quarta-feira, 29 de abril de 2015


“É que o meu sonho constante, desde a infância, o meu contínuo e único íntimo pensamento foi o ver-me de fora, foi o desdobrar-me em Eu e em Testemunha de mim, em uma Vida estranha, curiosa, interessante, e em o Autor dela”
- Fernando Pessoa, “Uma carta da Argentina”, in A Estrada do Esquecimento e Outros Contos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2015, p.42.
LEITURA E RECONHECIMENTO
"Como é que o passado reconhecce o presente? Como é que o presente reconhece o passado? Como é que o reproduzido reconhece o reprodutor? Como é que a mulher reconhece o homem?
Ou, exprimindo-se num tom mais japonês: como é que o Agora se agita com a visitação, a condensação, a capitalização do Outrora no fundo de si mesmo?
Ao reconhecimento excessivo e impossível (do fecundande pelo fecundado) oponho três formas de não reconhecimento: o desconhecimento, o reconhecimento insuficiente ou difícil, o reconhecimento excluído."~
-"Histórias de Amor de Outros Tempos"/ "Retratos Vivos"
- Pascal Quignard

segunda-feira, 27 de abril de 2015

AVENTURA NOS POÇOS DO DESEJO

"Ao olho incendiado que me despe fujo delicadamente ( as grandes oportunidades que por delicadeza se perdem!).
E o amor feito e desfeito como uma cama.."

-"Poemas Com Endereço"
- Alexandre O'Neill
- Moraes Editores, 1962 (Primeira Edição)

sexta-feira, 24 de abril de 2015


LUZ NATURAL
"A luz ficava bem à sua graciosidade e habitava entre
Cegos olhos e sombras que têm formas de homens;
Olhem, vejam como a luz nos derrete num cântico:
A luz do sol quebrada traz ela comom escudo
Que tem o meu coração sob a sua jurisdição.
No bosque selvagem nunca a cria da corça
Andou tão silenciosa; nenhuma teia é tecida
Tão delicada como ela, quando o sol
Afasta as claras esmeraldas das ervas inclinadas
Para que estes não seguem tão depressa, por onde ela passa."
-"Poemas Escolhidos"
- Ezra Pound
« - Procuro descobrir se há uma outra por detrás de ti. Uma outra Clarisse, a verdadeira.
   -Mas por que não há-de ser esta a verdadeira?
   -É o que pergunto em certos momentos.

(...)

  Fui possuído pela sensação de que, na maioria das vezes, eu era para Clarisse um inimigo atento ao mínimo deslize que lhe pudesse trair os defeitos. Tinha de me defender contra isso, tanto como das armadilhas do seu humor instável. »



Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 172

''cio das árvores a florir''

''castanho sanguíneo''


«Nem eu nem Clarisse falávamos, mas cada um de nós ia, decerto, com os nervos saturados do diálogo irritadiço dessa tarde, das frases que haviam ficado por dizer, reagrupando agora esses fragmentos talvez para os suavizar ou azedar mais ainda.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 168

«-Uma garota de nariz arrebitado. Caprichosa, volúvel, nem sempre fácil de aturar.
  -Volúvel? - repetiu Clarisse, numa inflexão interrogativa mas sonâmbula, como se recitasse uma frase vazia de sentido.
   -...E sobretudo uma garota que me puxa demasiadamente pela língua. Já devias saber que a loquacidade não está nos meus hábitos.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 166

