sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015


«(....), em atenção a eu ser homem, me enterreis quando tiver morrido.»

William Shakespeare. Péricles Príncipe de Tiro. Trad e revisto por João Grave. Lello & Irmão Editores, Porto, 1976., p. 46

«Eu trato de esquecer o que fui, mas o que sou força-me a pensar em mim.»

William Shakespeare. Péricles Príncipe de Tiro. Trad e revisto por João Grave. Lello & Irmão Editores, Porto, 1976., p. 46

«Não viemos para acrescentar infortúnios às vossas lágrimas, mas para as secar;»


William Shakespeare. Péricles Príncipe de Tiro. Trad e revisto por João Grave. Lello & Irmão Editores, Porto, 1976., p. 36



«Falas como aquele a quem a inexperiência oculta que quanto mais bela é aparência maior o engano.»

William Shakespeare. Péricles Príncipe de Tiro. Trad e revisto por João Grave. Lello & Irmão Editores, Porto, 1976., p. 35

«A prudência ensina-me que os homens a quem as acções mais negras que a noite não fazem corar de rubor, nada poupariam para que tais acções não fossem divulgadas. Um crime, sei-o perfeitamente, traz um outro; o assassinato anda ligado à concupiscência, como a chama ao fumo. O veneno e a traição são a mão direita e a mão esquerda do crime: - servem-lhe de escudo para afastar os traços da vergonha.»


William Shakespeare. Péricles Príncipe de Tiro. Trad e revisto por João Grave. Lello & Irmão Editores, Porto, 1976

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

olhar implorativo



«Porque tinha medo das noites que enchiam a escuridão de fantasmas. De ficar fechado com os seus fantasmas. Era disso que tinha medo.»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 142

mau-olhado


«Estava só, talvez já há três horas. Não dormia. Esquecera-se do sono e do tempo: «Nós os velhos, dormimos pouco, quase nunca. Por vezes, quase dormitamos, mas nunca deixamos de pensar. É a única coisa que me falta fazer.»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 136

«O tutano dos nossos ossos convertido em lume e as veias do nosso sangue feitas fios de fogo, fazendo-nos dar gritos de inacreditável dor: nunca apaziguado; sempre atiçado pela ira do Senhor.
 «Ele aninhava-me entre os seus braços. Dava-me amor.»



Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 132

«Quisera adivinhar os seus pensamentos e ver a batalha daquele coração para rejeitar as imagens que ele semeara dentro dela. Olhou-a nos olhos e ela devolveu-lhe o olhar. E pareceu-lhe ver os seus lábios esboçarem um sorriso.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 132


«Tenho a boca cheia de ti, da tua boca. Os teus lábios apertados, duros como se mordessem, oprimindo os meus lábios...»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 131


« - Viu os seus olhos apertados como quando se sente uma dor interna; a boca húmida, entreaberta, e os lençóis percorridos por mãos inconscientes até mostrar a nudez do seu corpo que começou a retorcer-se em convulsões.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 128

"O silêncio é a minha maior tentação. As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas. Fatigam, exasperam. E mentem, separam, ferem. Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! Por cada palavra que chega até nós, ainda quente das entranhas do ser, quanta baba nos escorre em cima a fingir de música suprema! A plenitude do silêncio só os orientais a conhecem".


 Eugénio de Andrade
“Tudo existe dentro da nossa intimidade comovida. O nosso amor é um mar onde mergulham e flutuam todas as coisas… Esta auréola sentimental que nos envolve, exala-se do nosso coração e expande-se no infinito espaço, e a expansão é indefinida…
[… ]
Amar alguém não é, de algum modo, ser esse alguém?”



 Teixeira de Pascoaes,“A Caridade”, in “O Homem Universal e outros escritos, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993, pp.146-147
"Não te poderás considerar um verdadeiro intelectual se não puseres a tua vida ao serviço da justiça; e sobretudo se te não guardares cuidadosamente do erro em que se cai no vulgo: o de a confundir com a vingança. A justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação e aproveitamento das forças que andam desviadas; há-de ter por princípio e por fim o desejo de uma Humanidade melhor; há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto não a distinguiremos do amor"

Agostinho da Silva, “Pelos vencidos”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 112.

