascente. Primeiramente, fingiu uma emoção misturada com surpresa, era a perturbação e o espanto de uma mulher surpreendida por um amor involuntário; não quer voltar a encontrar-se diante Nero; se o volta a ver está perdida. Desde esse momento, afectou evitar a sua presença, mesmo em público. Depois de muitas hesitações, muitas recusas e muitas premeditadas imprudências, voltaram a encontrar-se por fim e, desta vez, a palidez e as lágrimas de Popeia provaram a Nero o amor violento de que era alvo.»
 


Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 71
«Perguntamos a nós próprios a razão porque Nero, que tinha amado Acteia tão apaixonadamente ao ponto de querer colocá-la no trono, foi tão violentamente arrastado para Popeia, que ocupou então o primeiro lugar no seu coração. Por muito generosa que fosse a paixão de Nero por Acteia, por mais sólida que fosse a teia de ideias e de sentimento desse amor, depois de ter arrastado as discórdias de Agripina e de seu filho, o envenenamento de Britânico e as desordens para as quais os amigos arrastavam o Jovem César, o retalho de púrpura não era mais do que um farrapo. Junto de Popeia, Nero vai sofrer a servidão dos sentidos e conhecer a fatalidade das paixões.»
 

Latour Saint-Ybars. Nero. Edição Amigos do Livro, Lisboa., p. 70/71

What Can I Do For You? by Bob Dylan

I know all about poison, I know all about fiery darts
I don’t care how rough the road is, show me where it starts
Whatever pleases You, tell it to my heart
Well, I don’t deserve it but I sure did make it through
What can I do for You?


(...)
omnia mutantur, nihil interit: errat et illinc / huc venit, hinc illuc, et quoslibet occupat artus / spiritus eque feris humana in corpora transit / inque feras noster, nec tempore deperit ullo, / utque novis facilis signatur cera figuris / nec manet ut fuerat nec formam servat eandem, / sed tamen ipsa eadem est, animam sic semper eandem / esse, sed in varias doceo migrare figuras. / ergo, ne pietas sit victa cupidine ventris, / parcite, vaticinor, cognatas caede nefanda / exturbare animas, nec sanguine sanguis alatur!

Tudo se transforma, nada morre. O espírito vagueia e anda / daqui para ali, dali para aqui, e invade um corpo, qualquer / que ele seja, e dos animais, e em instante algum perece. / Tal como a dúctil cera se molda sempre em novas figuras, / E não permanece como era, nem conserva as mesmas formas, / E, no entanto, é sempre a mesma, assim a alma é a mesma, / (...) mas transmigra para uma variedade de formas.

Ovídio, Metamorfoses, XV, vv. 165-173 (trad. P. F. Alberto, Lisboa, Cotovia, 2010, p. 369).






José Luís NETO, "Caderno de imagens",
da série JULY 1984 [#2-3] (2010)

1. Il y a des images, les choses mêmes sont des images, parce que les images ne sont pas dans la tête, dans le cerveau. C'est au contraire le cerveau qui est une image parmi d'autres. Les images ne cessent pas d'agir et de réagir les unes sur les autres, de produire et de consommer. (...)

 2. Mais les images ont aussi un dedans ou certaines images ont un dedans et s'éprouvent du dedans. Ce sont des sujets. Il y a en effet un écart entre l'action subie par ces images et la réaction exécutée. C'est cet écart qui leur donne le pouvoir de stocker d'autres images, c'est-à-dire de percevoir. Mais ce qu'elles stockent, c'est seulement ce qui les intéressedans les autres images: percevoir c'est soustraire de l'image ce qui ne nous intéresse pas, il y a un toujours moins dans notre perception. (...)

Gilles Deleuze, «Trois questions sur Six fois deux (Godard)», in Pourparlers, Minuit, Paris, 1990, p. 62.