The Red Shoes (1948) directed by Michael Powell and Emeric Pressburger


« - Às vezes tenho a impressão de que falo, ou que me escutas, de muito longe. E quando me calo, é como se nenhum de nós fosse real. - E emudeceu, a sopesar a verdade do que dizia.
   -Ao menos tu, serás real?
  Que podia eu dizer-lhe, sem a crosta dos hábitos a defender-me? Segui-lhe no rosto a minha própria emoção.
   -Deves ter razão em duvidar. Para te falar franco, chego a julgar que me inventaste - e apertei os dentes, atravessado por uma dor instantânea.
    -Mas eu não invento a tua frieza.
   Bem vi que outros pensamentos lhe galopavam de encontro às têmporas. Não lhes daria voz, porém. Pelo menos, a todos. Clarisse preferia não esticar, além de certos limites, as cordas do meu enfado. Picava-me, apenas. Ia aceitando, gradualmente, embora com espanto, fúria e terror, o pouco que eu lhe poderia oferecer.
   - Nunca quiseste saber nada de mim. Vá, que sabes tu do meu passado?
    Escorei-me nos antebraços. Procurei um cigarro nos bolsos. Media, à régua, as palavras que iria dizer.
    -Que te sentavas num café com esse arzinho provocante...E se falássemos de outras coisas? A propósito, Clarisse: usavas um gracioso colete de bombazina. Veste-o um dia destes. Ficava-te muito bem.
    Ela fixava-me, dorida, a desvendar um estranho.
    -Escuta, Jorge, agora escuta-me. Quero sentir que estás, realmente, aqui. Tu poderás compreender que eu deseje tanto que saibas tudo de mim? Só assim poderei pertencer-te, como eu quero. - Ela fazia pontaria ao meu mutismo, para o estilhaçar. Mas logo uma ira crispada lhe borbulhava nas narinas frementes. - Dá-me às vezes a impressão de que és um saco de areia. Dou um murro, a mão amolga o saco, mas não se ouve a pancada. E o saco, claro, fica na mesma. Será inútil repetir o murro.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 164/5
esclerosar

verbo transitivo, intransitivo e pronominal
1. (fazer) adquirir esclerose
2. figurado (fazer) perder capacidades físicas e/ou intelectuais; tornar senil
3. figurado (fazer) estagnar; não permitir a evolução (de)

ganapo


nome masculino

1. regionalismo rapaz pequeno, garoto, catraio
2. indivíduo velhaco
«Reparei quanto ela estremeceu de gula.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 153

Setenta anos sem Hitler


A PALAVRA CORPO
"Aquilo de que eu gosto no teu corpo éo sexo.
Aquilo de que eu gosto no teu sexo é a boca.
Aquilo de que eu gosto na tua boca é a língua.
Aquilo de que eu gosto na tua língua é a palavra."
-"Papéis Inesperados"
- Julio Cortázar
UMA SEMANA DE BONDADE
"O molar solitário de uma prostituta,
que morrera no aonimato,
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar."
- Gottfried Benn -
-"Expressionismo Alemão: Antologia Poética"
- Gottfriend Benn/ Georg Trakl / Ernst Stadler/ Georg Heym...
- Tradução: João Barrento

quinta-feira, 23 de abril de 2015

mimalhices

ferroada



«A minha convivência nos desatinos e excessos de Clarisse traduzia apenas a solidariedade que se deve a um ser humano desesperado. E, sobretudo, solitário no seu desespero.  Era este o disco entorpecente que fazia girar dentro do meu amor-próprio. E seria amor o que ela sentia?»



Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 145

«Talvez não seja inteiramente sincero ao dizer isto, pois, as mais das vezes, eu procurava muito mais interpretar-me, iludir as minhas acusações, do que ajudar Clarisse a libertar-se do pavor do dia seguinte. «Nada tenho dentro de mim a não ser o medo.» Ela bem o percebia, bem percebia o meu egoísmo. «Os homens são tão ciosos da sua invulnerabilidade! Tão estupidamente egoístas! (...)»



Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 144

MARILYN MONROE BY ANDRÉ DE DIENES, 1953


''grandiloquências românticas''


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 144

''nuns monossílabos acerbos que ele se dispensava de ouvir''


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 143

''encurralava-me nas grades do meu mutismo''


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 143
«Desta vez, eu tinha o cigarro entre os dedos. Ia-o deixando queimar-se até ao fim, ardendo-me na pele, e nele se consumiria, também, a minha indecisão. Um pouco mais, e iria sentir o saboroso ardor da carne martirizada.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 139

''desbotada resignação''

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quando a mãe se abeirou da cova
o corpo inerte pediu-lhe colo
numa língua que só as mães podem escutar
e a mulher mergulhou no sangue do seu sangue
coalhado
e que ainda assim continua a correr-lhes nas veias
como um membro amputado que mantém a presença num formigueiro inexistente
e no momento em que tornaram a cortar-lhe o cordão umbilical
não se ouviu o grito de choro da cria
apenas os guinchos que explodiam da garganta dilacerada da mãe
o horror
mantendo a boca aberta sem emitir som
cobriu com o seu corpo vivo o outro que jazia
deixando escorrer a baba que lhe escapava sem intenção
o dique descontrolado de fluídos
nessa barbárie de máquinas aplicada ao corpo
o corpo que obedecia a ordens continuando a manter funções
quando deveria ser esmagado

a mãe viu o pedaço de vidro ao lado do morto
um destroço da explosão deixado em divina correspondência
pegou na lâmina e cravou-a no pescoço
esguichou-se por inteiro até ao esvaziamento
a poça encarnada abarcou a família
e toda a descendência.
Na guerra só há razão. A barbárie alimenta-se de crânios.