The Wild Child


« - É verdade que a noite está cheia de pecados,  Justina?
-Sim, Susana.
-E é verdade?
-Deve ser, Susana.
-E o que é que tu pensas que a vida é, Justina, senão um pecado? Não ouves? Não ouves como a Terra range?
 - Não, Susana, não consigo ouvir nada. A minha sorte não é tão grande como a tua.
 -Ficarias assustada. Digo-te que ficarias assustada se ouvisses o que eu ouço.
  Justina continuou a pôr ordem no quarto. Passou uma e outra vez o pano pelas tábuas húmidas do chão. Limpou a água da jarra partida. Recolheu as flores. Pôs os vidros no balde cheio de água.
-Quantos pássaros mataste tu na vida, Justina?
-Muitos, Susana.
-E não sentiste tristeza?
-Sim, Susana.
-Então, estás à espera de quê para morreres?
-Da morte. Susana.
-Se é disso, não tardará. Não te preocupes.
Susana San Juan estava sentada na cama, recostada nas almofadas. Os olhos inquietos, olhando para todos os lados. As mãos sobre o ventre, presas ao ventre como uma concha protectora. Havia leves zumbidos que se cruzavam como asas por cima da sua cabeça. E o barulho das roldanas na nora. O rumor das pessoas ao acordar.
-Tu acreditas no Inferno, Justina?
-Sim, Susana. E também no Céu.
-Eu só acredito no Inferno - disse. E fechou os olhos.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 127

«Sentiu desfilar diante dele o trote de cavalos escuros, confundidos com a noite. O suor e o pó; o tremor de terra. Quando viu os pirilampos novamente a luzir, deu-se conta de que todos os homens tinham partido. Ficava ele, só, como um tronco duro que começava a desgastar-se por dentro.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 126

«Mais tarde teve de tirar a camisa de noite porque a noite começou a ficar quente...»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 124

«Era uma dessas luas tristes que ninguém olha, de que ninguém faz caso. Ali esteve, algum tempo, desfigurada, sem dar luz alguma, e depois foi esconder-se atrás dos cerros.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 122/3

''amargos de boca''



«Oh, porque não chorei e me desfiz então em lágrimas para aliviar a minha angústia.»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 118

Então fundo-me nele, inteira.


«Então fundo-me nele, inteira. Entrego-me a ele no seu forte bater, no seu suave possuir, sem lhe negar nada.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 113/4
«- É como se fosses um ''pico feio'', um entre mmuitos - disse-me. - Gosto mais de ti à noite, quando estamos os dois na mesma almofada, debaixo dos lençóis, na escuridão.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 113

«Se ao menos soubesse o que a maltratava por dentro, o que a fazia revolver-se destapada, como se a despedaçassem até a inutilizarem.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 1112

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015


«- A luz acende gotas de suor nos seus lábios.»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 109

« - Que fizemos nós? Porque nos apodreceu a alma?»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 102

Boy with pet owls, circa 1911


''rezando terços intermináveis''

«As suas pestanas já quietas; quieto já o seu coração.»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 94

  «Eu devia ter gritado; as minhas mãos deveriam ter-se despedaçado, esmagando o seu desespero.»

Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 93

sacristia

«(...) o sabor a sangue na língua.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 92

«- Vou andar um pouco, Ana. Para ver se arejo.
-Sente-se mal?
-Mal não, Ana. Mau. Um homem mau. É isso que sinto que sou.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 90

«-Eu sou um pobre homem disposto a humilhar-se, enquanto sentir o impulso para o fazer.»



Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 83

Vinho de sabugueiro

«Descansei o vício dos meus remorsos.»


Juan Rulfo. Pedro Páramo in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 83

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Doença Dos Ossos de Vidro

Osteogénese imperfeita

O guião é o princípio de um processo visual e não o final de um processo literário.
O romancista escreve enquanto o guionista trama, narra e descreve.


(Jean-Claude Carrière)
"O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta."
Agostinho da Silva, Entrevista

ENTRE DUAS MEMÓRIAS
"Se fosse possível distinguir o amor verdadeiro do falso como se distinguem os bons dos maus cogumelos. Para estes é tão simples. Bast polvilhá-los com sal, pô-los de lado e esperar. Mas no que diz respeito ao amor, logo que descobrimos qualquer coisa que de longe se lhe assemelhe, estamos absolutamente certos não de que é um especimen autêntico, mais ainda de que é talvez o único cogumelo verdadeiro ainda por colher. E é necessário um número terrível de cogumelos venenosos para nos convencermos de que a vida não é toda ela um imenso cogumelo comestível."
-"Diário"
- Katherine Mansfield
"Morreremos sem conhecer uma fracção grande de nós. E isto apenas porque ela não teve oportunidade de se manifestar. Eis porque, por exemplo, nem todos sabem de si que são heróis, ou cobardes"
- Vergílio Ferreira