1. Há imagens, as próprias coisas são imagens, porque as imagens não existem na cabeça, no cérebro. Bem pelo contrário, é o cérebro que constitui uma imagem, entre as demais. As imagens não cessam de agir e de reagir umas sobre as outras, de produzir e de consumir.
(...)


 2. Mas as imagens têm ainda um interior, ou algumas imagens têm um interior que e experimentam-se a partir deste. São sujeitos. Com efeito, há um hiato entre a acção infligida e a reacção. É este hiato que lhes confere o poder de armazenar outras imagens, ou seja, de percepcionar-receber. Mas o que elas armazenam, é apenas o que nas outras imagens lhes interessa: percepcionar-receber, é substrair à imagem o que não nos interessa, há sempre menos na nossa percepção. (...)

 

«Mas, num ímpeto, ela puxou-lhe a espingarda das mãos. E, antes que ele pudesse tomar consciência do que se passava, um estampido vermelho reboou na serenidade da manhã e a burra oscilou sobre o piso orvalhado. A burra fez ainda um esforço para erguer as patas traseiras, mas, gemebunda, logo voltou a cair sobre os joelhos. Um dos seus olhos estava estilhaçado e dele corria uma nódoa quente no chão da courela. A nódoa foi alastrando, abrindo nervuras na terra negra. Já não era sangue da besta. Era a courela que gemia um suor de agonia, um suor de sangue. E nem um vento áspero, esse vento emigrado das montanhas do Norte, faltou ali para lhe enrugar a superfície viscosa e coagulada.»



Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 246
«Vieirinha já não o escutava: fechara-se em melancolia. A sua face era a de um velho. Estava exausto e ausente como um velho. Mas as suas palavras reboavam ainda nos ouvidos do Loas, atiravam-no para um abismo de problemas. Lutar consigo. As palavras do Vieirinha avolumavam-se, inchavam, começando a afogueá-lo. Mas, por obscuras que parecessem, essas palavras representavam uma lúcida revelação.»
 

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 231
« - Um homem deve fazer perguntas, compadre. Um homem não deve consentir que outro qualquer, homem ou Diabo, lhe deixe a boca fechada.»


Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 225

mastigando as lágrimas

«Bem o sabia. E, mastigando as lágrimas, para que elas não fossem  explodir, pôs-se a pensar na terra como se nada mais lhe restasse, como se a sua terra fosse apenas cor, folhas, árvores, e a nostalgia do passado apenas a saudade de um bosque, a nostalgia de uma cor.»



Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 224

É p'ra amanha

É p'ra amanha
Bem podias fazer hoje
Porque amanhã sei que voltas a adiar
E tu bem sabes como o tempo foge
Mas nada fazes para o agarrar

Foi mais um dia e tu nada fizeste
Um dia a mais tu pensas que não faz mal
Vem outro dia e tudo se repete
E vais deixando ficar tudo igual

É p'ra amanha
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar
Ai tu bem sabes como a vida foge
Mesmo que penses que esta p'ra durar

Foi mais um dia e tu nada viveste
Deixas passar os dias sempre iguais
Quando pensares no tempo que perdeste
Entao tu queres mas é tarde demais

É p'ra amanha
Deixa lá não facas hoje
Porque amanhã tudo se há-de arranjar
Ai tu bem sabes que o trabalho foge
Mesmo de quem diz que quer trabalhar

Eu sei que tu andas a procurar
Esse lugar que acerte bem contigo
Do que aparece nao consegues gostar
E do que gostas já está preenchido

Canção do engate

Tu estás livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

Tu estás só e eu mais só estou
Que tu tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás
Tu que buscas companhia
E eu que busco quem quiser
Ser o fim desta energia
Ser um corpo de prazer
Ser o fim de mais um dia

Tu continuas à espera
Do melhor que já não vem
E a esperança fio encontrada
Antes de ti por alguém
E eu sou melhor que nada

Refrão (3x)