Cláudia Lucas Chéu. in 70 Poemas Para Adorno, Vários Autores, Nova Delphi Editora, Funchal, 2015.

Al Berto em Coimbra, numa sessão de poesia from Rita Leonor Barqueiro on Vimeo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

''milenárias inibições''

Misantropia


nome feminino

1. ódio, aversão ao ser humano
2. aversão à convivência social
3. disposição sombria do espírito; melancolia profunda

''pau para toda a colher''

segunda-feira, 20 de abril de 2015

«Palavras de veludo. Vermes de pêlo acetinado.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 100

«A angustiada expressão dos olhos contradizia o sarcasmo da sua boca.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 99

«Ser uma vítima dócil, para sua comodidade?»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 98/9

«Agrada-lhe que eu seja bonita?
-A beleza agrada a toda a gente.
-A si também?
-Decerto.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 96

mezinha


«Fui ao seu encontro, olhei-o e soube logo que ia morrer. E parecia pedir-me já desculpa da sua morte, do incómodo da sua morte. Meu pai fora sempre uma sombra que se fizera sombra para não perturbar os demais.»



Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 87

«Eis a ponta do cigarro a queimar-me os dedos.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 86

''boca inútil''


«Despertou-o uma estranha sensação de frio. Tivera um sonho. Conduzia ao moinho uma carroça cheia de trigo, que, ao atravessar um rio, se atolara no lodo.»

Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 115

«Mas com grande espanto seu, Vassili Andréitch não pôde prosseguir porque os olhos se lhe encheram de lágrimas e o lábio inferior se lhe pôs a tremer convulsivamente. Deixou de falar, esforçando-se por abafar o soluço que lhe subia à garganta.»


Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 106
«Como todos aqueles que vivem perto da natureza e conhecem a miséria, era paciente e podia esperar horas e dias inteiros sem experimentar nervosismo e inquietação.»


Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 91/2

''flores esmaltadas''

MONOLOGOU

domingo, 19 de abril de 2015

"Belle de jour"


«(...), à procura dos estilhaços de cada uma das minhas palavras, até as reconstituírem sadicamente, numa terrível razão de revolta gratuita e de amargura.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 82

''Tinha razões subterrâneas para acusar-nos.''

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 76

«(...) de cigarro a acobrear-lhe os dedos nodosos,»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 75

«Que, ao menos, na floresta das palavras, eu saiba escolher apenas as necessárias.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 73
  «Esse mutismo deixou-a por momentos irresoluta, após o que decidiu dispensar o contraponto das minhas palavras.
 - Não tem o direito de me iludir. Nem a mim nem a ninguém.
   Esmaguei o cigarro com irritação. Os olhos ainda lacrimejavam.
 -Sabe o que está a dizer?
 -Sei  muito bem. Posso repeti-lo.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 70

«Dentro dele, o sofrimento levedava (...)»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 69


«Cinzas que ainda demoravam a arrefecer até que tudo terminasse.»

Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 68

''falas entarameladas''


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 63

«De tanto imaginar e sentir a doença, definhou.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 64

«(...)parece que lhe ia sofrendo as vagas de histerismo, tentando amansar-lhe os destemperos com uma ternura silenciosa e compungida.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 63

sábado, 18 de abril de 2015


''presença obcecante''

«(...) dois macacos decrépitos, testemunhas da sua existência»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 61

terça-feira, 14 de abril de 2015

''renovada fúria''

''mas as acalmias eram breves''


Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 70

"The Red Shoes", 1948



«(...); e agasalhou nas mangas as mãos geladas.»


Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 63

«Perto duma das casas, agitavam-se desesperadamente ao vento algumas peças de roupa postas a secar numa corda: duas camisas - uma branca e outra de cor -, cuecas, coturnos e uma saia. A camisa branca agitava-se com fúria, mexendo freneticamente os braços vazios.
   -Ora vejam aquela preguiçosa que nem para um dia de festa passou a roupa a ferro! Mas quem sabe? talvez esteja doente... - concluiu Nikita, olhando as camisas.»


Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 32
«(...); os seus pêlos ensopados em suor colavam-se-lhe ao pescoço e às pernas.»


Leão Tolstoi. Senhor e Servo. Antologia dos Amigos do Livro. Tradução de José Marinho. Inquérito Lisboa, p. 27.