POETA NU


"Que sabe um rio dos seus afluentes? E os afluentes dos subafluentes? E estes dos pequenos regatos da montanha? Os rios não têm memória. (Embora digam que a memória é um rio.)
Têm água. E nós sede."
-"O Poeta Nu"
- Jorge de Sousa Braga 

DESPEÇO-ME


"E só tu sobressais entre as demais
mulher eterna com a luz na fronte
e dominante agora em todo o horizonte
Humano mesmo se demasiado humano
povoam-me cidades sossegadas
de sonhos que semeiam as semanas
onde só o silêncio é soberano
Dobra-se a brisa à mão do meio-dia
a fantasia é fértil em verdade
e do presente obscuro português
algum futuro há-de enfim nascer
Do salmo lúgubre da luz final do dia
que já há quatro séculos se entoa
hã-de rasgar a noite portuguesa
as raparigas da cidade de lisboa
E eu hei-de voar ao vento do momento"

-"Despeço-me da Terra da Alegria"
- Ruy Belo 
"sente-se a lentidão, o peso,
minarem cada gesto; e antes
do gesto, a ideia de o fazer;
dançam agora dois a dois,
reconstituem a unidade
cindida ainda há pouco; os pares
mortais; a vocação
de transformar o tempo em rostos;
somam-se duas mortes,
e obtém-se uma criança; ela, sim:
resistirá, crescendo,
ao desgaste do dia,
procurará na outra noite
o corpo que define o seu;
protege-a a espuma, a máscara,
até de madrugada; e então,"

-"Entre Duas Memórias"
- Carlos de Oliveira 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

John Mateer



ESTA NOITE TUDO SERÁ BOM 

"Às vezes dou comigo a pensar no passado.
Jurámos um ao outro
que o nosso amor certamente sobreviveria.
Tu continuaste a amar. Eu fiz dieta.
Agora estou demasiado magro
e o teu amor é demasiado grande.
Mas, vejo pelos teus olhos, vejo pelo teu sorriso,
esta noite tudo será bom!
Tudo estará bem, por um momento.
Escolho os quartos em que durmo com cuidado.
As janelas são pequenas e as paredes quase nuas.
Há só uma cama, há só uma oração,
e espero toda a noite pelos teus passos na escada.
Mas, vejo pelo teus olhos, vejo pelo teu sorriso,
esta noite tudo será bom!
Tudo estará bem, por um momento.
Às vezes vejo-a despindo-se para mim.
Ela é a doce senhora nua que o amor construiu,
e move o seu corpo tão belo e tão livre.
Se eu tiver que lembrar,
essa será a melhor recordação.
Mas, vejo pelos teus olhos, vejo pelo teu sorriso,
esta noite tudo será bom!
Tudo estará bem, por um momento."

 Leonard Cohen"59 Canções de Amor e Ódio e Um Poema Sobre Portugal"

Delfim Lopes


Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo
sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia
depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um
parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais
diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-
bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava
impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o
que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e
urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às
nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então
os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha
intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora
era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos
eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era
uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas
abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder

in Vocação Animal, Dom Quixote, Lisboa, Maio de 1971.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Where there's smoke, there's fire.




"quantas vezes falamos sem nada dizermos do que é real,
mas sem desconhecermos um só instante essa realidade. Um entretém"



Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?, p.94.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

neo-bestas

"Sad Eyed Lady Of The Lowlands"




With your mercury mouth in the missionary times
And your eyes like smoke and your prayers like rhymes
And your silver cross, and your voice like chimes
Oh, who do they think could bury you ?
With your pockets well protected at last
And your streetcar visions which you place on the grass
And your flesh like silk, And you face like glass
Who among them do they think could carry you ?
Sad-eyed lady of the lowlands
Where the sad-eyed prophet says that no man comes
My warehouse eyes, my Arabian drums
Should I put them by your gate
Oh, sad-eyed lady, should I wait ?

With your sheets like metal and your belt like lace
And your deck of cards missing the jack and the ace
And your basement clothes and your hollow face
Who among them can think he could outguess you ?
With your silhouette when the sunlight dims
Into your eyes where the moonlight swims
And your match-book songs and your gypsy hymns
Who among them would try to impress you ?
Sad-eyed lady of the lowlands
Where the sad-eyed prophet says that no man comes
My warehouse eyes, my Arabian drums
Should I put them by your gate
Oh, sad-eyed lady, should I wait ?