Adeus que me vou embora

Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora

Adeus que me embora vou
Adeus que me embora vou

Vou daqui para a minha terra
Vou daqui para a minha terra

que eu desta terra não sou
que eu desta terra não sou

Tenho minha mãe à espera
Tenho minha mãe à espera

Cansada de me esperar
Cansada de me esperar

Naquela encosta da serra
Naquela encosta da serra

A teia

Tenho maneira de te convencer
Tenho modo e jeito para te prender
Tenho maneira de te convencer
Tenho modo e jeito para te prender

Vais perder a confiança
Vais perder a segurança
Que tu tens em ti
Olha bem p'ra mim
Não podes fugir
Não podes fugir
Não vais conseguir
Não vais resistir
Começa a sorrir
Tu estás dentro da minha teia
De onde não podes fugir, não
De onde não podes fugir, não
«Poeira, secura, solidão. E por toda a parte o odor quente do trigo, espesso e lascivo, fundindo-se com o mofo daquelas terras onde os restolhos apodreciam até que o arado, na próxima sementeira, os sepultasse no subsolo. E também os pensamentos mergulhavam nesse charco, sem que um vendaval, chuva, serras, árvores, vento, os revolvesse e tornasse límpidos. Joana, fugindo da charneca, fugindo do trigo, fugia dos seus pensamentos estagnados.»

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 221
Oh, where have you been, my blue-eyed son?
Oh, where have you been, my darling young one?
I’ve stumbled on the side of twelve misty mountains
I’ve walked and I’ve crawled on six crooked highways
I’ve stepped in the middle of seven sad forests
I’ve been out in front of a dozen dead oceans
I’ve been ten thousand miles in the mouth of a graveyard
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, and it’s a hard
And it’s a hard rain’s a-gonna fall


Oh, what did you see, my blue-eyed son?
Oh, what did you see, my darling young one?
I saw a newborn baby with wild wolves all around it
I saw a highway of diamonds with nobody on it
I saw a black branch with blood that kept drippin’
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin’
I saw a white ladder all covered with water
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken
I saw guns and sharp swords in the hands of young children
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard
And it’s a hard rain’s a-gonna fall

And what did you hear, my blue-eyed son?
And what did you hear, my darling young one?
I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin’
Heard the roar of a wave that could drown the whole world
Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin’
Heard ten thousand whisperin’ and nobody listenin’
Heard one person starve, I heard many people laughin’
Heard the song of a poet who died in the gutter
Heard the sound of a clown who cried in the alley
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard
And it’s a hard rain’s a-gonna fall


Oh, who did you meet, my blue-eyed son?
Who did you meet, my darling young one?
I met a young child beside a dead pony
I met a white man who walked a black dog
I met a young woman whose body was burning
I met a young girl, she gave me a rainbow
I met one man who was wounded in love
I met another man who was wounded with hatred
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard
It’s a hard rain’s a-gonna fall


Oh, what’ll you do now, my blue-eyed son?
Oh, what’ll you do now, my darling young one?
I’m a-goin’ back out ’fore the rain starts a-fallin’
I’ll walk to the depths of the deepest black forest
Where the people are many and their hands are all empty
Where the pellets of poison are flooding their waters
Where the home in the valley meets the damp dirty prison
Where the executioner’s face is always well hidden
Where hunger is ugly, where souls are forgotten
Where black is the color, where none is the number
And I’ll tell it and think it and speak it and breathe it
And reflect it from the mountain so all souls can see it
Then I’ll stand on the ocean until I start sinkin’
But I’ll know my song well before I start singin’
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard
It’s a hard rain’s a-gonna fall

Edinburgh Girl in dark dress, 1958.


«Levantou-se subitamente, com os olhos orvalhados, e escondeu-se em casa para chorar à vontade.»