''Pele-e-Osso''

''entreolhava-o''

bebedouro

BIOGRAFIA
"Para afastar
as eternas tristezas do mundo.
demoremo-nos bebendo
centenas e centenas de taças.
Uma Lua tão clara
não nos deixa dormir,
numa noite tão serena
apetecem as palavras puras.
Quando a embriaguez chegar
adormeceremos na montanha selvagem,
o céu por cobertor,
a terra por almofada."
-"Poemas"
- Li Bai
HABITAÇÃO
"Como ardiam aromas desses dias
que em ti cidade amada despertavam
e em águas e poços se apagavam
já tarde atrás de empenas Quando vias
que em tua tarde verde riam davam
sem nunca se encurtarem entre si as
horas alçando o sino em abadias
e anoitecendo todos repousavam
Muda a folhagem canta o vinho agora
sussurra o rio em falas e então vela
no amigo uma amizade a qual ignora
que silente sentir no amado anela
porque do lábio aberto o afasta antes
a palavra que à noite habita amantes."
-"Sonetos"
- Walter Benjamin
"[...]
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!
[...]"
- José de Almada Negreiros, A INVENÇÃO DO DIA CLARO, ed. fac-similada, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005

segunda-feira, 13 de abril de 2015

''cupidez nevrótica''



«De uma vida constrangida podiam rebentar todos os gritos.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 54

''num à-vontade fingido''


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 50

«Ou então faz-me bem um pouco de sujidade cenográfica, que se pegue aos sentidos, para depois facilmente sacudir a roupa e ter a ilusão de me sentir, por dentro, um tanto mais limpo que dantes.»


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 48/9

VOLTAR A CASA

"Às vezes imagino as paredes,
o mofo, a humidade, o brilho escuro;
muitas vezes detenho-me, atento
a cavidades, ao gorjeio leve
das águas. Recordo outros depósitos:
cisternas árabes, romanas, persas.
As águas deixam uma marca lânguida
sobre a pedra. Com frequência procuro
que se detenha o tempo dos outros,
- as lojas, os passeios, os Cafés -
faço um desvio e, só, aventuro-me
a caminho do depósito de águas.
Imagino a sua tensão de túnel,
aspiro essa humildade. E volto a casa."

-"Antologia"
José Ángel Cilleruelo
INSTANTE DO DIA 
"A morte não é mais do que isto: o quarto,
a tarde luminosa na janela.
e esta cassete na mesa de cabeceira
- tão apagada como o teu coração -
com as canções cantadas para sempre.
O teu último suspiro permanece
suspenso em mim: não deixo que se acabe.
Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?
Ouves as crianças que brincam no recreio?
Depois desta tarde,
sabes como será a noite, a noite de Primavera?
Virá gente.
A casa acenderá todas as luzes."

-"Misteriosamente Feliz"
Joan Margarit

''lagartas açuladas''

''equívocos de donzelas aluadas''


Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 46
«Suspeitei algumas vezes que ela reconhecia, com irritada decepção, que talvez a minha dureza fosse um disfarce, que por debaixo desta crosta enfatuada sangrava a minha tímida adesão aos dramas que me rodeavam.»



Fernando Namora. Domingo à Tarde. Editora Arcádia. 4ª Edição. p. 38/9

«Se queres que venha a ti e fique contigo, lança fora o velho fermento e limpa a morada do teu coração.
   Desterra de ti tudo o que é do século e o tumulto dos vícios. Assenta-te como o pássaro solitário no telhado e recorda as desordens da tua vida na amargura do teu coração.
  O amigo prepara sempre para o amigo o melhor aposento, e assim é que dá a conhecer com que afecto o recebe.»


in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 181

“Chamo liberdade à minha ignorância do destino; e destino ao meu ignorar da liberdade.”