The kings of Tyrus with their convict list
Are waiting in line for their geranium kiss
And you wouldn't know it would happen like this
But who among them really wants just to kiss you ?
With your childhood flames on your midnight rug
And your Spanish manners, and your mother's drugs
And your cowboy mouth and your curfew plugs
Who among them do you think could resist you ?
Sad-eyed lady of the lowlands
Where the sad-eyed prophet says that no man comes
My warehouse eyes, my Arabian drums
Should I leave them by your gate
Oh, sad-eyed lady, should I wait ?
Oh, the farmers and the businessmen they all did decide
To show you the dead angels that they used to hide
But why did they pick you to sympathize with their side ?
How could they ever mistake you ?
They wished you'd accepted the blame for the farm
But with the sea at your feet and the phony false alarm
And with the child of a hoodlum wrapped up in your arms
How could they ever, ever persuade you ?
Sad-eyed lady of the lowlands
Where the sad-eyed prophet says that no man comes
My warehouse eyes, my Arabian drums
Should I leave them by your gate
Oh, sad-eyed lady, should I wait ?

With your sheet-metal memory of Cannery Row
And your magazine-husband who one day just had to go
And your gentleness now, which you just can't help but show
Who among them do you think would employ you ?
Now you stand with your thief, you're on his parole
With your holy medallion which your fingertips fold
And your saintlike face and your ghostlike soul
Who among them do you think could destroy you ?
Sad-eyed lady of the lowlands
Where the sad-eyed prophet says that no man comes
My warehouse eyes, my Arabian drums
Should I leave them by your gate
Oh, sad-eyed lady, should I wait ?

"To Be Alone With You"



To be alone with you
Just you and me
Now won't you tell me the true
Ain't that the way it oughta be?
To hold each other tight
The whole night through
Ev'rything is always right
When I'm alone with you.

To be alone with you
At the close of the day
With only you in view
While evenings slips away
It only goes to show
That while life's pleasures be few
The only one I know
Is when I'm alone with you.

They say that nighttime is the right time
To be with the one you love
Too many thoughts get in the way in the day
But you're always what I'm thinkin' of
I wish the night were here
Bringin' me all of your charms
When only you are near
To hold me in your arms.

I'll always thank the Lord
When my working day's through
I get my sweet reward
To be alone with you.

"Day Of The Locusts"



Oh the benches were stained with tears and perspiration
The birdies were flying from tree to tree
There was little to say, there was no conversation
As I stepped to the stage to pick up my degree
And the locusts sang off in the distance
Yeah the locusts sang such a sweet melody
Oh, the locusts sang off in the distance
Yeah, the locusts sang and they were singing for me.

I glanced into the chamber where the judges were talking
Darkness was everywhere, it smelled like a tomb
I was ready to leave, I was already walkin'
But the next time I looked there was light in the room
And the locusts sang, yeah, it give me a chill
Oh, the locusts sang such a sweet melody
Oh, the locusts sang their high whinning trill
Yeah, the locusts sang and they were singing for me.

Outside of the gates the trucks were unloadin'
The weather was hot, a-nearly 90 degrees
The man standin' next to me, his head was exploding
Well, I was prayin' the pieces wouldn't fall on me
Yeah,the locusts sang off in the distance
Yeah the locusts sang such a sweet melody
Oh, the locusts sang off in the distance
And the locusts sang and they were singing for me.

I put down my robe, picked up my diploma
Took hold of my sweetheart and away we did drive
Straight for the hills, the black hills of Dakota
Sure was glad to get out of there alive
And the locusts sang, yeah, it give me a chill
Yeah, the locusts sang such a sweet melody
And the locusts sang with a high whinning trill
Yeah, the locusts sang and they were singing for me
Singing for me, well, singing for me.

"She's No Good"

Well, I don't know why I love you like I do
Nobody in the world can get along with you
You got the ways of a devil sleeping in a lion's den
I come home last night you wouldn't even let me in.

Oh sometimes you're as sweet as anybody want to be
Oh when you get the crazy notion of jumping all over me
Well, you give me the blues, I guess you're satisfied
When you give me the blues I wanna lay down and die.

I helped you when you had no shoes on your feet, pretty mama
I helped you when you had no food to eat
Now you're the kind of woman that just don't understand
You're taking all my money and give it to another man.