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 204
«E apetecia-lhe estoirar o cérebro e ao carne de encontro às pedras, às árvores, aos astros, de encontro a alguma coisa, ainda não identificada, onde se devia acoitar o responsável da sua desgraça. Loas semicerrou os olhos a esse pensamento capcioso, lento, terrível. Todo ele se encolheu, de pêlos eriçados, como um bicho à espreita do assalto de outro bicho. Que sentia no seu cérebro? Sonho, génio, loucura - apenas tragédia? Havia nele uma zona obscura e esquiva, que afinal temia explorar, um inacessível inferno donde brotavam lavas, clarões fugazes, iluminando-lhe o pensamento para o logo escurecer. Donde partira a sua desgraça?»



Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 198
«Depois dos dias incertos de Outono, nuvens esparsas correram de todos os lados do horizonte, fechando o céu num cinzento pesado e definitivo - e, então, a chuva persistiu durante semanas. Às vezes diminuía para ser apenas nevoeiro, uma poalha húmida, outras vezes corria torrencialmente, arrasando as belgas. Nas madrugadas, a geada encaramelava os alqueives e Barbaças era dos que iam apanhar as lebres na cama, atordoadas da invernia.»


Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 187
«Manhã cedo, Loas encaminhou-se para o interior da charneca, lá onde os montados areentos, às vezes com a giesta da altura de um homem, isolavam os casais do resto do mundo. Quem sabe se o albardeiro se teria ali refugiado? Os camponeses ficavam a meia porta, ou no escuro dos postigos, assim que o Loas, no seu passo irritadiço, desafiando os ladros dos cães, lhes surgia por entre os silvados. Um albardeiro? Sim, andara por aí um homem com uma albarda às costas, mostrando-a a toda a gente, mas não tinha cara de ladrão.»


Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 183
«As árvores já húmidas do Outono friorento balouçavam docemente no entardecer, pelas folhas corria um frémito que os ouvidos percebiam como um arrepio. Loas abria as narinas e esse aroma de erva molhada, de seiva que brotava da terra. A terra exalava a plenitude de um ventre fecundado.»
 

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 182

Surreal Self-Portrait Photography by Noell S. Oszvald


niquento

1. Que se ocupa de ninharias.
2. Que não se contenta facilmente.
3. Que se ofende facilmente. = MELINDROSO
«Loas parecia satisfeito, mas logo os seus olhos claros procuraram a inspiração das distâncias. As pessoas da courela tinham razões para temer esse olhar que se estendia pela charneca, que ultrapassava a charneca, que fugia das coisas próximas e concretas, perdendo-se num mundo interdito.»

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 181
«Por essa altura vieram as primeiras chuvas. Inopinadamente, no céu liso, formavam-se nuvens espessas, acastelando-se umas sobre as outras, e logo a trovoada se desfazia com a rapidez que começara. Na terra ardente, as grossas gotas de chuva deixavam cicatrizes, com o cheiro de carne queimada. »

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 173

A luz começava a envelhecer

«A luz começava a envelhecer. Casas, árvores, nuvens, desagregavam-se numa melancólica paisagem de Outono, que trazia a doçura e serenidade, mas que também se carregava do sombrio presságio de quando os dias estão prestes a morrer.»

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 169/170

«Que precisava um homem para ser feliz? A vila estava pejada de homens que nasciam e morriam de mãos vazias e de outros que nasciam e morriam num permanente fastio de já nada terem para desejar.»

Fernando Namora. O Trigo e o Joio, Círculo de Leitores., p. 158

domingo, 13 de julho de 2014

«Bakhtine intervém na questão em que se debate a delimitação entre as ciências naturais e as ciências humanas com várias teses fundamentais: para ele, o que é essencial no homem enquanto «objecto» das ciências humanas é o facto de o homem ser um ser-que-fala («parlêtre» dirá Lacan). Porque as ciências humanas não estudam tudo o que diz respeito ao homem, mas apenas aquilo que no homem existe de especificamente humano
 
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 243
«Chaque personne qui nous fait soffrir peut être rattachée par nous à une divinité dont elle n'est qu'un reflet fragmentaure et le dernier degré, divinité dont la cintemplation en tant qu'idée nous donne aussitôt de la joie au lieu de la peine que nous avions. Tout l'art de vivre, c'est de nous servir des personnes qui nous font souffrir comme d'un degré permettant d'accéder à sa forme divine et de pleurer ainsi journellement notre vie de divinités».