 Agostinho da Silva

domingo, 12 de abril de 2015

''verbo de Deus''

in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 179

«Na verdade, o meu coração deveria arder e desfazer-se em lágrimas (...)»

in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 178
«2 . Mostra, pelas tuas preces, a pena que tens de ser ainda tão carnal e mundano; tão pouco mortificado nas paixões; tão cheio de desejos desordenados; tão negligente na guarda dos sentidos; tão perseguido de perniciosas imaginações; tão inclinado às coisas sensíveis: tão pouco cuidadoso de entrar no interior de ti mesmo; tão fácil para o riso e a dissolução; tão duro para a compunção e as lágrimas; tão pronto para as lassidões e comodidades do corpo; tão vagoroso para o fervor e a austeridade; tão curioso para ouvir novidades e contemplar coisas belas; tão indisposto para abraçar as coisas humildes e desprezíveis; tão ardente no desejo de possuir muito; tão moderado para o dar; tão avarento no reter; tão indiscreto no falar; tão inobservante do silêncio; tão pouco regulado nos costumes; tão pouco circunspectos nas acções; tão desordenado no comer; tão surdo às vozes de Deus; tão pronto para o descanso; tão preguiçoso para o trabalho; tão vigilante para ouvir anedotas e fábulas; tão sonolento para as sagradas vigílias; tão apressado para acabá-las e tão distraídos para atendê-las; tão negligente nas rezas das horas diurnas; tão tíbio na celebração de do santo sacrifício; tão seco na santa comunhão; tão fácil em distrair-se; tão difícil em recolher-se; tão ligeiro em irar-se; tão disposto a desprezar os outros; tão precipitado nos juízos; tão severo nas repreensões; tão alegre nas prosperidades; tão triste nos infortúnios; tão fecundo em resoluções, mas tão estéril em transformá-las em actos.»


in 
Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 172

''desejos desordenados''

in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 172

''chore as culpas alheias''

«Se o tempo te permitir, confessa a Deus, o segredo do teu coração, todas as misérias a que te reduzem as tuas paixões.»

in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 172
«5. Eu, na verdade, trabalho com o suor do meu rosto. Sinto penas que me atormentam o coração;»

in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 169

ESCOLHA DOS SERES


"Há na intimidade de um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.
Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.
Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração."

-"Só o Sangue Cheira a Sangue"
- Anna Akhmátova

sábado, 11 de abril de 2015


«A minha alma algumas vezes se entristece, até verter lágrimas, e algumas vezes se perturba, vendo-se oprimida pelas paixões.»


in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 138

quinta-feira, 9 de abril de 2015




«Por que motivo as palavras da incompreensão ou da injustiça te penetram até ao íntimo do teu coração, senão porque és ainda carnal e dás ainda aos homens uma importância que não merecem? Porque temes ser desprezado, não queres ser repreendido pelos teus defeitos e procuras encobri-los com a sombra de algumas desculpas?


2. Entra bem no conhecimento de ti mesmo e verás que o mundo ainda vive em ti, pelo desejo que tens de agradar aos homens. Fugindo de ser abatido e confundido por causa de teus defeitos, é visível que não és verdadeiramente humilde, nem verdadeiramente morto para o mundo, e que o mundo não está verdadeiramente morto para ti.
   Ouve as minhas palavras e não farás caso das palavras que os homens disserem. Quando eles disserem contra ti quanto a malícia pode inspirar, que danos receberias dessas injúrias, se as desprezasses como palha que voa pelo ar?
   Elas todas juntas não teriam força para fazer-te saltar da cabeça um só fio de cabelo.

3. Quem não anda recolhido interiormente e não traz Deus diante dos olhos, irrita-se com a menor palavra que o ofende. Mas quem confia em mim e não se aferra ao próprio juízo, nada teme da parte dos homens.
  Eu sou o juiz que conhece todos os segredos do coração humano. Eu sei como as coisas se passaram. Conheço, perfeitamente, quem faz a injúria e quem a sofre.
   Por minha ordem é que sofres. Por permissão minha é que este mal te sucede, para que se descubram os pensamentos ocultos no coração de muitos.
   Eu julgarei algum dia o inocente e o culpado; mas, por um juízo secreto, quero primeiro provar um e outro.»



in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 130
«Que coisas são as palavras dos homens, senão palavras? Elas voam pelo ar, mas não podem ferir a firmeza da pedra. Se, com efeito, és culpado, serve-te do que te dizem contra ti para te emendares. Se o não és, alegra-te de sofrer essa injúria pelo amor de Deus. Bem é que sofras, pelo menos, a tortura das palavras injustas, já que não podes sofrer graves tormentos.»



in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 129

beneplácito


nome masculino

aprovação dada a um acto; licença; consentimento

«Ponde na minha boca palavras sinceras e verdadeiras e apartai da minha língua a leviandade e o artifício, pois quero evitar em mim o que não quero sofrer nos outros.»

in Imitação de Cristo

Livro Terceiro. A Fonte das Consolações, p. 129

Mulher junto ao seu quarto de dormir (Lindoso, 1991)