Well, you're that kind of woman makes a man lose his brains
You're that kind of woman drives a man insane
Well, you give me the blues, I guess you're satisfied
You give me the blues, I wanna lay down and die.

A Satisfied Mind


CONSCIÊNCIA DO NOSSO EU
"És uma ruína fantástica. Eu também."


-"Poemas Escolhidos"
- João Miguel Fernandes Jorge 

NOCTURNOS


"É de noite. Deito-me no chão e penso no meu corpo. Estou no meu corpo a seu lado. Interrogo que queres. Querer é a lei da boca.
Estás de visita meu corpo se agita o que é belo me agride. Uma chuva de dardos reconstrói o misterio que conduz ao êxtase. Nos amantes há sempre esse decisivo terror.
Estou na arcada da velha praça é quase noite. O tráfego está no auge. Estou perto do café que Fernando Pessoa frequentava. Olho e céu e digo parece de papel pardo. Encosto-me a uma das colunas. Penso e repenso o suicídio diário. Estou triste. Não posso amar senão em liberdade."


Ana Hatherly. "Poesia 1958-1978". Moraes Editores, 1980

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

NUIT CHEZ MAUD
"A água estava tão fria que, momentos depois, Maud já não sentia os dedos. Retirou a mão e pousou-a na erva espessa que, por contraste, lhe pareceu tépida.
No silêncio que reinava perto do rio, ouviu o barulho dos seus próprios soluços. Pouco depois, quis dobrar as pernas; doeram-lhe; e aconteceu o mesmo quando quis levantar-se. Por isso, com cuidado, encolheu-as, em direcção à concavidade que fazia o corpo curvado, e achou que o movimento tinha uma certa doçura, foi como se tivesse pena de si própria."

 Marguerite Duras. Os Insolentes.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015


1
estas cidades, grés animal, as garrafas de sangue nos passeios,
prenunciam devagarmente um acordar translúcido. o que
movimentam no espaço, e aos bandos
os pássaros decifram sobre o musgo e a hera,
é o mesmo ar que na traqueia queima; e o cimento,
translúcido, o mesmo que nos braços percorreu as veias,
que nos olhos foi lava, que nos brilhou na boca
dizendo: estas cidades, grés animal, um acordar sem boca.
2
movem nos muros, a vagina mineral das mães
adormecidas, entre os apitos trémulos do aço
e lenços verdes onde ocultam a cara. prenunciam, é certo,
algum visível afastamento das madeiras, algum
pensamento violentado, por isso as coisas permanecem sentadas
e compreensíveis, afastadas de súbito pelo vento oco.
3
arrebanhados, como cães feitos de água, os dentes
entendem, decifram sob o grés as patadas da terra,
espalham na violência um musgo que prenuncia a
transparência. foram construídas, assinaladas sobre o mapa por
bandos de pássaros, respondem a algum ódio decisivo,
algum afastamento da violência; o grés, os olhos,
e o próprio desenho aéreo das lágrimas, aonde
se perde pé muito de repente e se afundam as asas
como uma lava dividida, um vidro, a soar junto à boca.
4
separam, mas esse
é o seu rancor exaltado, a madeira onde furam
as gengivas dos cães, e muito depois brilha o calcário dos dentes.
nasceram de um modo diferente de pousar os ossos
contra o peso da tarde, alguma raiva, algum pedal minucioso,
como quando a sombra do pianista oculta um muro baixo
onde está sentada, ausente ao musgo, a mulher que um dia
[desejámos.
5
outras, as que brilham, as que espalham um lenço verde
ao pescoço dos cães, e largas redes no ar empalidecido
invisíveis capturam, as que vêm
de dentro de um muro, e sobre um muro movem
ombros de grés, então é noite, apetece uma nuvem,
uma pedra sem cor que nos oculte o peito, o sangue
transborda, e os apitos soam com a fúria dos grandes animais.
6
vêm, talvez, do acaso, como grandes nuvens de musgo
[amordaçado,
ou animais encostados, ou a violência de uma gengiva
onde o sangue bateu com patadas de cuspo. uma manhã
se afastam no rancor, recobertas de grés permanecem sentadas,
prenunciando, talvez, o ronco insuportável de uma boca.
7
o que movem no ar movem no sangue, um grés animal,
a madeira das mães anoitecidas.
amealham no peito os grãos translúcidos, prenunciando
algum afastamento decisivo.
o que afastam capturam. é um novo muro, então,
à sombra das cidades, deitado sobre a boca.