Rohmer

HEAD Fritz Kahn (1888–1968)


incomodidade

Le Temps Retrouvé

''espaço de perturbação e prazer''

Rohmer

re-produz

A crítica portuguesa

«(...) a crítica portuguesa é quase inteiramente feita de opiniões, isto é, de atribuição de pontuações, que os críticos depois fundamentam em textos de maior ou menor envergadura, mas estas opiniões desenvolvidas, e por vezes sustentadas nalguma erudição cinéfila ou nalgum humor mais ou menos corrosivo, raramente ultrapassam o plano da mera opinião e conseguem ser interpretações do filme capazes de acrescentar alguma coisa à literatura do espectador. Isto é, quase nada se aprende ao ler a crítica portuguesa.»
 
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 224

«(...) cada ser está bem na sua própria pele, mas a pele é aqui uma superfície libidinal sem fim onde nomes e rostos se esbatem.»
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 205

glass lady

«(...) mas é de Shakespeare que vem a lição de uma loucura que se apossa das pessoas e faz sobrepor a dança do desejo à estabilidade do amor.»
 
 
Eduardo Prado Coelho. A Mecânica dos Fluidos. Literatura, cinema, teoria. Imprensa Nacional - Casa da Moeda. p. 205
«There's a hole Were you're supposed to be
There's nobody lying next to me dear Yoko»



John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.191
«(...)


Não tenhas medo de ir ao inferno e voltar
Não tenhas medo de ir ao inferno e voltar
Não tenhas medo de ter medo.»


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.189

Myrdrith 1931


«People asking questions lost in confusion
Well I tell them there's no problema, only solutions
Well they shake their heads and look at me as if I've lost my mind
I tell them there's no hurry...
I'm just sitting here doing time»


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.183

KISS KISS KISS

Kiss kiss kiss kiss me love
Just one kissm kiss will do
Kiss kiss kiss kiss me love
Just one kiss, kiss will do

Why death
Why life
Warm hearts Cold darts

Kiss kiss kiss kiss me love
I'm bleending inside

It's long, long story to tell
And I can only show you my hell

Touch touch touch touch me love
Just one touch, touch will do
Touch touch touch touch me love
Just one touch, touch will do

Why me
Why you
Broken mirror
White terror

Touch touch touch touch me love
I'm shaking inside

It's that faint sound of the childhood bell
Ringing in my soul

Kiss kiss kiss kiss me love
Just one kiss, kiss Will do



John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.170

sexta-feira, 11 de julho de 2014

''Uma conspiração de silêncio fala mais alto que as palavras''.

Dr. Winston O'Boogie
«(...)

I'm tired. I'm tired, I'm tired
Of being so alone
No place to cal my own
Like a rollin'stone.»


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.147

«A maldição dos olhos verdes directamente do teu coração.»

-The green eyed goddamn comumente The green eyed monster representa a deusa dos ciúmes.


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.147

terça-feira, 8 de julho de 2014

«Daí que a fotografia seja essa «alucinação partilhada» onde se conjuga «a Loucura e qualquer coisa de que não sei bem o nome. Começarei por chamar-lhe o sofrimento do amor.»

Barthes
«A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão.»

António Ramos Rosa

Longtemps

La folie du jour

Maurice Blanchot

Mourir

«Mourir, c'est passer à travers le chas de l'aiguille après de multiples feuillaisons. Il faut aller à travers la mort pour émerger devant la vie, dans l'état de modestie souveraine.»

René Char

«Trust me darlin' come on listen to me
Come on listen to me, como on listen, listen»


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.139
«It's hard enough I know just to feel your own pain
It's hard enough I Know to feel your own pain»


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.111

Declaração de Loucutopia


Anunciamos o nascimento dum
país conceptual, LOUCUTOPIA.

A cidadania do país pode
obter-se por declaração da tua
consciência de LOUCUTOPIA.

LOUCUTOPIA não tem território, nem fronteiras,
nem passaportes, só pessoas.

LOUCUTOPIA não tem outras leis
que não sejam as cósmicas.

Todas as pessoas da LOUCUTOPIA são
embaixadores do país.

Como dois embaixadores de LOUCUTOPIA
pedimos imunidade diplomática e
reconhecimento nas Nações Unidas
do nosso país e o seu povo.

Yoko Ono Lennon

John Ono Lennon


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.111

«Don't think they didn't about Hitler.»

There are no birds in Viet - Nam

Gooks: palavra racista para designar os vietnamistas

«Yes it's always bloody Sundy/In the concentration camps»

John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.97
We live with no reason
Kicked around for no reason
Thrown out without reason
Lite tools
We work in a prison
And hate in a prison
And die in a prison
As a rule

Vivemos sem razão
Tratados a pontapés sem razão
Deitados fora sem razão
Como objectos
Trabalhamos numa prisão
E odiamos numa prisão
E morremos numa prisão
Por via de regra


John Lennon. Canções (1968-1980) Colecção Rock On n.º 5. Centelha., p.93

segunda-feira, 7 de julho de 2014

branco-pomba

domingo, 6 de julho de 2014

artigo de 1975

CRÍTICA Sophia de Mello Breyner critica as declarações do Ministro da Comunicação Social Jorge Correia Jesuíno, sobre a cultura num artigo de 1975 / FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

 
"1 - A ARTE deve ser livre porque o ato de criação é em si um ato de liberdade. Mas não é só a liberdade individual do artista que importa. Sabemos que quando a Arte não é livre o povo também não é livre. Há sempre uma profunda e estrutural unidade na liberdade. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque à liberdade cultural me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é um sintoma e significa sempre opressão para um povo inteiro.

2 - NÃO PENSO que exista uma arte para o povo. Existe sim uma arte para todos à qual o povo deve ter acesso porque esse acesso lhe deve ser possibilitado através dos meios de comunicação. Primeiro os "aedos" cantaram no palácio dos reis gregos "o canto venerável e antigo". Era uma arte profundamente aristocrática. Depois os rapsodos cantaram esse mesmo canto na praça pública. E Homero, foi, como se disse, o educador da Grécia. Isto é: a cultura foi posta em comum. E por isso os gregos inventaram a democracia. A política começa muito antes da política.

Penso que nenhum socialismo real será possível se a cultura não foi posta em comum. Quando o aedo, ou poeta medieval cantavam na praça o seu poema era ouvido por todos, mesmo pelo analfabeto. E viajava por todo o país e de país em país: por isso o mirandês canta Mirandolim-Marlbourg.

Depois a cultura fechou-se em livros e os analfabetos e os pobres foram rejeitados. Tudo se tornou mais complexo e complexado. As comunidades foram divididas e cada homem foi dividido dentro de si próprio. Será preciso um enorme paciente e múltiplo e obcecado esforço para construir o mundo de outra maneira. E é preciso que nenhum dirigismo esmague esse esforço.

É evidente que no mundo atual encontramos a par da arte uma meta-arte. O cubismo é uma meta pintura, uma pintura sobre a pintura. Arte e meta-arte alimentam-se e inspiram-se mutuamente e penso que este é um dos caminhos, uma das possibilidades. Foi a ler Proust e Rimbaud que aprendi a escrever para crianças. O simplismo e o populismo nunca conduzirão a nada. Se João Cabral de Melo é capaz de escrever uma obra como "Morte e Vida Severina" é porque é capaz de escrever "Uma Faca só Lâmina". "Morte e Vida Severina" é um poema que todos entendem, mas nele as imagens são tão precisas, e os versos tão densos como em "Uma Faca só Lâmina".