 António Franco Alexandre
Kim Gordon

 ‘The male music writers were cowardly in person. They would then go home and write cruel, ageist things. I assumed they were terrified of women.’
«A fera respeita a minha cabeça!
À confiança, mergulho-a na goela,
Basta uma brincadeira e lá se vai ela!»

Frank WedekindEspírito da Terra. A Caixa de Pandora. Obra dramática em duas partes. Tragédias. Tradução e introdução de Aires Graça. Centro de Dramaturgia Contemporâneas - Porto. Livros Cotovia - Lisboa, 2001., p. 20


«Minha ferazinha não sejas afectada!
Nem tola, nem artificial, de muitos acenos,
Mesmo que os críticos te elogiem menos.
Não tens o direito, a miar, gemer,
De retorcer o arquétipo da mulher,
Com caretas e trejeitos de ofício,
Estragar a inocência infantil do vício.
Deves - por isso, à minúcia converso -
Falar naturalmente e não o inverso!
Pois nas artes, desde a primeira idade,
A suprema lei é a espontaneidade



Frank WedekindEspírito da Terra. A Caixa de Pandora. Obra dramática em duas partes. Tragédias. Tradução e introdução de Aires Graça. Centro de Dramaturgia Contemporâneas - Porto. Livros Cotovia - Lisboa, 2001., p. 19

domingo, 8 de fevereiro de 2015

«Claro, eu sei, rides entre dentes,
Pensais que já disse patranha de sobra - »



Frank Wedekind. Espírito da Terra. A Caixa de Pandora. Obra dramática em duas partes. Tragédias. Tradução e introdução de Aires Graça. Centro de Dramaturgia Contemporâneas - Porto. Livros Cotovia - Lisboa, 2001., p. 18
«Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou há-se aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.»

 - N.T: Lucas, XVI,:13

Trabalho do olhar

"Não leias. Olha as figuras brancas desenhadas pelos intervalos separando as palavras de várias linhas dos livros e inspira-te nelas.
Dá aos outros a tua mão a guardar.
Não te deites sobre as muralhas.
Retoma a armadura que abandonaste na idade da razão.
Põe a orde no seu lugar, desarruma as pedras da estrada.
Se sangras e é homem, apaga a última palavra da ardósia.
Forma os teus olhos, fechando-os.
Dá aos sonhos que esqueceste o valor daquilo que não conheces."


"A Imaculada Concepção"
 Andre Breton / Paul Eluard

sábado, 7 de fevereiro de 2015


DREAM OF DREAMS
"Sonhava. Dormia. Na verdade não sonhava. Antes sentia-se arrebatado por uma estranha sensação de amor. Um avental de olhos que se agitavam e desabrochavam como tantos bolbos.
E depois nada. Nada no jardim que se estendia até ao mar. Salvo uma flor de um desses bolbos. Uma única túlipa. Alongada, só e negra, como uma mancha no sol."

 Patti Smith"O Mar de Coral"

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A VIDA E ESPÍRITO SE INFLAMEM EM VÓS 

"Não é meu coração sagrado e cheio da mais bela vida
Desde que amo? Porque é que mais me estimáveis
Quando era mais orgulhoso e brutal,
Mais verboso e mais vazio?
Ai! à turba agrada o que é bom para o mercado,
E o servo só sabe honrar o violento;
No divino só crêem
Aqueles que o são,"
-"Poemas"
- Hölderlin

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

''A Kim Gordon a querer arranjar porrada!'' Arte Sonora Revista




It's All Over Now, Baby Blue by Bob Dylan

You must leave now, take what you need, you think will last
But whatever you wish to keep, you better grab it fast
Yonder stands your orphan with his gun
Crying like a fire in the sun
Look out the saints are comin’ through
And it’s all over now, Baby Blue
The highway is for gamblers, better use your sense
Take what you have gathered from coincidence
The empty-handed painter from your streets
Is drawing crazy patterns on your sheets
This sky, too, is folding under you
And it’s all over now, Baby Blue
All your seasick sailors, they are rowing home
All your reindeer armies, are all going home
The lover who just walked out your door
Has taken all his blankets from the floor
The carpet, too, is moving under you
And it’s all over now, Baby Blue
Leave your stepping stones behind, something calls for you
Forget the dead you’ve left, they will not follow you
The vagabond who’s rapping at your door
Is standing in the clothes that you once wore
Strike another match, go start anew
And it’s all over now, Baby Blue

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015