Creio que o "poema para todos" é, dentro da cultura em que estamos, o poema mais difícil de escrever. Creio que esse poema é necessário e por isso tenho procurado encontrar um caminho para ele. Por isso em "Livro Sexto" invoquei
O canto para todos
Por todos entendido
Mas sei que esse poema não se programa. E por isso, já depois do 25 de abril escrevi:
Um poema não se programa
Porém a disciplina
Sílaba por sílaba
O acompanha
Mas a disciplina do poema não é a da política.
O poema é disciplinado pela sua própria necessidade.

Nem o próprio artista se pode programar a si próprio. O Ministro da Comunicação Social disse que os períodos revolucionários não eram propícios às artes de vanguarda. Não podemos esquecer que também Hitler e Salazar não se entendiam bem com a arte de vanguarda e que ambos a perseguiam. Um verdadeiro período revolucionário está aberto a todas as formas de criação.

3 - É EVIDENTE que há incoerência. As campanhas de dinamização são mais políticas do que culturais. Fazem um doutrinamento político que deve ser feito pelos partidos. Pois não há doutrinamento apartidário. Não há angelismo político. Um doutrinamento político que se apresenta como apartidário é necessariamente ambíguo.

Vivemos no pluralismo. Mas não queremos viver na ambiguidade. Queremos que o pluralismo seja nítido e declarado com clareza. Que todo aquele que exerce uma atividade de doutrinamento político diga aos outros o partido a que pertence ou que apoia.

Queremos uma revolução clara. Queremos a clareza e a coerência dessa clareza. Este país tem neste momento uma intensa consciência da necessidade de clareza.

A política é um capítulo da moral. O povo que somos votou conscientemente e quer a política que escolheu. Queremos justiça social concreta mas sabemos que essa justiça só se poderá construir na liberdade e na verdade.

Sabemos muito claramente o que não queremos. Não queremos a violência, não queremos que a liberdade seja sofismada. Não queremos nem inquisições nem perseguições. Não queremos política da terra queimada. Não queremos política imposta. E no plano da cultura queremos acima de tudo que a política não seja anti-cultura.

A demagogia é a traição cultural da revolução. Porque a demagogia é a arte de ensinar um povo a não pensar. Um provérbio africano diz: Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba. Não queremos continuar a suportar a baba dos slogans.

Querer fazer política cultural quando os meios de comunicação estão inundados de demagogia é uma incoerência radical. O ministro da comunicação referiu-se ao facto de o trabalho dos artistas ser agora pago pelo povo. Também muitos jornais são agora pagos pelo povo e todos os dias custam ao povo uma despesa escandalosa.
 
A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo."

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/em-defesa-da-cultura-o-texto-que-sophia-escreveu-para-o-expresso=f879082#ixzz36hyjDG1A

quarta-feira, 2 de julho de 2014


"Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento?

Olhos se fechem não para não ver
mas para o corpo ver o que eles não,
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão"

Jorge de Sena

A mentira perfeita



 A mentira, a mentira perfeita, acerca das pessoas que conhecemos, sobre as relações que com elas tivemos, sobre o nosso móbil em determinada acção formulado por nós de uma forma completamente diferente, a mentira acerca do que somos, acerca do que amamos, acerca do que sentimos pela criatura que nos ama e que julga ter-nos tornado semelhante a ela porque passa o dia a beijar-nos, essa mentira é das únicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em nós sentidos adormecidos para a contemplação do universo que nunca teríamos conhecido.

Marcel Proust, in 'A Prisioneira'
Hamm: There's something dripping in my head. A heart, a heart in my head.

 ― Samuel Beckett, Endgame

”Being entirely honest with oneself is a good exercise.”

Letter to Wilhelm Fliess (15 October 1897), as quoted in Origins of Psychoanalysis